O vazamento das conversas do senador e pré-candidato a presidente, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, no último dia 13 de maio, causou surpresa e repercussões amplas na pré-campanha presidencial. Nas mensagens, o senador Flávio cobra R$ 134 milhões para financiar o filme Dark Horse sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Imediatamente, Flávio confirmou o contato em nota oficial, justificando que se tratava de “patrocínio privado” para um filme privado, sem uso de recursos públicos. Apesar da negação de ilegalidades, aliados e adversários consideraram grave o episódio: líderes como o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) exigiram explicações, enquanto o presidente Lula (PT) classificou o caso como “assunto de polícia”.

Na internet e nas redes conservadoras houve intensa reação negativa a Flávio. No agronegócio goiano, setor tradicionalmente alinhado à direita, a reação tem sido cautelosa. Não houve notas oficiais de entidades comentando o vazamento; o setor decidiu acompanhar os desdobramentos antes de definir posicionamentos.

Segundo a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), dirigentes do agro nacional preferem “esperar os próximos capítulos antes de bater o martelo” sobre apoio eleitoral. Fato é que o episódio enfraqueceu Flávio, abrindo espaço para discutir alternativas.

De fato, pesquisas estaduais prévias, realizadas em março e abril, já mostravam Ronaldo Caiado liderando em Goiás no primeiro turno, com Flávio atrás de Lula e Caiado. Após o escândalo, institutos de opinião nacionais apontam que Lula ampliou a liderança sobre Flávio em simulações de segundo turno.

Os dados econômicos reforçam o peso do agro goiano: a produção agropecuária responde por 15,1% do PIB estadual, segundo números do 3º tri de 2023. O campo é vital para a economia local, emprega mais de um milhão de pessoas
e sustenta uma bancada de parlamentares ligados ao agronegócio.

Esse cenário econômico confere ao agronegócio poder de influência, mas também aumenta sua preocupação com estabilidade política. O escândalo de Flávio coloca riscos políticos notáveis para o bolsonarismo no Centro-Oeste, especialmente se o eleitorado rural moderado migrar para outras candidaturas de centro-direita.

Com a corrida presidencial acirradíssima, perder parte do apoio do agro em Goiás pode ser decisivo. O Jornal Opção decidiu então ouvir líderes ligados ao agro, além de cientistas políticos para entender melhor esse cenário e esse possível fortalecimento de Caiado no cenário nacional com a enfraquecida de Flávio.

Em entrevista ao Jornal Opção, o presidente da Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura (SGPA), Gilberto Marques Neto, afirmou que o apoio do agronegócio goiano a Caiado já existia antes da repercussão dos áudios e que a alta aprovação do governador no estado fortalece naturalmente seu nome no cenário nacional.

Quando a gente fala no setor agropecuário apoiando quem quer que seja, ninguém é unanimidade. Mas eu e a maioria das pessoas que conheço do agro apoiamos o Bolsonaro em todos os momentos que foram necessários. Agora, com o Ronaldo Caiado no páreo, não tem nem o que discutir, pelo menos entre os goianos

Segundo Gilberto Marques Neto, o principal desafio do grupo político ligado ao governador é ampliar seu conhecimento fora de Goiás. “Nosso desafio é fazer com que ele se torne conhecido em todo o Brasil”, afirmou.

O dirigente da SGPA evitou dizer que o episódio envolvendo Flávio Bolsonaro tenha sido decisivo para fortalecer Caiado politicamente. Para o presidente da entidade, o governador ainda deve ganhar projeção nacional à medida que participe mais ativamente do debate político.

“Quando o Ronaldo começar a entrar no debate, muita gente vai conhecer a história dele, não só em defesa do setor agropecuário, mas também como deputado federal”, afirmou. Gilberto Marques Neto também afirmou acreditar que eleitores goianos que aprovaram a gestão estadual dificilmente deixariam de apoiar Caiado em uma eventual disputa presidencial.

“Quem votou nele para governador e assistiu à gestão dele não ia deixar de votar nele para votar em Flávio, independentemente de áudio ou não”, disse. “Você imagina ele com quase 90% de aprovação. Não tem nem o que ver.”

