Da sala de aula para as urnas, professores e profissionais ligados à educação têm buscado na política uma forma de ampliar a atuação para além dos muros das escolas. Em Goiás, nomes com trajetória no ensino estão entre os candidatos nas eleições de 2026 e levam para a disputa experiências acumuladas no cotidiano educacional, além de pautas relacionadas à valorização profissional, condições de trabalho e participação das famílias na formação dos alunos.

Entre eles estão o vereador por Anápolis Alex Martins (PP), candidato a deputado federal; a deputada estadual Bia de Lima (PT), que busca a reeleição; e a ex-secretária de Educação de Goiás Fátima Gavioli (PSD), candidata a deputada federal. Em comum, os três defendem que a vivência na educação oferece instrumentos para compreender problemas sociais e participar diretamente das decisões políticas.

Ao Jornal Opção, os três também apontaram desafios que ultrapassam a carreira dos professores. A perda de autoridade em sala de aula, o distanciamento das famílias, a valorização profissional, as mudanças provocadas pela tecnologia e a necessidade de recuperar o protagonismo dos educadores aparecem entre as questões que, para eles, ajudam a explicar por que profissionais da área decidem trocar, ainda que temporariamente, a sala de aula pela disputa eleitoral.

Alex Martins: “A educação cria possibilidades”

Formado em Ciências Sociais e Direito, o vereador por Anápolis Alex Martins (PP) tem mais de 25 anos de atuação na cidade. Professor, ele também já foi secretário municipal de Educação e de Indústria, Comércio e Modernização e diretor-geral da Companhia Municipal de Trânsito e Transporte (CMTT). Atualmente, exerce o segundo mandato na Câmara Municipal de Anápolis.

Ao Jornal Opção, Alex afirmou que a experiência adquirida na educação pode levar professores a enxergarem na política outra possibilidade de transformação social.

“A educação é uma ferramenta de transformação. A educação cria possibilidades, oportuniza situações ou histórias. E essa busca pelo estudo, essa busca pela informação constante, mas uma formação necessária, faz com que a gente entenda situações, vocações, através de experiências vividas, através de cultura, através de relação com a sociedade, porque tudo isso gera bagagem. E o tal de gerar bagagem, o tal de gerar conhecimento, nos remete à ideia de que a gente se torna um ator que pode cumprir um papel social ainda maior por ter todas essas informações”, afirmou.

Professor Alex Martins | Foto: Reprodução

Ele destacou que estudar sobre o Cerrado, a Amazônia, vegetação ou o crescimento das cidades também faz parte desse processo de educação e formação, capaz de ampliar a percepção sobre pertencimento e sociedade.

“Eu, como professor, já estou há alguns anos fora de sala de aula, mas tudo aquilo que eu aprendi em sala de aula, por ter sido filho de professores também, tanto meu pai como minha mãe, por ter feito licenciatura em Ciências Sociais, por ser sociólogo, a gente assume essa responsabilidade de querer o bem de uma sociedade numa visão de formação que a gente teve durante essa construção do saber”, disse.

Ao ser questionado sobre os interesses de classe que considera prioritários para os profissionais da educação em Goiás, Alex defendeu que o debate considere tanto os trabalhadores quanto os estudantes.

“Tanto tem que ser prazeroso para quem trabalha, e esse trabalho para mim é docente e técnico-administrativo, como também tem que ser prazeroso para quem estuda. Quando a gente fala de educação, a gente tem que falar em sistema. Por mais que a gente respeite as categorias e entenda a importância delas, completamente, mas a gente também tem que entender quem é acolhido”, apontou.

O vereador ressaltou que o ambiente escolar deve ser prazeroso para o aluno e oferecer segurança e valorização para quem trabalha. Para ele, o próprio debate recorrente sobre o piso salarial demonstra que ainda há espaço para avançar na valorização da categoria.

“A gente sempre fala de piso, isso é tão ruim falar de piso. Piso é mínimo, piso é baixo. A gente tinha que falar de algo superior, algo alto, e não de piso, não de solo. Apesar que de chão de sala é que faz e constrói os educadores, mas é muito pouco falar de piso”, disse.

Alex defendeu ainda respeito às categorias, garantias mínimas, formação periódica e contínua, além do reconhecimento dos profissionais por meio de progressões na carreira. “Ao falar de educação, a gente tem que falar de sistema. Aí, por mais que a gente está falando de categoria, eu também estou falando do aluno que é acolhido”, afirmou.

Sobre como o professor pode intervir em um sistema que apresenta dificuldades para o avanço da educação, Alex afirmou que o educador assume também responsabilidades sociais, comunitárias e morais.

