Lula corre contra o tempo para não repetir Bolsonaro em 2022
30 abril 2026 às 18h54

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A derrubada do veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao PL da Dosimetria, somada a outros reveses recentes no Congresso, expõe dificuldades concretas na relação entre Executivo e Legislativo.
Mais do que um episódio isolado, o movimento sinaliza fragilidade na coordenação política do governo em votações sensíveis. Esse tipo de derrota não costuma ocorrer por acaso.
Em geral, reflete falhas na construção de maioria, desalinhamento com lideranças partidárias ou leitura equivocada do ambiente político. No caso atual, a avaliação recorrente em Brasília é que a articulação governista não tem conseguido antecipar conflitos nem consolidar apoio de forma consistente.
O pano de fundo dessa dificuldade é ainda mais relevante quando se observa o calendário eleitoral. Lula entra na segunda metade do mandato com o desafio de evitar um cenário semelhante ao de Jair Bolsonaro em 2022, quando, mesmo ocupando a Presidência e com ampla estrutura à disposição, não conseguiu a reeleição.
Desde a redemocratização, derrotas de presidentes que disputam novo mandato são exceções, não regra. Caso um presidente no exercício do cargo volte a perder uma reeleição em 2026, isso reforçaria um padrão raro e politicamente significativo.
Outro fator que pressiona o governo é a dinâmica da popularidade. Em sistemas presidencialistas como o brasileiro, aprovação pública e capacidade de articulação no Congresso caminham juntas. Quando uma enfraquece, a outra tende a sofrer impacto.
A queda de popularidade, quando ocorre, reduz o poder de pressão do Executivo sobre parlamentares, que passam a responder mais diretamente às suas bases eleitorais do que ao governo. Isso dificulta votações estratégicas e aumenta o custo político de cada decisão.
A rejeição recente da indicação presidencial ao Supremo Tribunal Federal também reforça o momento atípico. O último registro de um presidente tendo um nome barrado para a Corte remonta ao governo de Floriano Peixoto, ainda no século XIX, o que evidencia o grau de excepcionalidade institucional.
Esse tipo de sinalização importa porque ultrapassa o caso específico: indica mudança na disposição do Senado em relação ao Executivo e sugere menor previsibilidade nas relações entre os Poderes.
O cenário, no entanto, não é estático. Governos frequentemente atravessam fases de maior ou menor controle político ao longo do mandato. A questão central é se haverá capacidade de reorganizar a base, recalibrar a articulação e reconstruir apoio antes que o desgaste se torne estrutural. O tempo, nesse contexto, é um fator decisivo. Em política, ele não apenas corre, ele cobra.
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