Apesar de destacar a ligação histórica de Caiado com o agronegócio, o presidente da SGPA afirmou que a popularidade do governador não se limita ao setor rural. “Não é só agro. A aceitação dele de quase 90% não é só do agro. É a segurança pública também”, afirmou.

Durante a entrevista, Gilberto Marques Neto também criticou o ambiente econômico e político do país e disse que empresários têm demonstrado insegurança em relação ao futuro da economia brasileira. “Nós precisamos de um presidente que traga confiança para os investidores voltarem a acreditar no nosso país”, afirmou.

“A gente vê empresários de diversas áreas falando que estão vendendo patrimônio para investir fora do país porque não acreditam mais no Brasil.” Segundo ele, a instabilidade política afeta diretamente o setor produtivo. “Um pronunciamento do presidente da República hoje arrebenta com o nosso setor e o setor produtivo, não só ligado ao agronegócio”, disse.

Ao defender maior previsibilidade econômica, o dirigente afirmou que o fortalecimento do setor produtivo impacta diretamente o custo de vida da população. “Quem está gerando emprego e produzindo não pode estar sendo perseguido e prejudicado, porque senão ele não vai ter condições de trabalhar com competitividade”, declarou.

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Gilberto Marques Neto: “Com o Ronaldo Caiado no páreo, não tem nem o que discutir, pelo menos entre os goianos”

Já na visão do presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras no Estado de Goiás (OCB-GO), Luiz Alberto Pereira, Caiado ganhou espaço como liderança nacional do agronegócio em meio ao desgaste enfrentado por Flávio Bolsonaro. Em entrevista ao Jornal Opção, ele afirmou que parte do setor produtivo passou a buscar “uma alternativa” dentro do campo da direita e centro-direita.

“À medida que um sofre desgaste, o outro tende a ocupar aquele vácuo. Eu entendo que realmente essa questão do Flávio Bolsonaro possa levar algumas pessoas a considerarem o nome do Caiado”, afirmou. Segundo Luiz Alberto, ainda é cedo para concluir se haverá uma mudança definitiva de referência política no setor agropecuário, mas ele reconhece que o episódio provocou desconforto entre lideranças do agro.

“Todas as pessoas que prezam pela ética, quando surge uma notícia dessa, sentem um certo desconforto. É lógico que precisa ver todas as implicações, a extensão disso, analisar com calma, mas à primeira vista causa um certo desconforto mesmo”, disse. Para o dirigente da OCB-GO, Caiado mantém forte identificação histórica com o agronegócio e continua sendo visto como um representante legítimo do setor em âmbito nacional.

“Eu vejo o Caiado como um excelente representante do agronegócio. Ele começou na política defendendo o agronegócio, identificado com esse setor”, afirmou. “O cooperativismo também se sente bem representado por ele.” Luiz Alberto ponderou que eventuais desgastes do governador junto ao setor ocorreram em razão de medidas pontuais adotadas durante sua gestão, mas afirmou que isso não altera sua ligação com o agro.

Alguma medida que internamente ele possa ter tomado que tenha desagradado o setor foi uma contingência de uma situação que ele tentou resolver. Isso não significa que ele não tenha apreço e seja identificado com esse setor

O presidente da OCB-GO também demonstrou preocupação com o impacto das disputas políticas sobre o ambiente econômico e institucional do país.

Segundo ele, o setor produtivo necessita de previsibilidade para investir e planejar. “O setor produtivo tem que ter uma certa previsibilidade para poder planejar e atuar. Hoje realmente o setor produtivo anda sobressaltado, primeiro com o ambiente geopolítico, a instabilidade internacional, e também essas mudanças nas regras internas”, afirmou.

Para Luiz Alberto, a estabilidade política é condição essencial para o crescimento econômico e para a segurança jurídica. “Estabilidade política é a base do crescimento de um país. Se você não tiver estabilidade política, você não tem previsibilidade, não tem segurança jurídica”, disse. “Esperamos que após essa eleição a gente comece a caminhar para essa normalidade, porque ultimamente estamos assistindo só esse ambiente polarizado, que prejudica o país como um todo.”

