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Philip Roth e a seiva do fanatismo

Em “Indignação”, o escritor norte-americano Philip Roth mostra como nossas escolhas mais insignificantes podem ter consequências devastadoras

[caption id="attachment_4940" align="alignright" width="620"]Philip Roth, escritor americano, cria um universo ficcional para tratar de dois assuntos polêmicos: a Guerra da Coreia e a tensão sexual entre jovens e adultos | Foto: Richard Drew/AP Philip Roth, escritor americano, cria um universo ficcional para tratar de dois assuntos polêmicos: a Guerra da Coreia e a tensão sexual entre jovens e adultos | Foto: Richard Drew/AP[/caption]

J.C. Guimarães Especial para o Jornal Opção

Matemático e fundador do X-Center, em Viena, John Casti es­tuda eventos extremos. Em livro traduzido no Brasil, “O Co­lapso de Tudo, o cientista enumera sete princípios da complexidade, entre eles o chamado Efeito Borboleta: “A ideia básica é que os sistemas complexos são patologicamente sensíveis a mudanças minúsculas em seu estado inicial”. Tais mudanças, apesar de insignificantes, evoluem exponencialmente e produzem consequências devastadoras, na extremidade. Um exemplo aleatório, inacreditável e verdadeiro, segundo Casti: George W. Bush se reelegeu presidente dos Estados Unidos, em 2004, porque uma funcionária do processo eleitoral americano, Theresa Le Port, aumentou o tamanho da tipografia na cédula eleitoral.

Imagino que esta seja uma maneira nada convencional de começar a estudar um romance; no caso, “Indignação”, do americano Philip Roth, traduzido por Jório Dauster. A antropologia demonstrou que as relações sociais, com seus códigos, ritos e valores, constituem verdadeiros sistemas, e as últimas palavras do protagonista Marcus Messner justificam a analogia em questão, ao referir-se à “forma terrível e incompreensível pela qual nossas escolhas mais banais, fortuitas e até cômicas conduzem a resultados tão desproporcionais”. O resultado a que se refere é a própria morte numa guerra, e as escolhas banais um conjunto de pequenos atos, o primeiro dos quais a fuga de casa para escapar da perseguição paterna, estimulada por premonições. Mais tarde, a masturbação fortuita com que a única namorada satisfez a ereção súbita do herói, dentro de um hospital, gesto decisivo para aquele trágico desfecho. “Por um rápido toque de mão de Olívia, minha recompensa seria a Coreia”, diz, já morto, rememorando os fatos de sua vida. Que nexo previamente oculto pode haver entre tudo isto e aquilo?

Desvendar o que está por trás de tais absurdos — similares aos absurdos da vida real — foi a tarefa que se propôs Philip Roth com “Indignação”, história organizada em quatro núcleos dramáticos: a família, constituída de pai e mãe; a universidade, representada pelo diretor de alunos Howes D. Caudwell e pelo presidente Albin Lentz; as confrarias da instituição, sobressaindo os colegas Sonny Cottler, o endiabrado Bertram Flusser e Elvyn Ayers Jr.; por último o amor, Olívia Hutton. A guerra é a sombra que paira do primeiro ao último parágrafo; sombra que é o simulacro da morte, empestando de sangue a vida de Messner desde a adolescência até o campo de batalha. Grande ironia, o eviscerador de galinhas terminará fatiado por uma baioneta aos 19 anos de idade, cumprindo as premonições do pai.

Marcus Messner é filho de açougueiros judeus, único rebento de um pai atemorizado pela ideia de perdê-lo em função de algum descuido, “a menor coisinha”. O contexto histórico justifica sua paranoia: o drama se passa entre 1951 e 1952, nos Estados Unidos, durante a guerra contra os comunistas no extremo oriente, e o passado da família em conflitos dessa natureza é negativo. Compreen­sível, o temor paterno vira obsessão, e é com o objetivo de livrar-se desse tormento doméstico que o rapaz entra para a universidade: “Estava ansioso para me tornar adulto e independente, exatamente aquilo que vinha causando terror em meu pai”.

