Comprar um imóvel em Goiânia está ficando cada vez mais caro. Impulsionada por uma demanda aquecida e por uma oferta que cresce em ritmo menor do que o necessário, a capital registrou uma valorização de 3,6% no preço dos imóveis apenas no primeiro trimestre de 2026. O metro quadrado residencial já custa, em média, R$ 10.914, valor que ultrapassa R$ 13 mil em bairros como o Setor Marista. 

Os números surgem em meio a um mercado que segue aquecido mesmo com juros elevados. Entre janeiro e março, Goiânia vendeu 2.882 imóveis, alta de 12,7% em comparação com o mesmo período do ano passado. O desempenho é três vezes superior ao crescimento registrado no mercado nacional, que avançou 4,1% no trimestre. 

O cenário reforça uma tendência observada nos últimos anos: enquanto mais pessoas buscam imóveis na capital, os preços continuam subindo e a perspectiva do setor é de que essa valorização esteja longe do fim.

Goiânia cresce e atrai novos compradores

Parte da explicação está na própria dinâmica econômica e demográfica de Goiás.

Dados citados pela pesquisa mostram que o Estado registrou crescimento populacional de cerca de 20% entre os dois últimos censos, percentual muito superior à média nacional. Ao mesmo tempo, Goiânia tem consolidado sua posição como polo regional de serviços, saúde, educação e negócios, atraindo moradores de diferentes regiões do país. 

Segundo o diretor de Pesquisas e Estatísticas da Ademi-GO, Credson Batista, esse movimento ajuda a sustentar a procura por imóveis.

“Goiás cresce acima da média nacional há quase duas décadas consecutivas, impulsionado por uma economia diversificada e resiliente. O crescimento populacional do estado foi de 20% entre os dois últimos censos, contra apenas 7% na média nacional. Além disso, Goiânia consolida cada vez mais sua posição como capital regional do Centro-Norte do país, atraindo moradores, empresas e serviços que alimentam a demanda por imóveis de forma contínua”, afirma. 

Habitação popular perde espaço

Apesar do bom momento do mercado, os dados revelam uma contradição: os imóveis voltados para famílias de renda mais baixa não acompanham o mesmo ritmo de crescimento.

Enquanto quase metade das vendas de imóveis no país ocorre dentro do programa Minha Casa Minha Vida, em Goiânia apenas 26% das unidades comercializadas se enquadram na modalidade. No trimestre, isso representou menos de 750 imóveis vendidos. 

A situação se repete nos lançamentos. Embora o número total de novos empreendimentos tenha crescido 15,8%, os lançamentos ligados ao programa federal avançaram apenas 2%. 

Para o setor, isso indica que a produção de moradias populares não acompanha a demanda existente.

“A oferta habitacional voltada para as famílias de menor renda ficou praticamente estagnada em nossa capital, em um contexto de demanda crescente e incentivos federais que poderiam ser mais bem aproveitados, já que esse ano o programa terá o maior volume de recursos já aplicados na história”, diz Credson Batista. 

Licenciamento entra no centro do debate

Empresários da construção civil atribuem parte desse descompasso à demora na aprovação de projetos imobiliários em Goiânia.

O tema tem ganhado espaço nas discussões do setor e já motivou manifestações de entidades ligadas à arquitetura e ao urbanismo. Segundo a Ademi-GO, incorporadoras relatam aumento nos prazos de análise e aprovação de empreendimentos, o que acaba retardando lançamentos e reduzindo a velocidade de entrada de novas unidades no mercado. 

O presidente da entidade, Felipe Melazzo, afirma que a situação afeta especialmente os empreendimentos voltados à população de menor renda.

“Nossa capital está perdendo um potencial enorme de fornecer moradia digna para a população que mais precisa, apesar de todos os incentivos nacionais disponíveis. O mercado de Goiânia poderia ser ainda maior e ter mais destaque no cenário nacional se tivéssemos as condições necessárias para atender a essa parcela da população”, afirma. 

Segundo ele, os impactos não ficam restritos à habitação.

“Quando o licenciamento trava, o emprego trava junto. Precisamos de um processo de aprovação célere, transparente e previsível”, acrescenta. 

Marista lidera valorização

O avanço dos preços aparece de forma mais intensa nos bairros considerados nobres.

Nos setores Marista, Bueno, Oeste e Jardim Goiás, o valor médio do metro quadrado já alcança R$ 12.881. O Marista lidera a lista, chegando a R$ 13.462 por metro quadrado. 

A preferência dos compradores por regiões com ampla oferta de serviços, gastronomia, áreas de lazer e mobilidade urbana ajuda a explicar a valorização.

“É uma região consolidada, com ampla oferta de serviços, gastronomia, conveniência, mobilidade e qualidade de vida, permitindo que as pessoas realizem boa parte das atividades do dia a dia sem grandes deslocamentos”, afirma o diretor-geral da Terral Incorporadora, Marcelo Borges. 

Por que os preços ainda devem subir?

A avaliação do mercado é que há mais fatores pressionando os preços para cima do que para baixo.

Custos de materiais de construção, escassez de mão de obra qualificada, mudanças tributárias, revisão das regras urbanísticas e o encarecimento do crédito para as incorporadoras são apontados como elementos que devem continuar influenciando os valores dos novos empreendimentos. 

Para Fernando Razuk, presidente do Conselho da Ademi-GO, a combinação desses fatores torna difícil imaginar uma desaceleração dos preços no curto prazo.

“O interessante é que o mercado continua aquecido, mesmo com os juros altos. Se houver queda nas taxas de juros dos financiamentos imobiliários, a valorização dos preços deve se intensificar, pois com crédito mais acessível, mais compradores entram no mercado. Com mais pessoas interessadas em comprar, é natural que os imóveis valorizem ainda mais”, afirma. 

O resultado dessa equação já é sentido por quem pretende comprar um imóvel em Goiânia. Com mais demanda, menos oferta disponível em alguns segmentos e custos crescentes para construir, a tendência apontada pelos dados é de que os imóveis continuem se valorizando ao longo de 2026.

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