Apesar do desgaste recente, Luiz Alberto afirmou que o bolsonarismo ainda mantém relevância política no campo conservador e na direita brasileira. “O bolsonarismo é uma referência para a direita. Esse episódio logicamente enfraquece um pouco, mas tem condições de recuperar. A gente não sabe a extensão que isso vai dar”, afirmou.

Segundo ele, ainda não é possível afirmar se haverá substituição definitiva dessa liderança por outros nomes da direita nacional. “É cedo para saber a extensão dos efeitos disso, se realmente ele vai ser substituído por outra referência. Tem muita água para rolar debaixo da ponte”, concluiu.

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Luiz Alberto Pereira: “Eu vejo o Caiado como um excelente representante do agronegócio. Ele começou na política defendendo o agronegócio, identificado com esse setor”

A produtora rural de Rio Verde Rizzia Ribeiro Guimarães afirmou, em entrevista ao Jornal Opção, que não percebeu enfraquecimento de apoio político dentro do agronegócio em razão dos recentes embates e vazamentos envolvendo lideranças da direita.

Segundo ela, produtores rurais e integrantes do setor têm priorizado a análise de propostas concretas antes de manifestarem apoio eleitoral. “Eu não tenho observado que houve recuo de apoio por essa questão”, afirmou Rizzia ao comentar as discussões políticas que acompanham grupos de WhatsApp e espaços de debate dos quais participa.

A produtora se definiu como uma pessoa de direita, mas afirmou adotar uma postura pragmática diante do cenário político atual. “Eu sou de direita. Eu não sou bolsonarista, eu sou de direita bem pé no chão, daquela que avalia a política sem paixões”, disse.

Segundo ela, ainda não há definição sobre apoio político nem em âmbito municipal, nem em relação às disputas nacionais. “Eu não declarei apoio a nenhum lado ainda aqui no meu município. Estou bem tranquila quanto a isso. Estou avaliando o momento”, afirmou.

Rizzia relatou que o debate político tem sido frequente entre produtores rurais e pessoas ligadas ao setor, mas destacou que a principal preocupação está voltada às propostas econômicas e à estabilidade para o agronegócio. “A minha preocupação nesse momento, e acredito que a de todo o setor, é quais são as propostas que nós temos de ambos os lados. Qual é o apoio que nós temos?”, declarou.

Para ela, o ambiente político atual dificulta a tomada de decisão do eleitorado conservador. “A política da forma com que está hoje está péssima até para a tomada de decisão em quem apoiar, porque a gente não está vendo propostas. A gente está vendo intrigas, fofocas, intrigas nas mídias”, criticou.

A produtora também defendeu mudanças na postura dos políticos e cobrou debates mais voltados à economia e ao desenvolvimento do país. “O político tinha que se posicionar de uma forma diferente, parar de ser mais do mesmo. A gente precisa de políticos que falem de proposta de melhoria para o país”, afirmou.

Entre os pontos considerados prioritários pelo setor agropecuário, ela citou segurança econômica e previsibilidade para os negócios. “Qual é a proposta econômica? Qual é o mercado que nós podemos ter lá na frente? E qual é a estabilidade que o agronegócio vai ter na mão desses novos políticos aí que estão se lançando à presidência?”, questionou.

Por fim, ela afirmou temer um racha na direita. Apesar da movimentação política antecipada, Rizzia afirmou que ainda não vê medidas concretas sendo apresentadas pelas principais correntes políticas. “Até o momento a gente não viu nada palpável de ambos os lados”, concluiu.

Rizzia Ribeiro: “Eu não tenho observado que houve recuo de apoio por essa questão”

Para o produtor rural Jonny Chaparini, de Montividiu, no sudoeste goiano, apesar da repercussão, não há, até o momento, um afastamento significativo do agronegócio em relação ao grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Diante do que a gente ouve, muitas narrativas sendo criadas para ofuscar a realidade, o produtor já está bem ciente. Ele sabe que muita conversa é solta para ofuscar a realidade”, afirmou Chaparini. “O produtor está neutro e assistindo de camarote até que se investigue a verdade. E a verdade, ao longo do tempo, vai surgindo.”

