Às 4h20, a cidade ainda está escura. Os ônibus circulam quase vazios, os semáforos piscam em amarelo e o silêncio só é interrompido pelo barulho ocasional de um caminhão atravessando as avenidas. É nesse horário que Divina Lourdes começa a montar sua banca em frente ao CT do Vila Nova Futebol Clube. As garrafas térmicas chegam cheias. O café foi preparado em casa pouco antes. Os biscoitos também. Mas o dia dela não começou às 4h20. Começou ainda de madrugada. “Dez para as duas da manhã”, corrige.

É esse o horário em que a produção começa dentro de casa. Enquanto boa parte de Goiânia ainda dorme, Divina e a família já estão fritando biscoitos, preparando bolos, separando salgados e organizando as caixas térmicas que abastecem as bancas espalhadas pela cidade.

O movimento no início da manhã é tímido. Um trabalhador aqui. Um vigilante ali. Caminhoneiros atravessando a avenida atrás de café forte antes de seguir viagem. Mas, conforme o céu clareia, a rotina acelera. Entre 7h e 8h30, a banca vira ponto de encontro de quem tenta encaixar o café da manhã na correria da cidade. “É o melhor horário”, resume.

Divina trabalhava costurando antes de vender café na rua | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Divina trabalhava costurando antes de vender café na rua. O marido vivia viajando a trabalho. A pandemia reorganizou a vida da família. Sem estabilidade, decidiram tentar empreender. O que começou com uma única banca virou um pequeno negócio familiar espalhado por Goiânia. Hoje, segundo ela, são oito pontos mantidos por parentes. “Minha irmã tem um, meu sobrinho tem outro, tem vários”, conta.

A produção começa por volta das 1h50 da manhã todos os dias | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

O empreendedorismo improvisado virou herança familiar.

Ela conseguiu ampliar a renda da casa, contratou quatro funcionários e pensa em expandir ainda mais. Mas esbarra no mesmo problema citado por praticamente todos os entrevistados ouvidos pelo Jornal Opção: a dificuldade para encontrar mão de obra. “As pessoas não querem muito. Eu acho que tem a ver com o horário”, explica.

O relógio ainda marca 5h quando o cheiro de café fresco começa a dominar outro ponto da cidade, agora na GO-080, saída para Nerópolis. Lá, Rafaela Alves dos Santos, de 29 anos, e sua mãe organizam salgados e pães em uma pequena barraca improvisada à beira da rodovia.

Ela e a mãe chegaram do Maranhão há dois anos praticamente sem dinheiro. “Como ela não tinha capital para montar algo formal, decidiu montar a barraquinha de rua”, conta.

A rotina começa às 2h30 da manhã. Tudo é preparado no mesmo dia: os pães, os enroladinhos, os salgados. Não há produção industrial. Não há estoque grande. O negócio funciona no improviso diário. “A gente levanta muito cedo para poder estar preparando.”

Rafaela Alves dos Santos chegou à Goiânia há cerca de 2 anos, oriunda do Maranhão | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Os clientes se dividem entre caminhoneiros e trabalhadores que passam pela rodovia rumo ao trabalho. Muitos já param ali todos os dias. O enroladinho de queijo virou o produto mais procurado. Custa R$ 3. “Como o pessoal lancha todo dia, o preço tem que ser acessível”, explica.

Rafaela diz que trabalhar para si mesma mudou sua vida, mesmo exigindo jornadas muito maiores. “Você trabalha o triplo. Mas consegue conquistar aquilo que deseja”, diz.

A tenda funciona diariamente na GO-080, saída para Nerópolis | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Em Goiânia, o improviso virou modelo de sobrevivência para milhares de famílias. Segundo o relatório “Perfil do MEI em Goiás”, do Sebrae Goiás, o estado já possui mais de 634 mil microempreendedores individuais inscritos e mais de 518 mil ativos.

