A condenação de Milton Pereira a 89 anos e 11 meses de prisão, após um julgamento que durou cerca de 36 horas, representa uma resposta firme do sistema de Justiça diante de um dos casos de maior repercussão recente em Cristalina. A avaliação é do promotor de Justiça Diego Henrique Siqueira Ferreira, titular da 2ª Promotoria de Justiça do município e responsável pela acusação durante o Tribunal do Júri.

Em entrevista ao Jornal Opção, o promotor afirmou que o resultado foi fruto de um trabalho conjunto entre o Ministério Público, a Polícia Civil e a Polícia Técnico-Científica, que permitiu reunir um conjunto robusto de provas para demonstrar a responsabilidade do réu pelos crimes julgados.

Segundo Diego Henrique Siqueira Ferreira, o processo exigiu meses de preparação e um exame detalhado de todos os elementos produzidos durante a investigação. O julgamento, que atravessou praticamente um dia e meio de debates, envolveu a apresentação de provas periciais, depoimentos de testemunhas e sustentação das teses da acusação e da defesa perante o Conselho de Sentença.

“Foi um júri extremamente complexo, tanto pela gravidade dos fatos quanto pelo volume de provas que precisaram ser analisadas. O Ministério Público trabalhou para apresentar aos jurados uma reconstrução precisa dos acontecimentos, permitindo que eles formassem sua convicção a partir dos elementos constantes nos autos”, afirmou.

Para o promotor, a longa duração da sessão demonstra o cuidado empregado pelo Judiciário e pelas partes envolvidas para assegurar que todas as circunstâncias fossem devidamente debatidas antes da decisão dos jurados.

“O tempo do julgamento reflete justamente a seriedade com que o caso foi tratado. Em um processo dessa magnitude, é essencial que todas as provas sejam examinadas e que acusação e defesa tenham ampla oportunidade de expor seus argumentos”, explicou.

Diego destacou que a condenação possui um significado que vai além da responsabilização individual do réu. Na avaliação dele, decisões como essa reforçam a mensagem de que crimes de extrema violência, especialmente aqueles praticados no contexto de violência contra a mulher, serão enfrentados com rigor pelas instituições.

“O feminicídio é uma das manifestações mais graves da violência de gênero e exige uma atuação firme do sistema de Justiça. A condenação representa não apenas uma resposta penal ao acusado, mas também um sinal de que esse tipo de crime não será tolerado e de que as vítimas e seus familiares têm direito à proteção e à busca por justiça”, disse.

O promotor ressaltou ainda que a atuação do Ministério Público buscou garantir que os jurados compreendessem a dimensão dos fatos e as circunstâncias que envolveram os homicídios. Segundo ele, o trabalho desenvolvido durante o julgamento teve como foco apresentar de forma técnica e organizada o conjunto probatório produzido ao longo da investigação.

“Nosso papel é levar ao Tribunal do Júri todas as evidências colhidas durante o processo e demonstrar, com base nelas, a responsabilidade criminal quando houver elementos suficientes. Foi exatamente isso que fizemos neste caso”, afirmou.

De acordo com Diego Henrique Siqueira Ferreira, a decisão também representa um reconhecimento do trabalho desempenhado pelos órgãos de investigação. Ele destacou a importância da atuação integrada entre Ministério Público, Polícia Civil e equipes periciais para o esclarecimento de crimes complexos.

“A elucidação de um caso dessa natureza depende de um esforço conjunto. A investigação reuniu provas técnicas e testemunhais importantes, que foram submetidas ao contraditório durante o processo e avaliadas pelos jurados antes da condenação”, observou.

Outro aspecto ressaltado pelo promotor foi o impacto que crimes dessa natureza provocam nas famílias das vítimas e na própria comunidade local. Segundo ele, o processo penal não é capaz de reparar integralmente essas perdas, mas a responsabilização dos autores é um passo importante para assegurar a aplicação da Justiça.

“Nenhuma sentença devolve as vidas perdidas ou elimina o sofrimento causado aos familiares. Entretanto, a resposta do Estado por meio do Tribunal do Júri demonstra que esses fatos são apurados com seriedade e que os responsáveis podem ser responsabilizados na forma da lei”, declarou.

Para Diego, o julgamento também reforça o papel constitucional do Tribunal do Júri como espaço de participação popular nas decisões sobre crimes dolosos contra a vida. “Os jurados exerceram uma função de enorme responsabilidade ao analisar um conjunto amplo de provas e decidir sobre um caso extremamente sensível. Esse modelo fortalece a legitimidade das decisões e aproxima a sociedade da administração da Justiça”, afirmou.

Ao comentar a pena aplicada, próxima de nove décadas de prisão, o promotor ressaltou que ela decorre das circunstâncias reconhecidas no processo e da legislação penal brasileira. “A dosimetria é definida pelo magistrado com base nos parâmetros legais e nas qualificadoras reconhecidas pelo Conselho de Sentença. O resultado reflete a gravidade dos fatos julgados”, explicou.

Por fim, Diego Henrique Siqueira Ferreira afirmou que o Ministério Público continuará atuando para garantir a responsabilização de autores de crimes violentos e para fortalecer o enfrentamento ao feminicídio e aos homicídios dolosos. “Nosso compromisso é com a defesa da sociedade, das vítimas e da ordem jurídica. Julgamentos como este demonstram a importância de uma atuação técnica, responsável e comprometida com a busca pela verdade e pela Justiça”, concluiu.

Ao Jornal Opção, a advogada Daniella Visoná, responsável pela defesa de Milton Pereira, afirmou que a equipe jurídica ainda avalia os desdobramentos do julgamento e a possibilidade de recorrer da condenação.

“O processo seguirá seu curso normal, com análise técnica da ata de julgamento e dos demais atos processuais para avaliação de um eventual recurso. A atuação da defesa sempre foi pautada na garantia do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal, princípios indispensáveis em qualquer Estado Democrático de Direito”, disse.

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