De acordo com o produtor, ainda não há sinais concretos de migração de apoio político dentro do setor agropecuário. “Francamente, eu não vi nenhuma pessoa ainda se colocar nessa posição de deixar de apoiar por causa desses áudios”, declarou.

Apesar disso, Chaparini reconhece a força política do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, entre produtores rurais. Segundo ele, o chefe do Executivo estadual mantém um eleitorado consolidado no agro devido à sua trajetória histórica ligada ao setor.

“O Caiado já é uma pessoa do ramo político há muitos anos, tem vasta experiência”, disse. Ainda assim, o produtor avalia que parte do agronegócio busca uma alternativa política nacional mais alinhada ao enfrentamento ao governo federal.

“O produtor hoje está cansado do atual cenário e quer mudança. O país hoje está debilitado”, afirmou. “O produtor não tem alegria no semblante pela realidade que o setor agrícola está passando.” Chaparini também criticou políticas voltadas ao setor agropecuário e classificou o Plano Safra como insuficiente.

“Vai soltar um Plano Safra que é só mídia. Na realidade, não tem um assistencialismo para o produtor, que é a alavanca mestre da estabilidade financeira do país”, argumentou. Ao comentar a disputa política nacional, o produtor disse enxergar em Flávio Bolsonaro um nome mais competitivo para enfrentar o PT.

“Eu votei muitas vezes no Caiado, mas hoje estou do lado do Flávio Bolsonaro”, declarou. Mesmo demonstrando preferência pelo grupo bolsonarista, Chaparini ponderou que o cenário político ainda está aberto. “A gente quer uma pessoa definitiva, justa. Perfeito só Deus”, concluiu.

Jonny Chaparini: “O produtor está neutro e assistindo de camarote até que se investigue a verdade. E a verdade, ao longo do tempo, vai surgindo.”

A reportagem também ouviu outras entidades do agro, no entanto preferiram não se manifestar. Ao Jornal Opção, o presidente da Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano (Comigo), Antonio Chavaglia, evitou associar o agronegócio goiano a qualquer grupo político nas eleições de 2026 e afirmou que a entidade não participa de debates partidários. “A cooperativa nunca entrou na política”, afirmou.

A reportagem tentou ainda contato com o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Goiás (Aprosoja-GO), Clodoaldo Calegari, mas ele não atendeu as ligações e nem respondeu mensagem. Por meio da assessoria de imprensa, a entidade afirmou ser “uma associação de classe, mas não responde pelas preferências ou decisões políticas dos produtores associados. Por ser uma entidade apartidária, a Aprosoja-GO não comenta esse tipo de assunto”.

A Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (FAEG) também foi consultada pelo Jornal Opção, mas a assessoria de imprensa também informou que, “no momento, não irá se pronunciar sobre o assunto”. A reportagem ainda tentou contato com deputados federais goianos ligados ao agro, como Marussa Boldrin (Republicanos-GO), Daniel Agrobom (PSD-GO) e Ismael Alexandrino (PSD-GO), mas as ligações não foram atendidas.

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Especialistas

Para o cientista político Pedro Célio, a crise não produziu os efeitos esperados sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro e tampouco fortaleceu de forma significativa outros nomes da direita, como Ronaldo Caiado. Em entrevista ao Jornal Opção, Pedro Célio afirmou que, inicialmente, acreditava que o episódio levaria ao enfraquecimento irreversível da candidatura bolsonarista.

“Imediatamente depois que o áudio foi divulgado, surgiu a hipótese de que o Flávio iria dissolver a candidatura dele, ia derreter o espólio de votos dele e esses votos deveriam ir para outro candidato. Essa era a hipótese geral, inclusive minha”, disse. O cientista político, contudo, afirmou ter revisto a avaliação diante da resistência do núcleo mais fiel do bolsonarismo.

“Hoje eu considero que eu estava redondamente enganado. O negócio é que, por um dado que eu ainda não sei explicar, a não ser o fanatismo mesmo desse núcleo de decisão extremamente bolsonarista, a candidatura do Flávio está resistindo de uma maneira imprevista”, avaliou.

