A maior parte das mulheres brasileiras ainda não consegue formar uma reserva financeira para enfrentar imprevistos. Pesquisa da Serasa, realizada em parceria com o Instituto Opinion Box, mostra que 81% delas não possuem qualquer reserva de emergência, percentual 12 pontos percentuais superior ao registrado entre os homens.

O levantamento revela que apenas 19% das mulheres afirmam ter dinheiro guardado para situações inesperadas, enquanto entre os homens esse índice chega a 32%. A diferença também aparece na capacidade de poupar: somente 17% das mulheres conseguem pagar todas as contas do mês e ainda guardar parte da renda, contra 29% dos homens.

Para a especialista em educação financeira da Serasa, Eduarda de Moraes, a principal explicação está na dificuldade de equilibrar o orçamento mensal. “Grande parte das mulheres concentra seus esforços em manter as contas do mês em dia. A pesquisa mostra que 30% apontam a renda insuficiente para cobrir as despesas como principal obstáculo, percentual superior ao dos homens. Quando quase toda a renda é destinada aos gastos essenciais, sobra pouco espaço para formar uma reserva de emergência”, explicou ao Jornal Opção.

Eduarda de Moraes, especialista da Serasa em educação financeira | Foto: Divulgação

Segundo a especialista, o levantamento aponta que a maioria das mulheres vive sem margem financeira para enfrentar imprevistos. “Embora muitas mantenham controle sobre os gastos, o orçamento costuma estar bastante comprometido com despesas essenciais, reduzindo a capacidade de poupar. Isso aumenta a vulnerabilidade diante de situações inesperadas e pode levar ao uso do crédito em momentos de emergência”, continuou.

Os dados também refletem na inadimplência. De acordo com o Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa, referente a maio de 2026, as mulheres representam 50,5% dos consumidores inadimplentes do país. Em Goiás, elas correspondem a 48,7% dos inadimplentes, cenário considerado semelhante ao nacional.

“Os desafios enfrentados pelas mulheres permanecem semelhantes em Goiás: menor capacidade de formar reserva de emergência, orçamento mais apertado e maior dificuldade para lidar com imprevistos sem recorrer ao crédito.”

Segundo Eduarda, o estado reúne atualmente cerca de 2,7 milhões de consumidores inadimplentes, reforçando a necessidade de iniciativas voltadas à educação financeira e renegociação de dívidas.

Renda menor e dupla jornada dificultam planejamento

A especialista afirma que diversos fatores ajudam a explicar por que as mulheres encontram mais dificuldades para construir uma reserva financeira. “Além da renda insuficiente, muitas mulheres acumulam a responsabilidade pela gestão financeira da casa enquanto conciliam a jornada de trabalho. Essa realidade faz com que o foco esteja em manter as contas em dia, deixando o planejamento financeiro em segundo plano”, disse.

Ela afirma que questões como diferenças salariais, maternidade, chefia de família e responsabilidades com filhos ou outros familiares aumentam a pressão sobre o orçamento. “Em muitos casos elas possuem renda menor, assumem o papel de chefes de família e concentram os cuidados com filhos e familiares. Isso gera despesas adicionais e reduz a capacidade de poupança”.

Bancos e cartões concentram maior parte das dívidas

Quitar dívidas atrasadas aparece como a principal preocupação financeira das mulheres, citada por 45% das entrevistadas.

Segundo Eduarda, os dados da Serasa mostram que os débitos com bancos e cartões de crédito representam a maior parcela das pendências financeiras dos brasileiros. “Depois aparecem contas básicas, como água, luz e gás, além das dívidas com financeiras. Em Goiás, bancos e cartões concentram cerca de 28% das dívidas registradas.”

Reserva de emergência evita efeito “bola de neve”

Para a especialista, a ausência de uma reserva financeira pode agravar rapidamente a situação econômica das famílias diante de acontecimentos inesperados. “Quando não existe uma reserva, situações como desemprego, despesas médicas ou gastos inesperados costumam levar a pessoa a recorrer ao crédito. Dependendo das condições, isso resulta em juros elevados, aumento do endividamento e até inadimplência”, disse.

Ela destaca que a construção dessa reserva pode começar com pequenos valores. “O primeiro passo é acompanhar de perto o orçamento e identificar para onde o dinheiro está indo. Depois, estabelecer metas realistas e criar o hábito de guardar um valor fixo sempre que a renda entrar, mesmo que seja pequeno. A regularidade costuma ser mais importante do que o valor inicial”, afirma.

Na avaliação da Serasa, desenvolver hábitos financeiros saudáveis é essencial para reduzir a inadimplência no longo prazo. “A educação financeira ajuda as pessoas a organizar melhor o orçamento, compreender o uso consciente do crédito, criar uma reserva para imprevistos e planejar objetivos de longo prazo. O controle dos gastos é importante, mas precisa ser acompanhado de planejamento, definição de prioridades e hábitos sustentáveis de poupança”, completou Eduarda.

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