Morre Elza Berquó, pioneira da demografia brasileira e referência na defesa dos direitos das mulheres
17 julho 2026 às 12h38

COMPARTILHAR
O Brasil se despede de uma de suas mentes mais brilhantes e generosas. Na última quinta-feira, 16, em São Paulo, faleceu a demógrafa Elza Salvatori Berquó, aos 100 anos. O velório foi realizado no Funeral Rome, no bairro da Bela Vista. Mais do que uma cientista influente, Elza dedicou mais de sessenta anos de sua vida a uma missão nobre: enxergar as pessoas por trás das estatísticas. Sua voz e suas pesquisas moldaram o entendimento sobre saúde pública, direitos reprodutivos e urbanização no país.
Matemática por formação — graduada em Campinas, com mestrado na USP e especialização em Columbia (EUA) —, ela foi a grande responsável por consolidar a demografia como ciência em solo brasileiro. Elza usava os censos populacionais não apenas para contar pessoas, mas para traduzir as profundas transformações sociais e econômicas do nosso século XX.
Resistência e criação
A trajetória de Elza também foi marcada pela coragem. Em 1968, em pleno regime militar, ela foi aposentada compulsoriamente da USP. Longe de se calar, transformou o obstáculo em criação: no ano seguinte, uniu-se a intelectuais como Fernando Henrique Cardoso para fundar o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), que virou um polo de resistência e conhecimento na época. Anos mais tarde, ela também ajudaria a dar vida ao Nepo (Núcleo de Estudos de População) da Unicamp, que hoje, merecidamente, leva o seu nome.
“Elza Berquó conseguiu a façanha de unir o mais rigoroso rigor acadêmico ao compromisso inabalável com os direitos humanos.” — Jacqueline Pitanguy, cientista social
Defesa da vida e das mulheres
Pioneira, Elza colocou o corpo e a autonomia das mulheres no centro do debate público. Defendeu os direitos reprodutivos, o acesso à contracepção e tratou o aborto pelo que ele é: uma questão de saúde pública. Suas pesquisas sobre mortalidade infantil e desigualdade social não eram apenas papéis engavetados, mas ferramentas que, inclusive na presidência da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento (CNPD) nos anos 90, serviram para criar políticas públicas que salvaram vidas.
Sua partida gerou uma onda de carinho e reverência na comunidade científica. Como bem definiu Richarlls Martins, atual presidente da CNPD, Elza “viu pessoas por trás dos números”. Para o demógrafo Eduardo Rios Neto, o resumo de sua existência cabe em uma frase que ecoará por gerações:
“Elza Berquó é a mãe da demografia brasileira.” Um século de vida, um legado eterno.
Leia também:Morre Renato Machado, ex-apresentador do Bom Dia Brasil e um dos maiores nomes do telejornalismo brasileiro