Segundo Pedro Célio, os efeitos mais intensos do desgaste já deveriam ter aparecido nas pesquisas eleitorais. “Há cerca de duas semanas, os primeiros efeitos já tinham que ter acontecido. O que acontecer daqui para frente agora pode ser irrelevante em relação àqueles áudios, a não ser que apareçam novos áudios, mais informações bombásticas”, afirmou.

Ele observou que levantamentos recentes, como Datafolha e Atlas, indicaram apenas oscilações moderadas no cenário eleitoral. “A expectativa nossa era de que o Flávio despencaria de maneira irremediável. E não está acontecendo”, disse. Para ele, isso revela a força do núcleo bolsonarista dentro do eleitorado conservador.

“O antipetismo tem um bolsão, um núcleo bolsonarista muito mais forte do que a gente pensa. Eles já se acamparam com o Bolsonaro na liderança e não estão descartando o nome Bolsonaro”, afirmou. Pedro Célio também relativizou a ideia de que o agronegócio esteja diretamente reagindo ao episódio ao migrar apoio para Caiado.

Segundo ele, embora exista afinidade histórica entre o governador goiano e o setor, o comportamento político atual é mais influenciado pela dinâmica ideológica da extrema direita do que pelo pragmatismo econômico do agro. “Por afinidade ideológica, o agro é mais Caiado do que outra coisa. O Caiado é o agro encarnado, se o agro existir”, declarou. Apesar disso, ponderou que o setor costuma agir de forma pragmática e nem sempre acompanha as turbulências do cenário eleitoral.

“Eu não sei até que ponto também é essa ideia de que o agro está muito preso a essas movimentações, a essas dissonâncias, a essa instabilidade dos movimentos eleitorais. Porque, na verdade, a movimentação eleitoral está muito forte. Eu acho que é algo mais forte do que o agro. É esse pensamento de extrema direita, que tem uma base antipetista muito evidente, é isso que está funcionando mais”, concluiu.

Pedro Célio: “A expectativa nossa era de que o Flávio despencaria de maneira irremediável. E não está acontecendo”

Os áudios envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e Vorcaro ainda não provocaram, ao menos por enquanto, uma migração perceptível do eleitorado do agronegócio em Goiás. A avaliação é do antropólogo Jorge Lima, em entrevista ao Jornal Opção, ao analisar os possíveis impactos políticos do episódio sobre a direita e sobre o governador Ronaldo Caiado.

Segundo o pesquisador, é cedo para afirmar que o setor agropecuário, historicamente alinhado à direita, tenha começado a abandonar Flávio Bolsonaro em direção a Caiado. Para ele, os efeitos do caso devem aparecer de forma mais clara apenas durante a campanha eleitoral.

“Ainda está muito cedo para perceber esse movimento. Eu acredito que ele vai aparecer muito mais forte dentro dos argumentos de campanha”, afirmou. “Na campanha é possível explicar para o eleitor o que aconteceu e usar isso como argumento para ganhar voto e confiança.”

Jorge Lima afirma que, nas conversas e pesquisas de campo realizadas por ele em Goiás e no Mato Grosso, não identificou uma tendência imediata de mudança no comportamento do eleitor conservador por causa do episódio. “Do que eu andei conversando e fazendo os percursos em Goiás e no Mato Grosso, não há essa tendência agora de migrar o eleitorado só em função desse acontecimento”, disse.

“O Flávio é só mais uma pessoa na cena. Não que ele não tenha importância, mas esse caso acabou sendo diluído em meio a uma percepção mais ampla.” Na avaliação do antropólogo, parte do eleitorado bolsonarista relativiza denúncias envolvendo figuras da direita utilizando como contraponto os escândalos de corrupção ligados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao PT.

“Muita gente está pensando assim: ‘corrupto por corrupto, o Lula teve mais episódios de corrupção e é presidente’”, afirmou. “Então nasce uma parte do eleitorado que aceita a corrupção até o instante que defende o candidato dele. Daí para frente é imoral, mas até aqui pode.”

Para Jorge Lima, o antipetismo continua funcionando como elemento de blindagem política para lideranças conservadoras. Segundo ele, isso reduz o impacto imediato de crises de imagem envolvendo nomes da direita. “Esse eleitor anti-Lula e anti-PT vai argumentar: ‘do outro lado o Lula também já foi ligado à corrupção’”, avaliou. “Então ele acaba relativizando.”