“Por mais que ideologicamente você coloca na sua pergunta que existe um interesse X que determinada coisa aconteça, quem transforma o ambiente é o educador”, explicou.

Ele exemplificou essa influência com a relação entre pais e filhos. “É muito comum falar assim: ‘Filho, é assim a resposta’. E o filho responde: ‘Não, não é assim, pai. Minha professora falou que é assado’. Ou seja, a resposta, o posicionamento do professor, ele se torna uma ferramenta de direcionamento social, educacional e moral”, apontou.

Para Alex, o professor rompe fronteiras e contribui para preparar pessoas para uma sociedade melhor. “Se o professor continuar cumprindo o seu papel, essa afirmação que você me disse, ela não vai acontecer. É claro, mas que para isso a gente dê todas as condições para que a educação seja prazerosa para quem trabalha e gostosa para quem estuda”, afirmou.

Família e escola

O vereador também chamou atenção para o papel das famílias no processo educacional. Segundo ele, responsabilidades relacionadas à formação das crianças têm sido transferidas para as escolas.

“Infelizmente, a família está passando uma responsabilidade de educação moral e jogando para a escola. Aqueles limites impostos para um processo de educação, de licença, de obrigado, de até logo, de bom dia, são coisas que são inseridas dentro da escola, mas se aprende pelo exemplo dentro de casa”, disse.

Alex criticou ainda o uso excessivo das tecnologias como substituto da presença dos responsáveis. “Em alguns locais o telefone virou uma chupeta eletrônica em que o pai e a mãe colocam na frente de uma tela”, comentou.

Para ele, há atualmente um desgaste na relação entre duas instituições fundamentais na formação das crianças.

“Nós estamos vivendo um momento de crise entre duas instituições que são portos seguros, que é a família, a casa, e a escola, em que não foram estabelecidos os limites de responsabilidade de educação moral que a família sempre teve”, apontou.

Alex defendeu políticas públicas que ofereçam condições para que as famílias também cumpram seu papel. “O papel é nós chamarmos a responsabilidade para as famílias cumprirem seu papel também institucional na formação desses pequenos, que são formações que permanecem no processo moral”, afirmou.

O vereador lembrou que, não muito tempo atrás, havia um conceito mais presente de comunidade escolar, no qual os pais participavam das questões das unidades de ensino e eram chamados a integrar o processo educacional. Segundo ele, essa participação diminuiu ao longo dos anos.

“Eu sou de uma instituição chamada Escola de Pais do Brasil. Inclusive, na cidade de Anápolis existe uma seccional. A Escola de Pais do Brasil tenta, da melhor maneira possível, casais levarem algum tipo de informação para novos casais. E nós tivemos a experiência de trazer casais mais idosos para dentro dessas reuniões de pais que aconteciam nas escolas também. Foi uma experiência fantástica”, disse.

Ele citou ainda outro modelo adotado em Anápolis por meio do Juizado da Infância e Juventude, com participação do juiz Carlos Limongi. Segundo Alex, havia um incentivo para que as famílias comparecessem às escolas.

“Ele sempre participou e sempre pediu para que as famílias participassem dessas convocações, que, na verdade, não é um chamamento, é uma convocação, para que os pais estivessem presentes dentro da escola”, apontou.

Para Alex Martins, essa aproximação reforça a ideia de pertencimento. “Aquela escola é do bairro, não é de um diretor, não é de um vereador, não é de político nenhum. Aquela escola é da comunidade. Essa ideia de pertencimento já traz a figura de que a gente tem que cuidar do patrimônio público”, afirmou.

O vereador lembrou ainda da infância em Mundo Novo de Goiás, quando estudava em uma escola sem muros, cercada apenas por gramado. Segundo ele, o cenário encontrado atualmente é diferente.

“Hoje, essas mesmas escolas estão cercadas por muros, estão cercadas por vigilância. Por quê? Porque elas se tornaram também uma instituição ameaçada por vândalos, por quem não acredita na educação, ou por quem quer lá fazer algum tipo de besteira ou tipo de violação”, disse.

Para ele, é fundamental restabelecer os vínculos entre os responsáveis e o ambiente escolar.

“Eu concordo perfeitamente nessa afirmação que você coloca, de que o pai e a mãe têm que ir para a escola para ter essa ideia de pertencimento, para gerar essa ideia de conforto ao patrimônio público, mas também na ideia de que, quando você está dentro da escola, o pai e a mãe sabem qual é o melhor amiguinho que o filho tem, qual a maior dificuldade que esse filho tem, qual a melhor professora. Sobretudo, sabe as notas que tem, o que comeu, o que vestiu, como está o comportamento. Viver a escola é ter esse cheiro também de escola, de sala de aula”, apontou.

