Ycarim Melgaço

Professor e autor de livros, entre eles: A História das Viagens e do Turismo. Instagram @ycarim.

Atravessei o Atlântico para um compromisso acadêmico em Paris. Tinha hora marcada, roteiro definido e aquele tipo de expectativa silenciosa que acompanha encontros na Sorbonne, menos deslumbramento, mais propósito. Meu anfitrião francês havia detalhado tudo com rigor: qual linha de metrô pegar, em que estação descer, qual saída escolher. Não havia muito espaço para erro.

E, para ser sincero, eu não me via como alguém propenso a erros naquele cenário.

Antes mesmo da viagem, já havia estudado Paris por um ângulo bastante específico: o dos batedores de carteira, ou pickpockets. Sabia como operavam, onde atuavam, que tipo de distração exploravam. Não por paranoia, mas por interesse quase analítico — como quem observa uma coreografia urbana bem ensaiada. Vídeos, relatos, pequenas etnografias digitais: eu havia consumido o suficiente para acreditar que não seria facilmente surpreendido.

Foi com essa confiança, hoje me parece um pouco excessiva, que cheguei à estação Gare Front Populaire, no Campus Condorcet (Sorbonne Nouvelle), por volta das três e meia da tarde. Ainda tinha trinta minutos para a reunião. Tempo suficiente, pensei, para um pequeno desvio.

Do outro lado da rua, uma confeitaria exibia suas vitrines, aquelas guloseimas impecáveis parisienses. E ali, entre mil-folhas perfeitamente alinhados e tortas com brilho calculado, minha atenção, até então disciplinada, cedeu sem grande resistência.

Entrei.

O deslumbramento foi imediato. Eram tantas opções de texturas, cores e camadas que minha visão de geógrafo se perdeu naquela topografia de chocolates e cremes. Para examinar melhor as coordenadas das delícias, saquei os óculos do bolso. Meus olhos iam da esquerda para a direita, indecisos entre o rigor de uma tarte au citron e a exuberância de um mil-folhas.

Foi nesse breve instante banal, quase invisível  que o mundo real colidiu comigo.

Um esbarrão forte, vindo por trás. Nada extraordinário para uma cidade apressada. Paris é cheia, os espaços são disputados, os corpos se cruzam sem cerimônia. Segui o movimento sem imaginar que, naquele instante, eu havia acabado de ser furtado.

Eu carregava dois telefones naquela viagem uma estratégia deliberada. O primeiro, um aparelho mais simples, sem muito requinte, que servia como leitor digital: ali eu lia livros, jornais, artigos científicos, enfim. Era exclusivamente para isso. Tanto que nem tinha chip. Ficava no bolso externo da mochila, acessível e prático.

O segundo aparelho era meu verdadeiro telefone muito mais potente, mais caro, mais robusto, equipado com todas as informações importantes, meus aplicativos, contatos. Esse permanecia sempre no bolso interno da camisa, junto ao peito.

Foi o aparelho mais simples, aquele que estava no bolso externo da mochila, que foi vítima do pickpocket.

Respirei fundo.

Não importa qual seja o aparelho, ser furtado deixa a gente profundamente chateado. Há um sentimento de impotência que toma conta: você olha para os lados, não vê mais ninguém, a pessoa desapareceu como num passe de mágica. E você fica ali, parado, sem saber exatamente o que fazer entre o choque e a raiva muda.

Mas eu tinha um compromisso. Um compromisso importante, que havia me trazido até ali. Então, por mais contrariado que estivesse, decidi seguir em frente. Guardei a chateação, engoli o sentimento de désolé e caminhei.

Jamais imaginei que pudesse acontecer ali. Não estava na Torre Eiffel, nem no Arco do Triunfo, nem em Notre-Dame, os pontos clássicos de atuação dos pickpockets que eu tanto havia estudado. Estava numa zona universitária, entre estudantes e confeitarias, numa área onde turistas quase não chegam. Entre baguetes e mil-folhas, num ambiente que parecia seguro.

Mas você acha que a história termina aí?

Não.

Antes mesmo que eu pudesse processar completamente o ocorrido, surgiu um homem com a segurança de quem chega na hora certa. Mostrou uma carteira funcional, identificou-se como policial e, com um tom grave e ensaiado, anunciou:

— Monsieur, sua mochila foi aberta.

Ofereceu-se imediatamente para me conduzir à delegacia mais próxima.

Havia ali algo de excessivamente perfeito como se a encenação já estivesse pronta antes mesmo da minha entrada em cena. Num gesto quase automático, levei a mão ao bolso da camisa. O telefone principal estava lá: intacto, aquecido, presente.

Olhei para ele, depois para o suposto policial.

Disse que estava com meu telefone, que não havia problema algum e que não pretendia acompanhá-lo. O rosto do homem desabou em um desgosto difícil de disfarçar. Ele claramente esperava outro tipo de personagem alguém mais perdido, mais vulnerável, mais disposto a seguir o roteiro.

Não era o caso. Pelo menos, não completamente.

Saí da confeitaria sem o doce, sem o telefone secundário e com a sensação incômoda de ter sido, apesar de toda preparação, perfeitamente enquadrado. Caminhei sob a chuva fina até a Sorbonne, agora menos atento às vitrines e mais consciente dos próprios bolsos.

Ser furtado nunca é agradável. Há um desconforto que vai além da perda material, uma espécie de irritação consigo mesmo, como se a falha fosse menos do mundo e mais da própria vigilância. Mas eu tinha um compromisso a cumprir.

E a vida, às vezes, reequilibra as coisas de um jeito inesperado.

A reunião na Sorbonne foi um sucesso. O debate fluiu com intensidade, as ideias encontraram ressonância e, ao final da tarde, recebi um convite que eu não esperava: ministrar uma palestra sobre minha pesquisa a respeito dos impactos da indústria de grãos em Santarém, no Pará. Ali, diante de professores e pesquisadores franceses, a Amazônia ocuparia o centro da discussão, não como cenário exótico, mas como território em disputa.

No caminho de volta ao hotel, ainda sob a mesma chuva fina, não resisti a rir sozinho da ironia do dia.

Eu havia atravessado o Atlântico armado de vídeos, teoria e uma confiança quase metodológica sobre os riscos urbanos de Paris. Estudei os pickpockets, seus pontos de atuação, suas técnicas. E, no entanto, fui furtado em plena zona universitária, dentro de uma confeitaria, distraído por um mil-folhas.

Mas terminei o dia convidado a falar, na elite intelectual francesa, sobre a realidade territorial da Amazônia brasileira.

O que restou dessa experiência entre um pickpocket e um encontro na Sorbonne Nouvelle?

pickpocket levou um telefone simples e barato.

Eu levei um choque. Mas, em compensação, recebi um convite para apresentar minha pesquisa numa conferência sobre a Amazônia.

No final, acho que saí ganhando.