O crescimento foi acelerado nos últimos dez anos. Em 2016, Goiás possuía cerca de 238 mil Microempreendedores Individuais (MEI). Em 2026, esse número mais que dobrou. O setor de serviços lidera com 55% dos empreendedores formais do estado, seguido pelo comércio, com 25%. Alimentação aparece entre as principais atividades econômicas registradas pelos microempreendedores goianos.

Mas a realidade encontrada nas ruas vai além da formalização. Muitos dos trabalhadores sequer possuem CNPJ. Outros funcionam em estruturas improvisadas, montadas diariamente nas calçadas, rodovias e sinais de trânsito.

Na Região Noroeste de Goiânia, Cíntia Sousa Silva organiza cuidadosamente os bolos, os biscoitos assados e os copos de café antes das 6h da manhã. O ponto funciona em frente a uma pista de provas para motociclistas. Os clientes começam a aparecer cedo.

Cíntia Sousa Silva vendia lingerie antes de começar a servir café da manhã | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Ela trabalhava vendendo lingerie antes de começar na alimentação. A mudança aconteceu depois que um homem viu seus anúncios em um grupo de igreja e sugeriu que ela ocupasse aquele espaço. “Eu estava em oração. Pedindo para Deus uma oportunidade”, diz.

Hoje, acorda às 3h30 da manhã todos os dias para preparar tudo sozinha. O carro-chefe da banca é o biscoito assado. O bolo de milho também sai rápido. O café com leite e canela virou diferencial. “Não é todo mundo que faz.”

Cíntia é técnica em segurança do trabalho, mas encontrou na venda de alimentos a possibilidade de trabalhar por conta própria. “Eu gosto de empreender. Eu gosto de trabalhar para mim.” Ela trabalha de segunda a sábado, das 6h às 10h. Diz que o faturamento consegue sustentar a casa, mas exige cortes e organização. “Tem que regrar muita coisa” relata.

As bancas de café espalhadas por Goiânia compartilham quase sempre o mesmo horário de pico: entre 7h e 8h30. É quando a cidade inteira parece atravessar as avenidas ao mesmo tempo. Motociclistas param rapidamente. Trabalhadores descem dos ônibus. Motoristas encostam no acostamento apenas para comprar pão de queijo e seguir viagem.

Também na região noroeste da capital, Uilma Conceição da Silva acompanha essa movimentação há sete anos. Acorda às 4h da manhã todos os dias para preparar os produtos vendidos em sua banca. “Biscoito frito não pode faltar”, afirma.

Uilma Conceição da Silva trabalhava como costureira antes de abrir o negócio | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Ela trabalhava como costureira antes de abrir o negócio. Hoje, fala da mudança de vida com orgulho. “Minha vida é outra.”

O dinheiro da banca ajudou a filha a entrar em uma universidade federal para cursar odontologia. Aos sábados, o movimento dobra. Há clientes que atravessam bairros inteiros apenas para tomar café ali. “Tem cliente que vem de Nova Veneza só para lanchar.”

Mesmo com o sucesso, Uilma também relata dificuldade para contratar funcionários. Diz que pensa em expandir, mas esbarra na falta de equipe preparada. “Parece que o povo não tá querendo trabalhar mesmo”, relata.

O carro-chefe do local é o biscoito frito | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Em frente ao Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol) o dia começa um pouco diferente. Em vez de café e bolo, José Vicente, conhecido como Zezim, organiza caixas de frutas na banca onde trabalha há 22 anos.

Zezim está no local há cerca de 22 anos | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Quando começou, vendia apenas morangos. “Era só uma tendinha”, lembra.

Antes disso, trabalhava em serviços gerais. O crescimento foi lento. Primeiro uma banca pequena. Depois mais frutas. Depois funcionários. Hoje, o negócio sustenta filhos e netos. “Consegui formar meus filhos”. Uma filha virou médica. Outra, professora. O filho trabalha como caminhoneiro.

