“Mamãe, estou bem”: jovem com doenças neurológicas graves volta a falar e andar com tratamento de cannabis
08 julho 2026 às 14h00

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Apesar de ainda enfrentar barreiras legais e preconceitos, o uso medicinal da cannabis vem conquistando espaço na prática clínica e na pesquisa científica, especialmente no tratamento de doenças neurológicas. Em 2026, novas portarias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ampliaram as possibilidades para pesquisas e para o uso terapêutico da substância. As regulamentações abriram caminho para o tratamento, mas para o presidente da associação terapêutica SouCannabis, Derick Rezende, somente a legalização e a regulamentação mais ampla do cultivo e do uso medicinal da planta poderá pavimentar esse avanço.
Em maio deste ano, Derick foi alvo de duas operações das polícias Militar e Civil de Goiás mesmo possuindo autorização judicial — um habeas corpus coletivo que protege tanto ele quanto os pacientes atendidos pela associação. Posteriormente, a Justiça de Goiás reconheceu a ilegalidade das operações, mas o episódio deixou pacientes e familiares apreensivos quanto à continuidade do tratamento.
Naturalista especializado em plantas medicinais há cerca de 17 anos, Derick fundou a SouCannabis inicialmente para tratar o próprio irmão, diagnosticado com epilepsia refratária grave. Na época, tornou-se um dos poucos cultivadores indicados por médicos pioneiros no uso terapêutico da cannabis no Brasil.
“Naquela época, no Brasil, praticamente não existia esse movimento de plantar cannabis para fins medicinais. Era algo muito novo. Não fui o primeiro nem o último, mas tive a oportunidade de estar nessa área da saúde e da fitoterapia”, afirma.

Segundo Derick, a associação atendeu mais de 7 mil pessoas nos últimos três anos e ultrapassou a marca de 10 mil pacientes desde sua criação. O óleo extraído da planta é utilizado no tratamento de mais de 30 patologias, entre elas epilepsia, transtorno do espectro autista (TEA), dores crônicas e câncer.
Mesmo diante desse crescimento, ele avalia que o preconceito ainda representa o principal obstáculo para ampliar o acesso ao tratamento. “Fico embasbacado com a falta de lógica e com o mínimo de senso sobre a planta. Mas a proibição nunca foi baseada no conhecimento científico”, diz.
“Mamãe, eu estou bem”
Para compreender os impactos do tratamento, a equipe de reportagem conversou com a professora de História e Administração da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Andreia Marquezan, mãe de Carol, de 14 anos.
Diagnosticada com encefalopatia epiléptica grave, autismo, deficiência intelectual e Transtorno Opositivo Desafiador (TOD), Carol passou a infância convivendo com crises convulsivas severas. Até os seis anos de idade, chegava a sofrer entre cinco e 20 convulsões graves por dia, obrigando a mãe a levá-la repetidamente ao pronto-socorro.
“As crises eram muito fortes. Ela ficava toda roxa, endurecida e demorava para voltar. O risco de morte era muito alto”, relembra Andreia.
Além das convulsões, Carol não conseguia formar frases completas, nunca havia frequentado a escola por recomendação médica e apresentava episódios intensos de agressividade, chegando a bater a cabeça contra a parede e arrancar as próprias unhas das mãos e dos pés.
Na época, utilizava diversos medicamentos convencionais para controlar os sintomas. Mesmo assim, os médicos avaliavam que a doença comprometia significativamente sua expectativa e qualidade de vida.
Segundo Andreia, o cenário mudou após o início do tratamento com óleo de cannabis. A indicação veio por meio de uma pessoa conhecida, que sugeriu o uso do medicamento. Foi então que ela conheceu Derick e a associação SouCannabis, em meados de 2018.
Cerca de dois meses após o início do tratamento, Carol começou a formar frases completas, desenvolver maior capacidade de argumentação e, pela primeira vez, pôde ingressar na escola.
Hoje, aos 14 anos, as crises convulsivas foram reduzidas para, no máximo, três a cinco episódios por mês, além de serem mais leves e controláveis. Outra mudança notável foi a melhora da rotina da filha com passeios aos parques e restaurantes, antes algo inimaginável devido à recorrência das crises convulsivas.
Para a mãe, a mudança foi profunda. “Ela melhorou a coordenação, o apetite e o desenvolvimento cognitivo. Hoje é outra criança, muito mais interativa e tranquila. O canabidiol ajudou em todos os sentidos.”

Andreia afirma que a possibilidade de interrupção do tratamento é um dos seus maiores receios. Segundo ela, as operações policiais contra a associação provocaram forte impacto emocional na família pelo medo de ficar sem acesso ao medicamento.
Como professora universitária, ela também utiliza a experiência da filha para combater o preconceito em relação ao uso medicinal da cannabis entre alunos, colegas e familiares. Para ela, a evolução clínica de Carol é a principal demonstração dos benefícios do tratamento.
O momento mais marcante, porém, veio da própria filha. “Muitas pessoas que convivem com ela comentam o quanto melhorou. Mas o mais emocionante foi ouvir a Carol dizer: ‘Mamãe, eu estou bem. Mamãe, eu estou bem.'”
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