O Brasil na Copa de 2026: entre o “se” e o “quase”
06 julho 2026 às 17h06

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Ycarim Melgaço
Professor e escritor, autor de “História das Viagens e do Turismo” (entre outros). Instagram: @ycarim
Mais uma Copa do Mundo vai embora.
A de 2026 termina para nós como tantas outras: malas prontas, voo de volta e um país inteiro tentando entender por que a bola não entrou.
É curioso. Basta o árbitro apitar o fim da partida para começar outro jogo, aquele que só existe na cabeça do torcedor.
E se o Bruno Guimarães tivesse batido aquele pênalti com mais força?
E se, em vez de olhar apenas para a bola, tivesse olhado para o goleiro?
E se o Endrick tivesse acertado aquele chute?
E se o Haaland, o grandalhão da Noruega e um dos grandes nomes desta Copa, não estivesse exatamente ali para cabecear aquela bola?
E se o Neymar ainda estivesse em campo para cobrar mais um pênalti?
E se o árbitro tivesse dado mais alguns minutos?
É assim que entram em campo dois personagens que nunca ficam no banco: o “se” e o “quase”.
Quase empatamos.
Quase levamos o jogo para a prorrogação.
Quase seguimos vivos na Copa.
O brasileiro tem uma relação curiosa com a derrota. Em vez de aceitar o resultado, prefere reconstruir uma partida que nunca existiu. O “se” fabrica hipóteses. O “quase” ameniza a frustração. Nenhum dos dois, porém, muda o placar.
O futebol não conhece o “se”. Nem premia o “quase”.
A bola entra ou não entra. O pênalti é convertido ou desperdiçado. Um cabeceio decide uma classificação. Um detalhe pode mandar uma seleção inteira para casa.
Enquanto nós ainda discutíamos o “se” e o “quase”, havia uma empresa absolutamente tranquila com qualquer resultado daquela partida.
A Nike.
Ela patrocinava a combalida seleção brasileira e também a seleção da Noruega.
Se o Brasil avançasse, ela venceria.
Como quem avançou foi a Noruega, ela também venceu.
Porque a Nike não trabalha com “se”.
Nem com “quase”.
Ela trabalha com planejamento estratégico. Com métricas. Com posicionamento de marca. Com decisões cuidadosamente calculadas. Seu objetivo não é vencer uma partida, mas construir um modelo de negócios capaz de vencer qualquer cenário.
Aliás, vocês repararam nas chuteiras?
Os jogadores brasileiros usavam chuteiras cor-de-rosa.
Os jogadores noruegueses também.
A mesma cor.
A mesma marca.
A mesma estratégia.
Enquanto nós enxergávamos duas seleções disputando uma vaga nas quartas de final, a Nike enxergava duas vitrines exibindo o mesmo produto para bilhões de pessoas ao redor do planeta.
Talvez tenha sido exatamente isso que faltou ao Brasil: menos improviso, menos dependência do acaso e muito mais estratégia.
Em 2030 tem mais.
Espero que sim.
E que, até lá, o nosso “se” deixe de ser desculpa e passe a ser compromisso.
Quanto ao “quase”, esse pode ficar em 2026.