A banca de frutas de Zezim chega a faturar R$ 5 mil por semana | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Zezim acorda às 4h30 da manhã e permanece na banca até as 18h. O faturamento semanal chega a R$ 5 mil. Mesmo assim, reclama da dificuldade para manter funcionários. “Você não acha mão de obra.”

Ao lado dele, Agnaldo Oliveira vende de tudo um pouco: roupas, redes, carvão e utensílios variados. Está no mesmo ponto há 16 anos. Ele começou depois da aposentadoria. “Eu gosto de trabalhar”, resume.

Agnaldo está no mesmo local há 16 anos e mantém uma rotina menos rígida | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Sem planos de expansão e sem buscar crédito ou financiamento, Agnaldo leva uma rotina menos rígida. Chega por volta das 8h e vai embora no meio da tarde. Observou a região crescer antes mesmo da construção do hospital. “Eu sou bem antes do Hugol”.

Mas talvez nenhum lugar revele tão claramente o improviso urbano quanto os semáforos.

Aos 18 anos, Maria Luana já acumula quase oito anos vendendo produtos no sinal. Começou ainda criança, aos 11 anos, vendendo jujubas ao lado da mãe. A família veio do Pará “só com a roupa do corpo”.

O pai, com problemas físicos nas pernas, trabalha como motorista de aplicativo. A mãe assumiu os sinais junto com os filhos. Aos poucos, a família passou a vender pipoca, água, suportes para celular e outros itens improvisados conforme os pedidos dos clientes.

Aos 18 anos, Maria Luana trabalha no local desde os 11 | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Hoje, controlam quatro pontos de semáforo na região.

Luana cresceu no asfalto quente dos cruzamentos. Aprendeu a identificar clientes habituais pelos carros. Conhece horários de pico. Sabe quando vender água, quando vender pipoca e quando insistir nos acessórios. “Vai e volta o mesmo cliente.”

Ela diz que o trabalho mudou completamente a vida da família. Quer usar o dinheiro para comprar um apartamento e pagar a faculdade de medicina. Sonha em ser neurocirurgiã.

As vendas começaram com jujubas, sendo ampliadas para itens variados | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Mas existe medo.

A possível construção de um viaduto na região ameaça diretamente os vendedores que dependem do sinal fechado para sobreviver. “Se tirar eu daqui, não sei o que acontece”, relatou.

O tio dela, Ivan dos Santos, também trabalha no local. Pedreiro desempregado, vê o trabalho nos sinais como solução temporária. “É só um quebra-galho.” Ele chega às 7h da manhã e permanece até o fim da tarde tentando garantir o sustento da esposa e dos três filhos. O filho mais velho, de 14 anos, às vezes vai ao local depois da escola para ajudá-lo”.

Ivan dos Santos é tio de Maria Luana e está no local há cerca de 5 anos | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Em Goiás, 64% dos MEIs ainda estão em fase inicial ou nascente, segundo o Sebrae. O tempo médio de vida dos negócios é de apenas 3,2 anos, enquanto a taxa de mortalidade em cinco anos chega a 59%. Os números ajudam a explicar por que tantos trabalhadores vivem entre a esperança de crescer e o medo constante de perder o pouco que construíram.

Ainda assim, todos eles repetem algo parecido quando falam do próprio negócio: orgulho.

Orgulho por pagar faculdade dos filhos. Orgulho por sustentar a casa. Orgulho por trabalhar para si mesmos. Orgulho por sobreviver.

Enquanto Goiânia desperta lentamente, milhares de trabalhadores já completaram metade da jornada.

Porque antes do primeiro congestionamento, antes da primeira reunião, antes das lojas abrirem oficialmente, alguém já fritou o biscoito, passou o café, organizou as frutas e atravessou dezenas de carros oferecendo pipoca no sinal.

A cidade acorda em cima do trabalho deles.

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