Messner estuda o primeiro ano na Robert Treat, localizada em Newark, onde mora, e assim seria até se formar, caso o pai não começasse a persegui-lo. Isso o leva a transferir-se para a provinciana Winesburg, na área rural de Ohio, primeiro daqueles passos fatais. A nova universidade é provinciana, tradicionalista e profundamente influenciada pelo moralismo puritano dos seus dirigentes, em contraste com as convicções liberais do novo aluno. O rapaz se depara com os valores predominantes da direção e também das confrarias de estudantes, que tentam cooptá-lo: “Quase toda a vida social dos cerca de mil e duzentos alunos da universidade se passava atrás das pesadas portas com ferragens negras das fraternidades”. Apesar do assédio, Mes­s­ner mantém-se equidistante, com um único objetivo em mente: estudar. É tão aplicado nos estudos — que lhe serviriam ainda para es­capar da convocação militar, ou, quando menos, assegurar-lhe uma patente — que logo desentende-se com Bertram Flusser, companheiro de quarto que não lhe dá sossego. Consequentemente, muda-se para outro quarto, onde trava relações com o silencioso Elvym Eyers Jr., cujo único interesse é o próprio carro, um possante modelo La salle, da GM.

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Enquanto isso Messner se envolve com Olívia Hutton, primeira e única experiência erótica de sua curta existência: “Jamais me sentira tão vulnerável ao repartido dos cabelos de qualquer pessoa”. Como ele próprio, Olívia é uma estudante solitária e inteligente, muito acima da média. Certo dia saem juntos no carro de Elvym, quando então a garota lhe faz sexo oral, deixando-o extasiado e entregue à paixão. Logo ele descobrirá que a garota é depressiva e tentara o suicídio, cortando o pulso. Trocam correspondências, e Messner decide revelar o que lhe aconteceu a Elvym, que, insensível, chama Olívia de prostituta. Este aproveita a ocasião e diz que ela houvera praticado o mesmo gesto em Sonny Cottler, de traços principescos e líder de uma das fraternidades locais. Desentendem-se e Messner decide trocar de quarto pela segunda vez: entra em cena o diretor de alunos Howes D. Caudwel, iniciando uma perseguição não menos implacável que a do pai. Discutem abertamente e Caudwel descobre as tendências ateias e materialistas de Messner, que apenas piora sua situação junto ao diretor, tradicionalista empedernido.

Enquanto discutem o rapaz passa mal e, em seguida, é internado num hospital para tratar uma apendicite. Internado, recebe a visita de Olívia, oportunidade em que ela lhe faz carícias sexuais: por infelicidade o casal é surpreendido pela enfermeira no momento exato do clímax. Dá-se, assim, o terceiro passo para cumprir aquele trágico destino (como adivinhar o futuro?). Também sua mãe vem visitá-lo e conhece Olívia. Perspicaz, desaprova veementemente tal relacionamento; ela tem sobre a família do velho Messner — de quem pretende ser separar — as mesmas reservas do filho racional, agora tentado pelos sentimentos, dando-lhe o conselho memorável: “Não seja como eles. Você tem que ser maior que seus sentimentos. Não sou eu que exige isso de você; é a vida que exige. Se não, você vai ser levado de roldão pelos seus sentimentos. Eles vão te levar até o mar e você não será mais visto. Os sentimentos podem ser o maior problema na vida”.

O filho promete, mas não cumpre, ir adiante com a namorada, e quando volta para a universidade não consegue mais reencontrá-la. Os fatos vão se concatenando e Caudwel novamente convida o rapaz para ir ao seu gabinete, com a desculpa de convidá-lo para o time de beisebol da universidade. Lá chegando, o afoito Messner precipita-se e pergunta ao diretor sobre o paradeiro de Olívia, sendo informado que ela fora internada numa clínica psiquiátrica, e mais: está grávida. A suspeita recai sobre ele, uma vez que o diretor ficou sabendo o que houve no hospital, entre o casal.

