Os jovens advogados entram no mercado carregando sonhos e expectativas, mas logo se deparam com uma realidade marcada por vulnerabilidade, frustrações e desafios que vão muito além da sala de aula. A formação acadêmica, centrada na teoria, pouco prepara para a prática diária de lidar com clientes, prazos e pressões, enquanto a saturação da profissão e os salários iniciais abaixo do esperado expõem a fragilidade dessa etapa da carreira.

Ao Jornal Opção, Homero Silva Neto, de 28 anos, presidente da Comissão da Advocacia Jovem da OAB Goiás, falou sobre os principais obstáculos enfrentados pelos advogados em início de carreira e destacou caminhos para superar as dificuldades.

Segundo ele, a formação acadêmica não prepara o profissional para o mercado de trabalho. “A faculdade de Direito ensina o direito material e processual, mas longe de preparar para as dificuldades reais do mercado”, afirmou.

Homero explicou que o primeiro desafio é a empregabilidade em um cenário saturado. “Temos praticamente 1,5 milhão de advogados no Brasil. Muitos fazem o mais do mesmo, não buscam diferenciação, capacitação, não expandem sua rede de contatos e não investem em habilidades laterais”, disse.

Para enfrentar esse cenário, ele aponta três pilares fundamentais. “Capacitação técnica, investimento em networking e relacionamento e habilidades laterais como oratória e inteligência emocional. São três pontos de investimentos diários nos primeiros anos de caminhada”, explicou.

Homero ressaltou ainda que a Comissão da Advocacia Jovem da OAB Goiás atua como suporte prático para quem ingressa na profissão. “Promovemos palestras de prospecção de clientes, marketing, oratória, sustentação oral e gestão de escritório, tudo com o intuito de impulsionar a carreira do jovem advogado”, afirmou.

Homero Silva Neto, de 28 anos, presidente da Comissão da Advocacia Jovem da OAB Goiás | Foto: Acervo Pessoal

O presidente da comissão também abordou o impacto das novas tecnologias. “A jovem advocacia precisa tomar consciência de que inteligência artificial é uma ferramenta indispensável. O escritório que não investir em inteligência artificial corre sérios riscos de ficar fora do mercado em dois anos”, disse.

Ele destacou que a ferramenta amplia a produtividade. “Uma petição que demoraria cinco dias pode ser realizada em três, o que abre margem para outras demandas”, explicou.

Homero reconhece que a pressão sobre os jovens advogados é grande, especialmente nos escritórios. “A parte mais fragilizada da advocacia é a jovem advocacia. É aquele que está em busca de uma esperança na profissão, que ainda não tem experiência, mas que tem muitos sonhos. Em muitos escritórios é a jovem advocacia que fica por conta da produção em si”, afirmou.

Para ele, a inteligência artificial pode ser uma aliada nesse processo. “O jovem advogado que já entra no mercado e tem pressão para produzir consegue se desenvolver e performar melhor com a utilização da inteligência artificial”, disse.

A pauta incluiu a questão salarial também. “Muitas vezes o advogado começa com um salário muito abaixo do esperado, em alguns casos até com um salário mínimo, mesmo após cinco anos de curso e o desafio da prova da OAB” afirmou.

Homero reforçou que a advocacia é uma profissão de médio e longo prazo. “O advogado jovem tem que plantar pensando numa colheita futura, mas certo que essa colheita virá, fazendo o que tem que ser feito dentro dos limites éticos e dentro da técnica”, apontou.

Ele também classificou como triste a realidade enfrentada pelos jovens advogados em relação à remuneração. “É uma situação muito triste ver a jovem advocacia nessa circunstância. Isso é uma consequência do boom das faculdades de Direito no Brasil. Temos uma relação de oferta e demanda”, apontou.

“Em razão de termos 1 milhão e meio de advogados no Brasil e muitas pessoas com necessidade de trabalhar, alguns escritórios acabam aproveitando essa circunstância e pagam salários muito abaixo e inimagináveis para um advogado que se capacitou por 5 anos, tirou sua carteira de ordem e começou a advogar. Infelizmente essa é uma realidade de mercado”, disse.

Ele lembrou que em Goiás existe um piso ético estabelecido pela OAB. “É longe de ser um piso ideal, como nunca haverá um piso ideal se olhar em termos mercadológicos, mas já é pelo menos uma régua para não ser abaixo disso. O piso ético é de R$ 2.500”, afirmou.

Homero destacou ainda a importância da independência profissional. “A jovem advocacia precisa se desenvolver ao ponto de não depender de cliente dos outros para a sua existência profissional. A Comissão da Advocacia Jovem proporciona diversos eventos, capacitações técnicas, pessoais e profissionais com o intuito de desenvolver aquele jovem advogado para que ele possa ir atrás dos seus clientes, ter a sua própria carteira de clientes, começar a construir o seu nome na praça, seja para abrir o seu próprio escritório, seja para empreender internamente em um escritório já consolidado, o que é chamado de intraempreendedorismo. A jovem advocacia precisa aprender a se desenvolver como profissional para não depender de nenhum valor fixo”, afirmou.