“Querer romper esses muros físicos que a escola tem hoje por uma situação de violência urbana e de vandalismo, e dizer para os pais: ‘Vem para aqui para dentro, porque você pertence a esse espaço’. Conforme seu filho está aqui, você também deve ser acolhido. E essa troca de experiência é fantástica. Sabe, por mais que possa ter um atrito, uma dificuldade, mas essa experiência de troca de informação da criança entre pai e professor gera um crescimento extraordinário, e a própria criança entende que está sendo acolhida por essas duas instituições, família e escola”, finalizou.

Bia de Lima: coragem para defender a educação

Ao Jornal Opção, a deputada estadual Bia de Lima (PT), candidata à reeleição, falou sobre o papel dos professores que deixam a sala de aula para ingressar na política. A parlamentar destacou a importância de profissionais da educação ocuparem espaços de decisão e defendeu que esse movimento precisa ser acompanhado de coragem e preparo.

“Eu acho importante que tenhamos pessoas preparadas para compreender a política para também intervir positivamente em favor da categoria, em favor da pauta educacional. Eu só temo quando partidos vão atrás dos professores muito mais só para completar a quota das mulheres do que efetivamente os partidos garantirem a elas as condições para que possam não apenas se candidatarem, mas terem posições e possibilidades de vitória, que é muito difícil de obter”, afirmou.

Ao ser questionada sobre ameaças à categoria neste ano, Bia ressaltou a necessidade de firmeza na defesa da pauta educacional.

“Mais do que nunca se faz necessário que possamos, nós da educação, não apenas nos candidatar, mas tendo coragem para defender a pauta educacional. Porque muitas vezes o que se vê é que as pessoas saem candidatas, mas não têm coragem de defender a pauta. Então não basta sair candidato, não basta entrar pra política. Tem que ter coragem para fazer a defesa mesmo muitas vezes em situações tão difíceis. É aí que requer o preparo”, disse.

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Deputada estadual Bia de Lima | Foto: Reprodução

A deputada também destacou que a experiência em sala de aula dá ao professor uma visão diferenciada para atuar na política.

“Sim, porque ele tem que ter consciência crítica, né? Ter capacidade de fazer leitura crítica do cenário e da conjuntura nacional, né, local e nacional. E, principalmente, ter visão, ter posição. E essa é a grandiosa tarefa. Não basta ser só da educação, mas tem que ter uma visão crítica aguçada para não ser massa de manobra no processo eleitoral”, explicou.

Sobre o sistema educacional, Bia afirmou que a formação do professor oferece instrumentos importantes para enfrentar cenários adversos.

“É por isso que a visão crítica vai garantir a ele a coragem necessária para fazer o enfrentamento, às vezes em situação muito contrária ao que ele prevê. Então ele tem que ter essa disposição. Mas lógico, ele sai na frente porque ele, sendo da educação, tendo um conhecimento, uma formação mais aguçada, já o capacita a fazer esse trabalho mais corajoso, mais ousado, mais revolucionário, eu diria”, afirmou.

Ao resumir o que leva professores a deixarem a sala de aula e ingressarem na política, a parlamentar apontou uma motivação coletiva. “No esforço concentrado de obter melhorias não apenas para si, mas para a coletividade”, disse.

Professor precisa recuperar protagonismo, diz Bia

A perda de autoridade do professor em sala de aula também foi abordada pela deputada. Para Bia, o cenário atual exige uma discussão sobre como recuperar a legitimidade e o protagonismo dos profissionais.

“O protagonismo do processo educacional de fato, nos tempos atuais, vem exigindo cada vez mais do professor essa condição de ter mais legitimidade, autoridade e protagonismo”, apontou.

Segundo ela, o aumento de tarefas burocráticas também interfere no trabalho realizado dentro das escolas.

“Mas, diante de tudo o que muitas vezes vem se impondo, obriga o professor a ficar muito mais preenchendo plataformas e dados por conta das estatísticas e dos interesses das Secretarias de Educação do que, efetivamente, o trabalho da metodologia utilizada pelo professor na sala de aula. Então eu acho que nós vamos ter que fazer uma discussão muito mais aprofundada acerca do papel do professor não apenas agora, mas principalmente no futuro”, afirmou.

Bia também apontou a inteligência artificial como um dos elementos que devem entrar nessa discussão sobre o futuro da profissão.