O último passo em falso de Messner, que poderia ser descoberto por Caudwel, foi ter aceitado o conselho de Sonny Cottler — de quem sempre desconfiara — para subornar um certo Marty Ziegler com o objetivo de prestar o serviço religioso em seu lugar, já que não suporta a obrigatoriedade de assistir à doutrinação religiosa, de acordo com o programa universitário. Na sequência, ocorre um fato capital, de ressonâncias políticas: a rebelião de estudantes conhecido depois como Grande Ataque às Calcinhas Brancas, quando uma simples brincadeira na neve evolui para uma catarse coletiva de fortes conotações sexuais. A repercussão é nacional e escandalosamente inaceitável para a instituição e seus fundamentos retrógrados. Iniciam-se os interrogatórios e uma série de alunos terminam expulsos, entre os quais o infeliz Marcus Messner. Ao ser expulso é convocado pelo exército. Convocado, morre na guerra da qual tentou, desesperadamente, escapar.

As últimas páginas sumariam a carnificina no campo de batalha, e só então tomamos conhecimento de que estávamos ouvindo a narrativa de um cadáver: “Memória em cima de memória — nada mais do que memória.”

“Indignação” é a lembrança de um morto, aliás como a do nosso melancólico Brás Cubas. Curiosa­mente, Roth leu o romance de Machado de Assis e depois esqueceu o nome do autor brasileiro, conforme declarou em entrevista concedida à revista “Época”.

“Você sabe que li um único autor brasileiro? É a imagem que tenho do Brasil. Não me recordo do nome dele, mas é um romance irônico, de narrativa descontínua, sobre um homem morto que conta suas paixões e confusões em primeira pessoa. Adorei.”

Esquecer Machado de Assis é, de nossa pers­pectiva, um tanto inacreditável, principalmente por sensibilidades extraordinárias quanto a do escritor americano. Ele tampouco es­cla­rece quando é que o leu (seu romance foi pu­blicado em 2008), em todo o caso a analogia é evidente, sem que se possa falar com se­gu­rança em influência direta ou indireta. Roth nasceu em 1933 e tornou-se um dos mais premiados autores dos Estados Unidos, tendo amealhado o Pulitzer, por “Pastoral Ame­ri­ca­na”, e o Príncipe das Astúrias, por sua contri­bui­ção à literatura. Malcolm Bradbury (“O Ro­mance Americano Moderno”) o situa no grupo dos “judaico-norte-americanos”, do qual fazem parte Saul Bellow, Norman Mailer e Bernard Malamud. O humanismo era o ob­je­tivo comum desta vertente, além do desejo de “ligar a história do indivíduo com o processo mais amplo da sociedade, porém tais indivíduos tinham de ser vistos também como alienados, vitimizados, deslocados, materialmente satisfeitos mas espiritualmente danificados, conformistas mas sem lei, racionais mas anárquicos”.

Podemos enxergar algumas dessas características em Marcus Messner, seguramente vitimizado, deslocado e racional a ponto de não tolerar a influência religiosa na instituição laica, na qual pretende se ver livre do pai. “Indignação” trata de dois assuntos polêmicos, bastante conhecidos da geração de meados do século 20, nos Estados Unidos: a Guerra da Coreia e o moralismo sexual prevalecente nas regiões mais provincianas do país. O auge desse conflito de valores culturais entre gerações explodiria anos mais tarde, durante a luta pelos direitos civis no contexto político da Grande Sociedade, de Lyndon Johnson. Para tratar daqueles assuntos, com a propriedade de uma testemunha, é que Roth cria o universo inteiramente novo e surpreendente de “Indignação”. É impossível prever a sorte desse livro na extensa e representativa produção de Roth, em todo caso ele tem a força das obras capitais.

Do autor eu li também “O Animal Agonizante”, romance mais intimista e, a meu ver, menos fascinante, que narra a aventura amorosa de um velho com uma garota sensualíssima. Permite estabelecer uma tendência do autor, observada por Bradbury, ao registrar a ligação da história individual com “o processo mais amplo da sociedade”. De fato, ele gosta de colocar seus personagens em choque contra os valores institucionalizados. Outra vez deparamos com o tema da liberdade sexual, e outra vez nos vemos dentro de uma narrativa parcialmente histórica, colidindo duas ideologias por intermédio da ação individual. O individualismo de Messner é eloquente, e ignoro se por isso Roth — autor de pelo menos 30 obras literárias — pode ser definido como escritor emersoniano. Mas “Indigna­ção” possui elementos que reafirmam aquele ethos individualista, proclamado pelo sábio de Concord. Baseio essa opinião no conflito do personagem contra a moral prevalecente e num importante ensaio transcendentalista, “Autoconfiança”, em minha opinião o mais memorável dos escritos que conheço de Ralph Waldo Emerson.