O antropólogo também considera que a turbulência gerada pelos áudios atingiu mais diretamente a condução política da pré-campanha de Flávio Bolsonaro do que a percepção popular propriamente dita. “Essa instabilidade foi causada mais pela falta de manejo da crise da própria pré-campanha do Flávio do que pela população em si”, afirmou.

Ao comentar o espaço ocupado por Ronaldo Caiado dentro do eleitorado conservador e do agronegócio, Jorge Lima afirmou que o governador goiano surge como uma liderança mais sólida e com discurso considerado mais “maduro” entre os presidenciáveis da direita.

“O eleitor nacional está carente, órfão de uma liderança que tenha autoridade moral para falar em nome de uma determinada bandeira”, disse. “Nisso, o Caiado até agora é o pré-candidato que tem o melhor discurso.” O antropólogo comparou Caiado a outros nomes da direita, como o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, e afirmou que o goiano transmite uma postura mais institucional.

“O Zema leva isso muito para o meme, para a brincadeira, enquanto o Caiado tem um posicionamento mais maduro, mais de estadista”, afirmou. “É alguém que pode dizer: ‘quem se misturou com Vorcaro não tem autoridade moral para debater com o petismo’.”

Apesar disso, Jorge Lima pondera que esse discurso ainda depende do ambiente eleitoral para ganhar força. Segundo ele, os embates da campanha serão decisivos para consolidar narrativas entre os diferentes grupos da direita. “Isso pode surgir mais fortemente só lá na campanha mesmo, quando cada um apresentar a sua bandeira”, disse.

O antropólogo também destacou o crescimento do influenciador e integrante do MBL Renan Santos nas pesquisas após a repercussão do caso envolvendo Flávio Bolsonaro. “Quem pegou essa onda e foi beneficiado por esse deslize do Flávio foi o Renan Santos”, afirmou. “Segundo as pesquisas, ele chegou perto de 7%.”

Na avaliação dele, Renan Santos conseguiu capitalizar o desgaste ao defender um discurso de equivalência entre direita e esquerda tradicionais. “Ele foi lá dizer que o Flávio é igual ao Lula. Aí o argumento dele ficou fortalecido, de que é tudo farinha do mesmo saco”, disse.

Jorge Lima também apontou que Caiado leva vantagem competitiva na pauta da segurança pública, tema que considera central para o eleitor brasileiro. “O Caiado ganha dos outros credenciáveis no sentido da segurança pública”, afirmou. “O Brasil vive uma sensação generalizada de insegurança.”

Segundo ele, Goiás consolidou uma imagem positiva na área da segurança, o que tende a fortalecer o discurso político do governador nacionalmente. “Goiás vive um momento de bem-estar social na área da segurança pública que é inegável”, disse. “Pode ser de esquerda, direita ou centro, mas é um estado muito seguro.”

Jorge Lima: “Goiás vive um momento de bem-estar social na área da segurança pública que é inegável” | Foto: Arquivo pessoal
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Na avaliação do ex-deputado federal e especialista em política, Vilmar Rocha (PSD), o fato até pode beneficiar Caiado, mas, segundo ele, o episódio ainda é recente e os efeitos eleitorais só poderão ser medidos nos próximos meses. Apesar disso, para ele a tendência inicial é de enfraquecimento da imagem de Flávio Bolsonaro junto ao eleitorado conservador.

“Esse áudio vazado e outras coisas que ainda podem vir desgastam a imagem da candidatura do Flávio. E, na medida em que desgasta, a tendência é beneficiar o Caiado e o Zema, que são as outras duas alternativas”, afirmou. Apesar disso, ele pondera que ainda não é possível mensurar a dimensão política do episódio.

“A dimensão disso nós só vamos ver com o tempo. Ainda está cedo para uma avaliação para ver o nível, a extensão desses desgastes e para quem foi o maior beneficiário”, disse. Vilmar Rocha destacou que o agronegócio possui uma identificação histórica maior com Ronaldo Caiado do que com o governador de Minas Gerais, Romeu Zema.

