Produtora de filme sobre Bolsonaro é alvo de operação que apura fraude de R$ 108 milhões
01 junho 2026 às 09h41

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A produtora do filme de Bolsonaro “Dark Horse” é investigada pela Polícia Civil de São Paulo nesta segunda-feira, 1, durante a Operação Wi-Fi, que apura suspeitas de fraudes em uma licitação da Prefeitura de São Paulo no valor de R$ 108 milhões.
Conhecido como “Azarão” em português, o longa sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro tem produção da Go UP Entertainment Ltd, empresa de Karina Ferreira da Gama. Paralelamente, ela também é proprietária do Instituto Conhecer Brasil (ICB), a ONG vencedora do contrato público.
O contrato em questão, de número 01/SMIT/2024, foi fechado com a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. Seu objetivo original era implantar, operar e manter 5 mil pontos públicos de acesso à Wi-Fi em comunidades periféricas de São Paulo, dentro do programa WiFi Livre SP. De acordo com as autoridades, a Justiça verificou que, do total prometido, apenas 3,2 mil pontos de Wi-Fi foram executados.
Além disso, três aditivos celebrados em sequência e em curto espaço de tempo serviram para prorrogar obrigações contratuais e “justificar os atrasos na execução”. Com essas alterações, a Prefeitura acabou concordando em pagar mais de R$ 49,1 milhões à ONG ligada à produtora do filme “Dark Horse”.
A investigação avança em várias frentes. A Polícia Civil cumpre oito mandados de busca e apreensão determinados pela 1.ª Vara Regional da Garantias (1.ª RAJ). Entre os alvos estão o ICB, a Go UP, dois endereços residenciais de Karina e a própria sede da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia.
Ao todo, os aditivos elevaram os repasses para R$ 157,1 milhões. As autoridades estimam que pelo menos R$ 26 milhões tenham sido pagos “sem a efetiva prestação do serviço”. A polícia agora investiga fraude na licitação, fraude na execução do contrato e possível desvio de recursos públicos.
Vale destacar que essa operação representa o primeiro resultado do inquérito aberto pela 2.ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (DICCA). Esse inquérito foi instaurado por requisição do Ministério Público estadual, após uma denúncia apresentada por Leonardo Carvalho Bastos, membro do conselho de ética do PT de Sapucaia do Sul (RS), ao Ministério Público Federal.
O chamamento público contou exclusivamente com a participação do ICB, uma entidade sem experiência técnica prévia no setor de comunicações, tradicionalmente, ela atuava em feiras e eventos literários e religiosos. Ademais, o Tribunal de Contas do Município (TCM) apontou 20 irregularidades no edital, recomendando sua suspensão “em razão da fragilidade dos critérios de seleção adotados”. Mesmo assim, a Secretaria manteve o contrato.
A Justiça também considera haver indícios de “expressiva discrepância econômica” em relação a valores anteriormente praticados. Por exemplo, em contratos com a Prodam, o custo por ponto de Wi-Fi era de R$ 230 para implantação e R$ 306 para manutenção. Já o ICB estipulou R$ 1,8 mil mensais por ponto instalado, sem justificativa técnica ou econômica plausível, o que indicaria sobrepreço e lesão ao erário.
Outro ponto envolve os pagamentos antecipados. A Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público e Social da Capital demonstrou que R$ 26 milhões foram pagos sem a efetiva execução dos serviços. Somente em julho e agosto de 2024, o ICB recebeu R$ 11 milhões referentes aos 3,2 mil pontos supostamente instalados, mas há a suspeita de que boa parte deles nem sequer tenha saído do papel.
Até a assinatura do último aditivo, em dezembro de 2025, a Prefeitura já havia pagou R$ 83 milhões ao ICB. Além disso, reservou outros R$ 53 milhões no orçamento deste ano, dos quais R$ 12,2 milhões já foram liquidados.
A Polícia Civil também requisitou à Justiça acesso às análises do Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) sobre as movimentações financeiras do ICL, da Go Up e de Karina. Uma das hipóteses é que parte dos recursos possa ter ido parar nos cofres da Go Up durante a produção de “Dark Horse”. O filme teve mais de 90% de seu orçamento bancado pelo banqueiro Daniel Vorcaro.
Esse financiamento secreto foi tratado entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro mesmo depois da prisão do banqueiro por fraudes bilionárias, em novembro de 2025, conforme mensagens encontradas pela Polícia Federal em um dos celulares dele. O roteiro é assinado pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), que, em 2024, destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares para a ONG.
As negociações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, reveladas pelo site Intercept Brasil, indicam que o dono do Banco Master se comprometeu a repassar US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões na cotação da época) para financiar o longa-metragem.
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