No longo e tenso diálogo ocorrido no primeiro encontro com o diretor Caudwell — quando o conselho da mãe cede ao impulso e ele manda o diretor “se foder!” (“Os sentimentos podem ser o maior problema na vida”, dizia ela) —, nesse encontro Messner evoca Bertrand Russel para fundamentar sua recusa em aceitar as regras impostas pela instituição, dizendo que pretende viver em conformidade com o ideário contido no ensaio “Por que Não Sou um Cristão”, do filósofo inglês. As altercações do diretor se voltam todas para a preferência religiosa, o relacionamento social e o convívio familiar de Messner, permitindo acompanhar como a moral puritana se infiltra na intimidade dos estudantes, pretendendo dominá-los completamente. Trata-se do diálogo mais absurdo do mundo, no qual o diretor de alunos faz perguntas invasivas que poderiam ser feitas a si mesmo, diante do espelho, para cair em contradição. É um capítulo de alto humorismo, de onde aliás se extrai o título “Indignation”, inspirado no hino nacional chinês, que Messner recordará ao entrar na sala do intragável diretor de alunos:

“Erguei-vos, vós que recusais a serdes escravos! Com nossa própria carne e sangue Constituiremos uma nova Grande Muralha! O povo chinês encontrou o seu dia de perigo. A indignação enche o coração de todos os nossos compatriotas, Erguei-vos! Erguei-vos! Erguei-vos!”

Caudwell não admite as “dificuldades de socialização” e “isolamento” de seu aluno, seguro o bastante para afirmar a própria independência: “Não tenho interesse pela vida nas fraternidades”. Então, apesar da declarada influência de Russel, a idiossincrasia de Messner reverbera a do próprio Emerson, quando este proclama que “quem deseja ser um homem tem de ser um dissidente”. Mais do que uma invenção emersoniana, estaríamos na verdade diante de uma característica cultural que parece transcender gerações de americanos. Messner é a perfeita encarnação do dissidente: não liga para “fraternidades” — latu sensu, partidos, clubes, grupos, associações, igrejas — e só se interessa pelo conhecimento: “meu único interesse são os estudos”, declara provocativamente o jovem que “não tem medo de ficar sozinho”. É algo instintivo, inato, e não pelo qual tenha sido educado. As palavras abaixo poderiam seguramente fazer parte do credo de Marcus Messner: “Por toda parte a sociedade está em conspiração contra a virilidade de cada um de seus membros. A sociedade é uma companhia por ações, na qual os sócios concordam, para melhor assegurar o pão de cada acionista, em renunciar à liberdade e à cultura de quem dela desfruta. A virtude de maior demanda é a conformidade. A autoconfiança é causa de aversão. À sociedade não aprazem realidades e criadores, mas nomes e costumes”.

Emerson era gnóstico e Messner, apesar do sangue judeu, ateu convicto. Mesmo assim foi capaz de sugerir irresistivelmente a manifestação do mal em dois colegas: Sony Cotller, magistralmente descrito como figura luciferiana (“o anjo da morte”), e Merty Ziegler, bem próximo de Judas ao aceitar o suborno de Messner para substituí-lo nos serviços religiosos da Winesburg, ao custo de um dólar e cinquenta centavos: “Esse Zigler era um erro, eu tinha certeza — o erro final”.

A causa primeira e insignificante daquele destino desproporcional foi o medo paterno incorporado pelo herói, destinado por associação a representar o terror de gerações sucessivas de jovens norte-americanos. O pai é um sujeito simples e trabalhador, tendo ensinado a Messner um ofício sangrento. Mas a relação de amor entre os dois termina em ódio, em função da paranoia que toma conta do velho açougueiro kosher. Transforma-se assim no símbolo de uma autoridade renegada que Messner, todavia, volta a reencontrar encarnado no velho e poderoso Caudwell, em Winesburg. A guerra particular de Messner é contra a autoridade e tudo o que ela significa de repressão aos instintos vitais do homem. As únicas referências positivas na vida do estudante são as duas figuras femininas do romance: a mãe — “era tudo, menos frágil e submissa” — e a namorada, Olívia, com quem perde a virgindade, por ele tratada como verdadeira heroína.