Para ele, isso pode favorecer o governador goiano caso parte do setor se afaste politicamente de Flávio Bolsonaro. “O agro tem uma identificação muito grande, muito maior com o Ronaldo do que com o Zema. O Zema é um comerciante, é o cara do setor urbano, e o Ronaldo tem uma identidade histórica, antiga com o agro, desde a época da UDR”, afirmou.

Na avaliação do ex-deputado, produtores rurais e lideranças do agronegócio que eventualmente deixarem de apoiar Flávio Bolsonaro tendem a migrar para Caiado. “Aqueles do agro que eventualmente deixarem o Flávio, a tendência maior é ir para o Ronaldo”, disse.

Vilmar Rocha também afirmou que Caiado possui espaço consolidado como liderança nacional do agronegócio, especialmente nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste. “No agro do Brasil todo, principalmente no Centro-Sul, a ressonância do nome dele é muito maior. No Nordeste, por exemplo, isso é diferente”, avaliou.

Para Vilmar, o cenário político ainda deve passar por mudanças até as convenções partidárias, previstas para os próximos meses. “Daqui a dois meses, aproximadamente, nós teremos as convenções. Então, daqui até lá, ainda vai haver alguma movimentação nesse cenário”, disse.

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Vilmar Rocha: “A dimensão disso nós só vamos ver com o tempo”

Análise

Embora não haja levantamentos eleitorais públicos em Goiás após o escândalo, dados de pesquisas estaduais pré-vazamento ajudam a contextualizar o cenário:

  • Genial/Quaest (6–28 abr/2026, IEPEAM): Em Goiás, em simulação de 1º turno, Caiado 31%, Flávio 25%, Lula 20%. Em 2º turno, Flávio batia Lula (47% a 34%). Ou seja, antes do áudio Flávio já não era favorito no 1º turno goiano.
  • Real Time Big Data (16–17 mar/2026) – Pesquisa Poder360 registrada. Em dois cenários sem Caiado na disputa, Flávio (43–45%) lidera sobre Lula (34–35%). Porém, em cenário com Ronaldo Caiado (PSD) candidato, Caiado 36%, Lula 29%, Flávio 22%. Demonstra que a entrada de Caiado esvazia muito o potencial de voto de Flávio no estado.
  • Atlas/Bloomberg (maio/2026) – Pesquisas de tracking nacionais indicam queda de Flávio após o áudio. Uma sondagem recente apontou Lula 49,1% vs Flávio 42,6% em 2º turno (diferença de 6,5 p.p.), revertendo empate técnico antes. Não há dados separados de Goiás, mas a tendência sugere maior ganho de Lula em redutos mais moderados, possivelmente incluindo parte do agro.
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Tabela 1. Comparativo de pesquisas eleitorais em Goiás (pré-vazamento)

Data (2026)InstitutoContexto / Observações1º turno (GO)2º turno GO (Lula vs Flávio)
16–17 marReal Time Big Data / PT360Cenário sem Ronaldo CaiadoFlávio 43%, Lula 34%
16–17 marReal Time Big Data / PT360Cenário com Caiado (PSD)Caiado 36%, Flávio 22%, Lula 29%
6–28 abrGenial/Quaest (via InfoMoney)Visão geral de GOCaiado 31%, Flávio 25%, Lula 20%Flávio 47% vs Lula 34%
(nacional) maioAtlas/Bloomberg (CNN)Tracking após o áudioLula 49,1% vs Flávio 42,6%

Em síntese, antes do escândalo Flávio já enfrentava desafios em Goiás. A inclusão de Caiado como candidato forte concentrou votos do campo conservador em sua figura. Em 2022 (último pleito presidencial), as áreas rurais e o interior de Goiás tiveram maior votação proporcional para Jair Bolsonaro (PL).

Por exemplo, Jair liderou no sudoeste goiano, localidades de pecuária e grãos, ao passo que Lula venceu em cidades universitárias e industriais. Embora os votos de Flávio em 2022 não sejam diretos (ele não concorria), o desempenho de Jair naquele pleito ilustra o perfil conservador do eleitorado rural goiano. Dados oficiais do TSE apontam que Bolsonaro venceu em cerca de 130 dos 246 municípios goianos, vários deles polos do agronegócio.

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