“Me senti humilhada”: professora trans relata constrangimento em colação de grau após processo contra UFG
15 agosto 2026 às 18h08

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A atriz e professora Mar Dias Rosa, de 27 anos, contou, em entrevista ao Jornal Opção, neste sábado, 15, como foi viver o episódio de 2022, quando foi chamada pelo nome de registro durante a cerimônia de colação de grau na Universidade Federal de Goiás (UFG). O nome social já estava cadastrado nos sistemas acadêmicos, mas não foi utilizado no evento. A Justiça Federal condenou a instituição ao pagamento de R$ 4 mil por danos morais.
Em nota, a UFG disse que lamenta o ocorrido e reafirma como prioridade o respeito a cada pessoa e a todos os seus direitos. Segundo a universidade, ainda durante a cerimônia, dois minutos após o chamamento incorreto, a equipe realizou pedido de desculpas e convidou novamente a estudante ao palco utilizando o nome social. Sobre a decisão judicial, a instituição disse que o pagamento já foi realizado pela União.
Mar explicou que havia procurado representantes da colação para confirmar o uso correto do nome, mas o erro aconteceu diante de familiares e amigos. “Me senti humilhada, totalmente prostrada, com trauma da universidade. Professores que eu gostava não me deram nenhuma palavra carinhosa, mesmo sabendo meu nome. Minha rede de apoio foram minhas amizades”, disse.
Ela apontou que buscou reuniões com a reitoria e representantes da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (Prae), pedindo retratação pública, capacitação de profissionais e atendimento psicológico. O suporte só foi obtido após insistência, já formada, por meio do programa Saudavelmente. “A colação afetou muito mais o meu psicológico. Depois de brigar muito, consegui atendimento por mais oito meses”, afirmou.

A atriz acredita que o caso abriu precedente jurídico e representa uma conquista coletiva. “Fiquei feliz pela condenação da UFG. Triste com o valor, que não repara o dano moral, mas feliz pelo precedente, pela jurisprudência que abre com a vitória trans”, declarou.
Ela lembrou que já havia perdido outro processo contra um médico que se recusou a usar seu nome social. “Por isso, quando ganhei contra a UFG, foi uma vitória nossa”, completou.
Um ano depois, em 2023, Mar ingressou no mestrado em Artes da Cena da UFG, tornando-se a primeira trans no programa. “Me formei mestra no mesmo prédio, na mesma universidade, porque, apesar dos pesares, essa universidade também é minha e eu posso estar nela. Estou feliz por poder contar para as pessoas que o que aconteceu foi errado. E comemorar com as minhas, com as pessoas trans. A gente ganhou, nós pessoas trans”, afirmou.
Ela afirmou que sua luta contribuiu para mudanças institucionais. Em 2023, passou a ser possível incluir o nome social com flexão de gênero nos diplomas da UFG. “Isso foi uma luta minha, nossa, trans na UFG. Depois foi veiculado como se a universidade tivesse reconhecido, quando na verdade eu estava protagonizando e não tive respaldo”, disse.
Mar também lembrou de outras conquistas pessoais. “Fui a primeira pessoa não binária retificada em Goiás, a primeira a ter uma CNH com nome social. Quantas vezes tive a porta fechada na cara para conseguir isso hoje, ainda em 2026”, afirmou.
Ela reforçou que a divulgação da decisão judicial é fundamental para que outras pessoas saibam que podem reivindicar seus direitos. “Com certeza essa decisão abre precedentes. A difusão dessa informação serve para que as pessoas saibam que elas podem procurar o direito delas. Eu venho lutando e vou continuar lutando por todas nós”, concluiu.
Nota da UFG sobre condenação judicial
Em nota enviada ao Jornal Opção, a UFG informou que a sentença relacionada ao não uso do nome social de uma estudante em cerimônia de colação de grau foi proferida em 1º de outubro de 2025 e transitou em julgado em 10 de janeiro de 2026. O pagamento já foi realizado pela União.
A instituição declarou que lamenta o ocorrido e reafirma como prioridade o respeito a cada pessoa e a todos os seus direitos. Segundo a universidade, ainda durante a cerimônia, dois minutos após o chamamento incorreto, a equipe realizou pedido de desculpas e convidou novamente a estudante ao palco utilizando o nome social.
A UFG destacou que há mais de uma década desenvolve políticas de ações afirmativas voltadas para a comunidade trans.
A UFG destaca políticas como o uso do nome social nos sistemas e documentos oficiais, cotas em cursos de graduação e pós-graduação, bolsas de moradia e assistenciais para estudantes trans e travestis em situação de vulnerabilidade social, além de campanhas e programas de conscientização voltados à visibilidade trans e ao combate à transfobia.
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