Roth integra uma possível tradição romanesca que inclui Gabriel García Márquez, Machado de Assis e Gustave Flaubert: a tradição que exalta a mulher como figura de fibra superior e mais heroica do que o homem, descrito como materialista, frágil e mesquinho.

Estou de acordo com isso. Porém, tenho opiniões sobre Olívia que talvez não sejam facilmente partilhadas pelos demais leitores de Roth, sobretudo mulheres. A mais importante: ela simboliza, em primeira ordem, o desejo masculino insatisfeito no mundo real, onde é recriminado. Qual desejo? Ser compreendido por elas em sua ânsia insaciável por sexo (que parece ser um dos temas prediletos de Roth). Ela declara a Messner, após a primeira experiência com ele: “Eu-queria-te-dar-o-que-você-queria. Será que é muito difícil entender essas palavras?” A pergunta sobre a dificuldade de entender é principalmente dirigida ao leitor (ou melhor, leitora), e acho difícil imaginá-la como especulação de mulher. Nesse sentido, Olívia tampouco seria criação de uma romancista: só poderia ser concebida por quem entende a angústia masculina — um homem; nesse caso o escritor Phillip Roth, criador de sensualistas tão incorrigíveis quanto David Lurie, de J.M. Coetzee (“Desonra”) e Antônio Fernandes, de Sérgio Sant’Anna (“O Livro de Praga”).

Mas a sondagem da psicologia feminina não fica a dever: o que as excita, ao menos de um ponto de vista masculino, é o poder — o carrão de Elvyn Ayers Jr., dentro do qual Messner e Olívia iniciam sua aventura amorosa — e, pelo menos em 1950, os limites, proibições e tabus que impediam as moças de reestabelecer os vínculos familiares perdidos. Ou seja, nada a ver com as tentações da carne, como acontece com os homens: o que as motiva em primeira ordem, nos relacionamentos, é a segurança e a estabilidade pessoal e da prole. Porém Olívia é exuberante demais e comporta outra interpretação fundamental, ao lado de seu amante: a de vítima do modelo educacional e da moral repressiva capitaneados por Caudwell, que atinge a medula da sociedade, isto é, a família. Afinal: “Seu pai é um cirurgião de Cleveland e ilustre ex-aluno da Winesburg, por isso a recebemos a pedido do doutor Hutton. Não deu certo nem para o doutor Hutton nem para a universidade, e muito menos para Olívia”.

Trata-se de uma confissão inconsciente de Cau­dwell quanto ao fracasso do modelo educacional implantado. No mesmo capítulo, o que dirá Messner? Que “eu próprio havia sido tragado pela insipidez não apenas dos costumes de Winesburg, mas da retidão que tiranizava minha vida, a retidão sufocante que, eu estava pronto a concluir, levara Olívia à loucura”.

O destino da namorada, como será o seu e de vários jovens, é produto desta retidão in­con­sequente. Outro efeito colateral, e desta vez coletivo, dessa educação repressiva, é im­placavelmente diagnosticado: a catarse desenfreada dos estudantes que culmina no Grande Ataque às Calcinhas Brancas, no epílogo: “Vez por outra, uma voz masculina profunda, articulando o pensamento de todos aqueles que não eram mais capazes de obedecer ao sistema prevalecente de disciplina moral, urrava abertamente: Queremos as garotas!”. A conformidade perturbadora dos estudantes termina explodindo de maneira irracional, culminando naquelas consequências desproporcionais, aludidas desde o começo. Messner, devido ao ato libidinoso, ao desacato da autoridade e à fraude, é expulso de roldão, junto com os colegas insubordinados. Sua racionalidade não prevaleceu sobre os impulsos, dando inteira razão às advertências da mãe.

