Havia sido a manhã mais linda em Lisboa, Portugal, a de 1º de novembro de 1755, como foi maravilhosa a tarde em La Guardia, no Caribe, a de 24 de junho de 2026. A definição de um estrangeiro, o religioso Charles Davy, não era um elogio, mas a descrição, como é fato também qualquer adjetivo para definir o mar da Venezuela. Até chegar o inominável e flagrar a nação europeia no auge de seu império estendido por todo o planeta e a sul-americana no crepúsculo espalhado pelo bolivarianismo em todo o país.

Do lado de lá do Atlântico havia o Marquês de Pombal para sacudir a poeira, limpar a lama, afastar os escombros e dar a volta por cima, depois do sismo de magnitude estimada em 9. Do lado de cá, só a sombra de duas ditaduras iniciadas em 1999, mais mortíferas que os tremores de 7,2 e 7,5 que sacudiram o paradisíaco destino.

O solo rico que guarda 303 bilhões de barris de petróleo, a maior reserva de petróleo do mundo, regurgitou destruição em La Guaira e outros tantos endereços da tragédia. Enquanto escrevo, são cerca de 4 mil os mortos e centenas as histórias de heroísmo nos resgates, de força para sair com vida dos entulhos, de sofrimento para quem perdeu tudo, sobretudo pessoas amadas.

As narrativas são aterradoras, não tanto quanto as de 271 anos atrás na Europa, porém, descrevem o horror. “O grito”, série de 4 quadros de Munch, retrata sorriso em comparação com as imagens que vêm do Caribe.

Viajantes que circularam por Lisboa disseram que, 5 anos depois, ainda se sentia o cheiro nauseante de carne putrefata, o mesmo odor fétido que afeta os venezuelanos atualmente. O deslocamento de placas tectônicas explica as duas tragédias; a compreensão humana rejeita as justificativas.

Em Portugal, por ter ocorrido no Dia de Todos os Santos, com as igrejas lotadas, redundou em dúvida da fé numa terra crente no Deus que não evitou o terremoto nem suas consequências monstruosas, o tsunami e os incêndios. Na Venezuela, até agora, só preces para suportar a dor. A noite de 24 de junho ainda não amanheceu.

Morreram 60 mil dos 300 mil habitantes de Lisboa. Estão desaparecidos 50 mil na Venezuela. E Deus, onde estava que não protegeu no século 18 nem no 21? Se nenhuma folha cai se Ele não quiser, por que o inexplicável derrubou prédios, gentes e crenças?

As respostas talvez estejam em Santo Agostinho, no bíblico Deuteronômio, em algum livro de teologia, pois Seus mistérios a Ele pertencem. O certo é fazer como Pombal e os demais tocadores de obras agem quando se deparam com um desafio, enfrentá-lo até vencê-lo, se não em nome de 1 deus, ao menos em favor da humanidade.

O terremoto de Lisboa criou uma ciência, a sismologia, utilíssima e salvadora neste ¼ de milênio. Voltaire indagou por que em Portugal, a maior nação carola do mundo, e não na França, da farrista Paris? Por que na Venezuela, com 80% de cristãos, enquanto a China, que esbanja prosperidade, convive com 1 bilhão de descrentes, sendo 700 milhões de ateus e 300 milhões com alguma crença, todavia sem religião?

Independentemente de fé, é hora de ajudar a Venezuela. As interrogações que permeiam a nação caribenha são outras e a principal é: os líderes internacionais que se preocupavam com a crueldade do regime estão escondidos em que montanha de dinheiro enquanto os venezuelanos padecem? Lula, o aliado frequente, enviou miçangas de “ajuda humanitária”. Para salvar os governos de Chávez e Maduro, mandou R$ 10 bilhões.

O 1º já morreu, o outro permanece preso nos Estados Unidos e Lula é candidato à reeleição.

Demóstenes Torres, 65 anos, é ex-presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal, procurador de Justiça aposentado e advogado.