A professora Sumbal Saba, do Instituto de Química da Universidade Federal de Goiás  (IQ UFG), acaba de somar mais um prêmio à sua trajetória. O projeto “Selênio contra o Esquecimento: Inovação em Química Medicinal Verde para Combater a Doença de Alzheimer” lhe garantiu o terceiro lugar no prêmio internacional “Ella Innova en Ciencia América Latina e Caribe 2026”. A professora revelou ainda ao Jornal Opção que o componente pode ser um potencial agente para enfrentar as larvas do mosquito transmissor da dengue, zika vírus, febre amarela e chikungunya. A futura pesquisa já conta com um aporte de R$ 300 mil da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG).

A conquista internacional, divulgada na quarta-feira, 2, reconhece iniciativas lideradas por mulheres em ciência, tecnologia e inovação na América Latina e no Caribe. Promovida pela Organização para Mulheres na Ciência para o Mundo em Desenvolvimento (OWSD) e pelo Ponto Focal para a América Latina e Caribe do Conselho Internacional de Ciência, a premiação destacou o projeto que combate a doença de Alzheimer. 

Ao Jornal Opção, Saba celebra o feito coletivo. “Esse reconhecimento reforça a importância da inovação em saúde associada à sustentabilidade. Atualmente, o mundo enfrenta grandes desafios ambientais e climáticos, e é fundamental desenvolver novas tecnologias que contribuam tanto para a saúde quanto para a preservação ambiental.”

Antes de alcançar a vitrine latino-americana, a pesquisa já havia conquistado o segundo lugar na modalidade Inovação de Processos do Prêmio Inova UFSC 2025 da Universidade Federal de Santa Catarina.

O trabalho, conduzido por Saba, Jamal Rafique, Tiago Elias Frizon e Antonio Luiz Braga, resultou na patente “Síntese de Derivados de Acil Selenoureia com Ação Antioxidante e Inibidora da Acetilcolinesterase para o Tratamento da Doença de Alzheimer”, concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A própria pesquisadora explica por que os resultados ainda não estamparam as páginas de periódicos científicos.

“O motivo é que o pedido de patente foi depositado junto ao INPI. O processo de patente envolve etapas de depósito, publicação e análise até sua eventual concessão. Assim que esse processo avançar, pretendemos publicar os resultados científicos.”

A base da inovação reside em uma família de moléculas que agem como autênticos “técnicos de reparo” no cérebro. Em sua analogia, Saba compara o órgão de uma pessoa com Alzheimer a uma cidade onde os serviços de comunicação falham progressivamente. As pequenas moléculas, sintetizadas por rota verde, bloqueiam a enzima que degrada o sinal entre os neurônios e, ao mesmo tempo, combatem o estresse oxidativo, outro vilão central da neurodegeneração.

“Os resultados demonstraram uma atividade muito promissora. Na verdade, esses compostos não apresentam potencial apenas para o tratamento da doença de Alzheimer. Eles mostraram uma dupla ação terapêutica: a primeira relacionada ao combate ao Alzheimer e a segunda ao combate ao estresse oxidativo”, detalha a professora. O composto mais promissor, identificado como (Im), superou em atividade a galantamina, fármaco de referência atual.

Tamanho desempenho anda em conjunto com um processo produtivo que faz da sustentabilidade uma assinatura. A equipe aplica princípios de química verde, com reações ultrarrápidas por irradiação de micro-ondas, solventes sustentáveis e eliminação de resíduos tóxicos. 

“Todo o método de síntese foi desenvolvido com base nos princípios da Química Verde. Isso significa que não utilizamos reagentes tóxicos nem geramos resíduos ou emissões prejudiciais ao meio ambiente. Além disso, o processo é mais seguro para a saúde humana, especialmente quando pensamos em uma futura produção em escala maior. A reação também se tornou mais rápida graças ao uso da irradiação por micro-ondas”, reforça Saba. 

Além de limpa, a rota mostrou-se escalável, mantendo rendimentos de 83% a 94% em escalas que vão de 1 mmol a 10 mol, argumento técnico que a pesquisadora considera robusto para atrair parceiros industriais.

Todo esse avanço se apoia em um investimento estadual. Por meio da chamada pública 04/2023 – Programa de Auxílio à Pesquisa Científica e Tecnológica, a Fapeg destinou mais de R$ 275 mil para a aquisição de um reator de micro-ondas, peça-chave na implementação da linha de química verde. “Sem essa infraestrutura construída com apoio estadual, os resultados que levaram à patente e à premiação simplesmente não existiriam”, afirma Sumbal Saba, que também é coordenadora do Laboratório de Síntese Sustentável e Organocalcogênio. 

Com o laboratório equipado e o reconhecimento consolidado, o grupo mira agora um alvo inesperado: o Aedes aegypti. Embora os compostos tenham sido originalmente desenhados para enfrentar o Alzheimer e o estresse oxidativo, a equipe decidiu investigar sua ação larvicida. “Até o momento, não avaliamos esses compostos para um grande número de outras doenças. No entanto, recentemente iniciamos um novo projeto para investigar sua possível aplicação no controle das larvas do mosquito transmissor da dengue”, revela Saba. 

A iniciativa, também aprovada pela Fapeg, reúne pesquisadores da UFG, da área de Farmácia, e de outras instituições parceiras, e já opera com um financiamento de aproximadamente R$ 300 mil. A cientista faz questão de frisar que não se trata de extrapolação. “Naturalmente, não podemos assumir que um composto eficaz contra uma determinada doença apresentará resultados positivos em qualquer outra aplicação. Por isso, cada nova possibilidade precisa ser investigada experimentalmente.”

Enquanto as novas frentes avançam, o projeto original caminha para os estudos pré-clínicos. A prioridade imediata é testar os derivados de Acil Selenoureia em modelos celulares e animais, avaliando segurança, farmacocinética e eficácia in vivo. 

Paralelamente, a equipe busca parcerias com farmacêuticas e empresas de biotecnologia para licenciar a tecnologia patenteada. A expectativa é que, num horizonte de cinco a dez anos, ao menos um dos compostos originados integralmente numa universidade pública do Centro-Oeste avance para fases clínicas.

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