O panorama final de “Indignação” reflete a nulidade das associações humanas, sem chegar ao extremismo niilista, com a combinação explosiva das religiões institucionalizadas. Para Roth, cuja única crença possível parece ser no individualismo, não é daí que emergem os indivíduos moralmente sãos. O prêmio de Messner, por se rebelar contra as regras da religião e seguir a própria consciência, foi a morte prematura: outra vez o fanatismo religioso derramara o sangue dos inocentes.

J.C. Guimarães é ensaísta e historiador.

via Revista Bula

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Nódoas: o torturador ele só em sua noite

Valdivino Braz cul11d

Noite adentro, a tosse intermitente e ele a se arrebentar em golfadas de sangue; uma dor feito estilete a trespassar-lhe os pulmões agonizantes, e umas pontadas repentinas a confranger-lhe o débil coração, arrancando-lhe, tal fossem nacos de carne, os entrecortados gemidos. Rangem as molas soltas do colchão, infestado de percevejos, toda vez que ele, ao tossir, se agita no leito. Fora, uiva o vento, ao modo de um cão agoniado, perdido na treva. Relâmpagos incendeiam os vidros da janela, clareando as áreas obscuras do quarto frio e fétido, parcialmente iluminado pela luz mortiça dum antiquado abajur.

Ratos enormes movimentam-se pelo recinto, emitindo guinchos cantantes, à semelhança de carretilha ao correr duma corda. Um deles, por mais afoito e incisivo, a roer com exaspero a tira de couro que serve de emenda a uma perna quebrada da cama, ali aos pés do moribundo. Entrecruzam-se os roedores, desassossegados, e o enfermo contempla-os com pavor e funesto pressentimento de que ali estão para devorá-lo, a qualquer momento. O pavor aumenta a cada vez que ele, numa sofrida vigília, surpreende os olhos miúdos e brilhantes a fitá-lo com sinistra insistência. Com supremo esforço, tenta soerguer-se no leito nauseabundo, afugentar o inimigo, mas o violento acesso de tosse de novo o acomete, e ele torna a estirar-se, arfante, esgotado, em seus trapos de nojo, infectados pelos bacilos de Koch.

O velho relógio-despertador, sobre o corroído criado-mudo, registra os artifícios do tempo: o cansado tique-taque, aos ouvidos de quem ali jaz e agoniza, soa como o implacável e fatal limite de sua própria resistência, frágil fôlego, dificultosa respiração. Ele sentindo-se cada vez mais próximo do fim, sobremodo quando a espiral no labirinto do relógio, em disritmia com a mecânica das engrenagens, bambeia e se descompassa, desabala-se como que estrabulega: clocloclecleclec!, em sonido de lata velha, que o sobressalta tanto mais, pois então é o seu podre coração atabalhoado por taquicardia, ao que ele se compara com o estafado relógio, sem tirar nem pôr, até mesmo — ele imagina — o giro empenado das rodas denteadas do tempo, e douradas, como do espelho o fundo fosco, que à luz do dia se entremostra ali nos úmidos e mofos da parede, carcomida pelas goteiras.

A água devorando a cal do reboco, em que pese exagerar-se a comparação, semelha uma cadela a roer o osso. E o tempo, ao moribundo ensanguentado no leito, é um cão danado a abocanhar-lhe a vida sempre que se dá o salto frouxo da mola serpentina do relógio, com olhos de rubi, da cor do sangue que ele escarra nos panos impuros em que se deita; o branco do tecido há muito maculado por repulsivos humores de um corpo em decomposição, não bastassem ali aqueles coalhos sanguinolentos e assustadores. Já o enfermo por demais debilitado, como quando se debilitam as pulsações cardíacas, a sístole-diástole oscilando num sobe-e-desce crepuscular, ao emitir-se dos bips luminosos no cardiógrafo de um hospital. Ele agora com um pé na cova e o outro ainda numa nebulosa da vida, a um passo da eternidade, from here to eternity, daqui até lá, ele só e mais ninguém — sempre solitário e tímido ao extremo com o sexo oposto, curtiu uma queda por Deborah Kherr, estrela de um filme de época, década de 50, ao qual ele gostara de assistir: um drama numa base militar, anos 40, conflitos e amantes ilícitos, com uma famosa cena de beijo, sugestivamente — entenda-se — banhado pela espuma do mar.