“Já que a inteligência artificial e o uso, muitas vezes, dessa inteligência tenta sobrepor ou mesmo tirar a iniciativa do professor, nós vamos ter que nos desdobrar ainda mais para construir, nessa nova dinâmica que a sociedade exige, sem desmerecer o trabalho e a capacidade de interlocução do professor com seus alunos”, concluiu.

Fátima Gavioli: formação docente desperta interesse pela política

Ao Jornal Opção, Fátima Gavioli (PSD), ex-secretária de Educação de Goiás e candidata a deputada federal, explicou por que tantos professores deixam a sala de aula para disputar espaço na política. Segundo ela, esse movimento está diretamente relacionado à própria formação docente.

“O professor deixa a sala de aula e vai para a política porque, na verdade, já é um ser politizado”, disse.

“A própria formação docente naturalmente desperta o interesse pela política. Dentro da sala, ele percebe que muitas coisas não acontecem como deveriam, observa os políticos em atuação e, independentemente da sua condição, pensa: ‘Eu também consigo, mesmo sendo professor’”, explicou.

Fátima Gavioli | Foto: Jornal Opção

“É por isso que tantos professores se afastam da sala de aula por 90 dias para disputar a política partidária. Isso decorre de uma formação que é, essencialmente, política. De vez em quando, surge alguém que tenta cercear o professor justamente por causa dessa capacidade de interpretar o mundo e as pessoas… algo que nasce do contato com a sociologia e a filosofia”, completou.

Ao ser questionada sobre como a política pode interferir nos problemas reais da sala de aula, Fátima destacou o aprendizado proporcionado por essa experiência.

“Tudo é aprendizado. Eu estou na sala de aula, sou professora de História, ensino História para os alunos. Aí eu saio e venho para a campanha política. É outro mundo. Você vai conviver com conflitos, com atritos, vai lidar com métricas que medem, por exemplo, a questão do recurso financeiro”, disse.

A ex-secretária também criticou a forma como mulheres são atraídas para os partidos durante os períodos eleitorais.

“Eu agora nessa campanha estou falando muito sobre essa propaganda que existe de ‘mulheres, venham se filiar no partido tal’. Ela é mentirosa. Na verdade, deveria ser: ‘Mulheres, venham se filiar no partido tal, desde que você não me ameace. Desde que você não queira tirar a vaga de alguém que já está lá dentro’. Tudo isso é aprendizado. Quando o professor volta para a sala de aula, a disciplina dele fica muito mais enriquecida”, acrescentou.

Mudanças na sociedade chegam à sala de aula

Ao avaliar os desafios enfrentados pelos professores atualmente, Fátima afirmou que as transformações sociais também modificaram a dinâmica dentro das escolas.

“A sociedade mudou, o homem mudou, as crianças mudaram junto com tudo isso. Se você olha para fora, vê que existe uma guerra que está posta, uma guerra de vermelho com amarelo, verde com roxo. Uma guerra partidária, ideológica, que é levada para dentro de casa”, disse.

Segundo ela, discussões políticas e ideológicas realizadas pelos adultos diante das crianças acabam sendo reproduzidas no ambiente escolar.

“A violência e o desrespeito que estão na sociedade hoje também estão dentro da sala de aula. O professor tem pouco poder agora. Ele fica praticamente acuado diante da possibilidade de dizer: ‘Eu quero fazer um corretivo, vou colocar você num cantinho da disciplina’. Isso não existe mais. Se ele fizer isso, provavelmente será até exonerado”, explicou.

Fátima também apontou uma transferência de responsabilidades entre família e escola.

“Estamos vivendo um momento ruim, onde existe por parte dos pais a intenção de culpabilizar a escola e os professores pelos problemas que eles estão criando fora dela. A escola tem que ensinar. A escola tem o papel de ensinar; a família precisa educar. Quando um dos dois deixa de cumprir seu papel, isso degringola. E é o que está acontecendo”, afirmou.

Sobre o senso de comunidade escolar, a ex-secretária defendeu a necessidade de aproximar novamente as famílias da vida escolar.

“Eu acho importante, acho que tem que ser feito um trabalho para trazer a família de volta para a escola. Hoje você pergunta qual é o Dia da Família na escola e ninguém se lembra mais. Há 10 anos tínhamos a certeza da presença da família pelo menos duas ou três vezes por ano na escola. Hoje, levar um pai para a escola é muito difícil. Mas eu acredito que isso vai começar a mudar”, disse.

Apesar das dificuldades, Fátima encerrou com uma avaliação otimista sobre a possibilidade de mudanças na educação.

“A humanidade é assim, ela bate no teto daquilo que não é um bom comportamento e depois vai voltando, retrocedendo, até que a gente consiga retomar o ponto de partida”, finalizou.

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