Com plano de autossuficiência, China fecha o cerco para exportações de carne e soja e coloca Goiás na corda bamba
13 junho 2026 às 08h00

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Um dos maiores parceiros comerciais do Brasil, a China divulgou, em março deste ano, um documento intitulado 15º Plano Quinquenal para o Desenvolvimento Econômico e Social da República Popular da China (2026-2030). O plano foi elaborado com base em uma proposta do Comitê Central do Partido Comunista e se apresenta como uma densa carta para “elucidar a intenção estratégica nacional, definir as prioridades de trabalho do governo e orientar o comportamento dos atores sociais”.
Entre os termos frequentemente citados no documento asiático estão “autossuficiência” e “autossuperação”. Mas o que aparece em um contexto altamente positivo para o governo chinês, que manifesta no Plano Quinquenal a intenção de ser autossuficiente em “ciência e tecnologia de alto nível para liderar o desenvolvimento de novas forças produtivas qualitativas” e investir na cadeia produtiva com vistas a “fortalecer o ciclo interno”, pode equivaler a perdas e restrições para a economia de Goiás, que tem o país asiático como o principal parceiro comercial no segmento de exportações.
Os chineses são, já há alguns anos, os maiores compradores de proteína bovina do Estado de Goiás. De acordo com dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea Esalq/USP), o país foi o destino de 32,8% do valor exportado da carne bovina goiana no acumulado de janeiro a outubro de 2025, o equivalente a 108,9 mil toneladas (573,5 milhões de dólares).
Em segundo lugar entre os maiores destinos do valor exportado de carne bovina no mesmo período estão os Estados Unidos, que figuraram com 17,3%, equivalente a 57,6 mil toneladas. México vem em terceiro lugar, com 13,3%, cerca de 43 mil toneladas.
Quando o assunto é grãos, os valores exportados são ainda mais expressivos. Ainda conforme dados do Cepea-Esalq, de janeiro a março deste ano a China foi o destino de 62% do complexo de soja de Goiás. A porcentagem, que equivale a mais de 1,5 milhão de toneladas e 642 milhões de dólares, é discrepante à segunda maior: Polônia, que foi o destino de 5,4% das exportações no mesmo período.

E a presença massiva tanto da soja quanto da carne não só de Goiás, mas de qualquer outra parte que não seja da China, é tratada no Plano Quinquenal quase como um desafio a ser superado.
Conforme descrito no documento, é objetivo dos chineses implementar profundamente a estratégia de armazenar grãos no solo e na tecnologia, intensificar a implementação da nova ação para elevar a capacidade de produção de grãos em cem bilhões de jin, estabilizar a produção de arroz e trigo e aumentar a capacidade produtiva de milho e soja, além de promover o aumento generalizado da produtividade por área de culturas principais, como cereais e oleaginosas.
A carta cita ainda a intenção de “adaptar-se às mudanças na situação de oferta e demanda, otimizar a estrutura da produção agrícola e estabilizar o desenvolvimento da produção de produtos agrícolas importantes”.
Na questão da carne, o Plano afirma que a China seguirá no caminho de fortalecer o controle abrangente da capacidade de produção de suínos, promover a melhoria da qualidade e eficiência das indústrias de carne bovina, carne ovina e gado leiteiro, e acelerar a transformação e modernização da pecuária pastoril.
Cerco fechado
Segundo um estudo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) sobre o documento chinês, o principal risco imediato é o que analistas descrevem como “ameaça à soberania agrícola”: o plano, diz o estudo do Iedi, prioriza explicitamente a autossuficiência alimentar como questão de segurança nacional, incluindo metas de produção de 85% das “sementes centrais” da agricultura chinesa e expansão da biotecnologia agrícola para reduzir a dependência de importações proteicas e de óleos.
“Se a China avançar significativamente na autossuficiência em soja, milho e proteínas animais, o impacto sobre o complexo agropecuário brasileiro, que depende da demanda chinesa para absorver mais de 70% de suas exportações de soja, seria severo”, afirma o estudo, que destaca ainda que o segundo risco é a desindustrialização competitiva induzida.
Conforme o Iedi, a supercapacidade industrial chinesa em setores de média e alta tecnologia, como máquinas, veículos, eletrônicos, equipamentos industriais, já pressiona a indústria brasileira no mercado doméstico e em mercados de exportação regionais e globais.
Leia também: União Europeia oficializa veto à carne brasileira; Goiás acompanha possíveis impactos no setor
O presidente da Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa), José Ricardo Caixeta, destaca que o cerco ao redor das exportações do Brasil e de Goiás não é de agora. Caixeta cita a imposição de cotas de importação de carne bovina, com uma tarifa de 55% sobre quaisquer volumes excedentes do total estipulado pelo governo chinês.
Anunciada no ano passado, a cota de 1,1 milhão de toneladas para o Brasil, para 2026, já está perto de ser atingida.
“Se você observar agora, talvez até o final de junho a gente já atinja essa cota de 1 milhão e 100 mil toneladas. A demanda chinesa tem crescido muito, e essa dependência da China em relação a esses produtos não se restringe ao Brasil. A China é o maior importador de matérias-primas, grãos e alimentos do mundo”, disse José Ricardo Caixeta, que alertou: “O Brasil é um parceiro muito importante. Porém, esse tipo de postura por parte da China nos preocupa, porque acaba desestruturando as nossas cadeias produtivas”.

Na questão da “autossuficiência” citada no 15º Plano Quinquenal, o presidente da Agrodefesa avalia que a China, no entanto, dificilmente conseguirá alcançar esse objetivo no curto prazo, uma vez que o processo envolve uma série de variáveis que vão além dos aspectos econômicos e tecnológicos. Segundo ele, fatores como condições climáticas e disponibilidade de água representam desafios significativos que limitam avanços mais rápidos.
O presidente destacou, porém, que a velocidade do desenvolvimento chinês exige atenção. Para ele, o país tem avançado de forma acelerada na área tecnológica e continua sendo o principal motor da demanda mundial, especialmente para o agronegócio brasileiro, setor que mantém forte relação comercial com o mercado chinês.
“A gente se preocupa mais com o médio prazo. Mas, em contrapartida, se você observar as estratégias que o Brasil tem adotado, elas passam justamente pela diversificação e pela redução dessa dependência”, destacou Caixeta, que acrescentou que Goiás tem trabalhado constantemente na abertura de novos mercados.
Segundo ele, embora ainda estejam muito aquém da capacidade de absorção da China, são mercados diversos, o que ajuda a ampliar as oportunidades e a reduzir riscos. O presidente da Agrodefesa cita como exemplos de mercados em expansão o do México. “Há pouco tempo, nossas exportações de carne bovina [para os mexicanos] começaram a crescer”.
Vale destacar que, no acumulado de janeiro a outubro de 2025, Goiás exportou o equivalente a 233 milhões de dólares em carne bovina para o México, conforme dados do Cepea-Esalq.
José Ricardo Caixeta também cita como mercados em crescimento o dos Estados Unidos, que até pouco tempo mantinham o mercado fechado para a proteína bovina brasileira e hoje já são o segundo maior comprador.
O presidente da Agrodefesa citou ainda o Japão como um mercado com potencial para ser mais bem explorado pelo Brasil. Ele também mencionou a Índia entre os parceiros estratégicos, embora tenha ressaltado que, com exceção dos Estados Unidos, nenhum desses países possui o mesmo potencial econômico e mercadológico da China.