O tempo, agora, como se co­bras­se do moribundo um ajuste de con­tas por sua sórdida vida pregressa, por seus atos truculentos, por seus crimes hediondos, pela tor­tura e morte, com requintes de sa­dismo, de presos políticos, por conta do livre-pensar e pensar de for­ma diferente. Era ele um produto e instrumento do arbítrio; era um deles, desses que resvalam para o rodapé da evolução humana, na escala natural dos símios, e desistem de ser homens, senão que re­gri­dem ao estágio dos girinos, ou ain­da ao reino unicelular das amebas.

Esgotam-se, inexoráveis, impiedosos, os minutos que ainda lhe restam, e, para seu maior pavor, mais e mais se atreve a determinação dos ratos. Acelera-se a agonia ao desarranjo das horas que lhe vão esgarçando o fio de vida, para arrebentá-lo de súbito. Acossado pelos terríveis acessos de tosse e pelas fundas ferroadas no peito; cercado pelos ratos e já por conta do implacável avanço das lanças negras no relógio da morte, ele está só consigo mesmo, como jamais esteve ao longo de sua malversada vida; falto, ele, de sentimento humanista, de valores que regem o lado bom da humanidade, tomando-se por bom o oposto ao que faz sofrer, como se toma por mal o que não é por bem do outro, indo-se o bem que se quer por inerência do individual ao coletivo, e em nada recorrente ao dualismo maniqueísta do século III — entre Deus e o Diabo —, primado de um viés reducionista e retrógrado, e posto que em nada absoluto o que é relativo. Dizê-lo assim — relativizar —, todavia e certamente não justifica, em sã consciência, o torturador em questão; tanto menos quanto querer, por meio de vesgo argumento, justificar o que é mau e causa dor, contrário ao que é bom e é de foro íntimo não infligir sofrimento a outrem; já não fosse que a vida por si mesma é um sofrimento, amiúde dolorosa, amiúde alegre, mas nem sempre.

Nessa hora de sustos e punhais do tempo no peito, sombras emergem do passado e vêm assombrar ainda mais o espírito atribulado pela ideia do fim. Visões fantasmagóricas avultam-se na penumbra do quarto, dedos em riste apontam para o gemebundo tuberculoso, vozes acusadoras ressoam-lhe nos tímpanos, atordoam-lhe o cérebro, e vão num crescendo alucinante, somando-se às dores do mal que o apodrece e devora. Bolas de sangue explodem e coagulam no ensebado lençol, dimensionando-lhe o pavor do agora, tanto mais por saber-se abandonado, sozinho com os seus fantasmas e a sua morte. Sequer um cão vagabundo, o mais rabugento, o mais pustulento, o mais repulsivo que fosse, nessa hora crucial, nessa noite tenebrosa, que ele sabe derradeiras. Ah, merecesse ao menos um afeto ou afago compadecido! Mas, não. Apenas os ratos, previsíveis no seu intento, e os espectros da noite em torno de sua agonia final.

O vento vergasta, furiosamente, a janela, querendo entrar, e línguas de fo­go lambem a vidraça a todo mo­mento. Guincham os ratos, histéricos com o manifesto das forças naturais, e, atraídos pelo cheiro do san­gue, começam a subir no leito infecto, tantos, que o miserável homem ali se sente como um deles, um rato abjeto ao desprezo da família humana, apartado do calor solidário que, ao fim, e apesar de tudo, movimenta as rodas do mundo. Atacam-no, afinal, os sinistros. Cravam-lhe os dentes, mordem, mordem e dilaceram a carne. Ele grita, e tosse, golfando os pavorosos coágulos. Tenta levantar-se e não consegue, dezenas de mãos o impedem, subjugam-no, como garras de ferro. Em vão ele se debate. Rostos antigos bailam diante de seus olhos turvos, olhos furiosos o fitam, dedos o apontam, vozes o acusam. Ele grita, e tosse, e vomita sangue e se estertora e se entrega, vencido, à sanha dos dentes pontiagudos. Talvez jamais tenha pensado nisto, mas tem a vida seus próprios ditames e caprichos, tem suas represálias à revelia de quaisquer outros mecanismos, por vontades do homem. Ao giro das rodas do mundo, tem a vida suas sábias e higiênicas providências.

