Ycarim Melgaço

Professor e escritor, autor de “História das Viagens e do Turismo” (entre outros). Instagram: @ycarim

Mais uma Copa do Mundo vai embora.

A de 2026 termina para nós como tantas outras: malas prontas, voo de volta e um país inteiro tentando entender por que a bola não entrou.

É curioso. Basta o árbitro apitar o fim da partida para começar outro jogo, aquele que só existe na cabeça do torcedor.

E se o Bruno Guimarães tivesse batido aquele pênalti com mais força?

E se, em vez de olhar apenas para a bola, tivesse olhado para o goleiro?

E se o Endrick tivesse acertado aquele chute?

E se o Haaland, o grandalhão da Noruega e um dos grandes nomes desta Copa, não estivesse exatamente ali para cabecear aquela bola?

E se o Neymar ainda estivesse em campo para cobrar mais um pênalti?

E se o árbitro tivesse dado mais alguns minutos?

É assim que entram em campo dois personagens que nunca ficam no banco: o “se” e o “quase”.

Quase empatamos.

Quase levamos o jogo para a prorrogação.

Quase seguimos vivos na Copa.

O brasileiro tem uma relação curiosa com a derrota. Em vez de aceitar o resultado, prefere reconstruir uma partida que nunca existiu. O “se” fabrica hipóteses. O “quase” ameniza a frustração. Nenhum dos dois, porém, muda o placar.

O futebol não conhece o “se”. Nem premia o “quase”.

A bola entra ou não entra. O pênalti é convertido ou desperdiçado. Um cabeceio decide uma classificação. Um detalhe pode mandar uma seleção inteira para casa.

Enquanto nós ainda discutíamos o “se” e o “quase”, havia uma empresa absolutamente tranquila com qualquer resultado daquela partida.

A Nike.

Ela patrocinava a combalida seleção brasileira e também a seleção da Noruega.

Se o Brasil avançasse, ela venceria.

Como quem avançou foi a Noruega, ela também venceu.

Porque a Nike não trabalha com “se”.

Nem com “quase”.

Ela trabalha com planejamento estratégico. Com métricas. Com posicionamento de marca. Com decisões cuidadosamente calculadas. Seu objetivo não é vencer uma partida, mas construir um modelo de negócios capaz de vencer qualquer cenário.

Aliás, vocês repararam nas chuteiras?

Os jogadores brasileiros usavam chuteiras cor-de-rosa.

Os jogadores noruegueses também.

A mesma cor.

A mesma marca.

A mesma estratégia.

Enquanto nós enxergávamos duas seleções disputando uma vaga nas quartas de final, a Nike enxergava duas vitrines exibindo o mesmo produto para bilhões de pessoas ao redor do planeta.

Talvez tenha sido exatamente isso que faltou ao Brasil: menos improviso, menos dependência do acaso e muito mais estratégia.

Em 2030 tem mais.

Espero que sim.

E que, até lá, o nosso “se” deixe de ser desculpa e passe a ser compromisso.

Quanto ao “quase”, esse pode ficar em 2026.