Roído pelos ratos famintos, vai-se o enfermo pelo ermo de seu inferno. Sentenciado por seus atos de culpa, ele ainda respira entre os claros finais de lucidez e a febre do delírio; mas é tarde, muito tarde, e tempo não há mais para nada. Negros (co)lapsos de tempo são a grafite finita no lápis da vida, acabou-se a escrita. Ali os panos encardidos de sua cama, com eles o asqueroso lençol, sudário aos fluidos humorais. O suor, a linfa, a urina, o sangue, as nódoas de toda a sua podridão. Putrefato o banquete dos ratos, posto que o corpo ali se furta ao repasto dos abutres, mas não lhe escapam, de resto, as sobras aos benditos vermes da Criação, que se arrastam, embolados e nojentos, pela terra de todos e de ninguém. A terra dos homens. O berço e o caixão. A terra abençoada em que jaz a humana pequenez da pretensa e presumida grandeza humana. A mísera suposição de ser o que de fato não é; e presumida porque iludida e ensimesmada, convencida de si mesma. A terra e nela o homem em seu devido lugar. Pó ao pó, a arrogância do saber de reizinhos atarracados, pançudos, e o poder de gigantes empertigados, uns e outros reclusos na empáfia de suas poses, supostamente sábios e poderosos em suas bobas ilusões de ser e vida efêmera.

O trovão estronda e a tudo estremece. Leclecleclec... — o relógio para de pulsar. E assim o torturador ele só em sua noite, sem a sua turma e longe da putíssima — leia-se digníssima — senhora sua mãe, coitada, não tem culpa — salvo que involuntária — de tê-lo parido, de ter posto no mundo esse tipo de homem, um estrupício, uma aberração como essa, em figura de gente. E Deus criou o homem, está escrito. E o homem arvorou-se em imagem e semelhança de Deus. Durma-se com essa. Pelo amor de Deus!

Com água do dilúvio, a terra se purifica de algumas impurezas. O dia amanhece limpo e calmo, claro e cristalino, como se a justiça, afinal, saísse a passeio pelo mundo, se bem que a justiça sempre leva no bolso a conveniência de alguma impunidade, a conivência sob o surrado manto da injustiça.

Aos poucos, ao esquentar-se do sol, as coisas se consolidam em seus contornos, e o admirável mundo novo segundo Huxley retoma sua rotina. Também as víboras saem para o cotidiano e tomam seu matinal banho de sol. E agora a sombra do urubu se recorta e faz sua ronda no ilusório azul do céu. Enquanto isso, espessos volumes, calhamaços em papel-ofício, mil vezes carimbados e rubricados, mais e mais se recolhem aos aposentos da morosa Justiça. Justiça para quem? Às traças os processos arquivados, prescritos os crimes contra os civis, anistiados os culpados, inclusive a parte podre da sociedade civil, e toda a impunidade aos generais. E não se fala mais nisso. Não se repisa esse assunto. Não se alimente, pois, o ranço do ressentimento, nem o desejo de revanche. Os generais são inocentes. Agiram e mataram no cumprimento do dever. Reféns do refrão da obediência. Para todos os efeitos, e de uma vez por todas, revogam-se as disposições em contrário. Para que reprisar os tristes fatos, reabrir cicatrizes? Afinal, cinismo à parte, não doeu tanto assim, doeu? Então para que falar-se em nódoas da história? Os uniformes dos generais estão limpos, lavados e bem-passados. Polidas, livres do zinabre do tempo, brilham as medalhas no peito dos heróis da Pátria. E não lhes venham com ironias baratas, querendo conspurcar-lhes o verde-oliva das fardas, denegri-los por conta delas, a eles, conspícuos bastiões da soberania nacional. Os generais não são assassinos. As estátuas nas praças da República são regularmente limpas de suas impurezas, removido pelas chuvas o cocô dos pombos, embora resista, renitente, a nódoa comprometedora da pátina esverdeada, cor de biles, de vômito.

Valdivino Braz é jornalista e escritor, autor do premiado romance “O Gado de Deus”.

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