Ele também comentou sobre a jornada de trabalho. “Quem é advogado sabe que a nossa profissão é extremamente exigente. Nós lidamos com urgências, problemas de famílias, de pessoas, de empresas. Agora, se o advogado é CLT, o escritório que o contratou precisa observar as leis trabalhistas. Mas o advogado autônomo, que abre o próprio escritório, sabe que sua rotina dificilmente respeitará as 8 horas de trabalho”, disse.

“Porque o jovem advogado precisa ser ao mesmo tempo quem faz prospecção, quem executa a petição, o recepcionista, o financeiro, o gestor de prazos, quem faz o protocolo, tudo isso em uma pessoa só. Geralmente aqueles que abrem o seu escritório sabem que sua jornada dificilmente se limitará a 8 horas. Aqueles que são contratados via regime CLT cabe ao escritório que os contratou respeitar a legislação trabalhista”, finalizou.

Lidar com clientes, prazos, audiências, honorários e estratégias

A jovem advogada Tátila Fernanda, de 27 anos, formada há três anos e atualmente atua como advogada plena em uma empresa de transporte público, apontou ao Jornal Opção os principais desafios de iniciar na advocacia.

Ela explicou que a formação acadêmica prepara muito para a teoria, mas nem sempre para a realidade prática da profissão. “Quando a gente começa a atuar, precisa aprender na prática a lidar com clientes, prazos, audiências, honorários, estratégias e, principalmente, com a responsabilidade que existe por trás de cada caso”, disse.

Segundo Tátila, há também uma percepção social de status associada à advocacia, que nem sempre corresponde à realidade enfrentada pelos profissionais em início de carreira. “Muitas vezes, as pessoas olham para o advogado e imaginam uma realidade financeira e profissional muito diferente da que realmente existe. Existe um certo status associado à profissão, mas, principalmente no início, a realidade pode ser bem diferente. Precisamos correr atrás de clientes, lidar com inseguranças e construir nosso espaço praticamente do zero”, afirmou.

Tátila Fernanda, de 27 anos, formada há três anos | Foto: Acervo Pessoal

Ela destacou ainda que a questão financeira é um dos maiores obstáculos. O mercado é extremamente competitivo e há uma grande quantidade de profissionais disputando espaço. “No começo, nem sempre temos uma renda fixa ou uma carteira de clientes, enquanto as despesas continuam existindo. Acredito que seja por isso que muitos colegas de profissão escolhem ingressar em escritório já consolidados no mercado de trabalho ou prestar concurso. Por isso, é preciso ter planejamento, paciência e muita persistência”, comentou.

Nesse contexto, as redes sociais têm se tornado ferramentas importantes para advogados que estão começando. “Elas permitem compartilhar conhecimento, mostrar nosso trabalho, construir autoridade e alcançar pessoas que talvez nunca chegassem até nós pelos meios tradicionais. É uma maneira de se posicionar em um mercado tão competitivo e, aos poucos, conquistar visibilidade e clientes”, lembrou.

Para Tátila, iniciar na advocacia é compreender que o diploma é apenas o começo. “A gente precisa continuar estudando, aprender com a prática e com os erros, desenvolver habilidades que a faculdade não ensina e, principalmente, ter humildade para reconhecer que construir uma carreira sólida leva tempo. É um caminho desafiador, mas também muito gratificante”, explicou.

Ao refletir sobre sua trajetória, ela afirmou que teria buscado mais cedo compreender a realidade prática da advocacia. “Eu teria me arriscado mais e me permitido errar mais. Também teria investido mais cedo em cursos de oratória, posicionamento, comunicação e imagem profissional, porque hoje percebo o quanto essas habilidades fazem diferença na advocacia”, disse.

“Teria trabalhado mais a minha comunicação e a forma de me posicionar, além de buscar mais experiências e oportunidades fora da minha zona de conforto. Acho que, no início, eu me preocupava muito em estar pronta, em não cometer erros, quando na verdade, a gente aprende justamente se permitindo tentar, errar e evoluir”, afirmou.

Ela também fez uma crítica ao papel da OAB. “Na minha percepção, existe uma preocupação muito grande em fiscalizar o ingresso na profissão, cobrar anuidade, estabelecer regras de publicidade e impor limites à atuação profissional, mas eu não percebo, na mesma proporção, um suporte efetivo para quem está começando e tentando construir sua carreira praticamente do zero”, disse.

Necessidade de constante atualização e diálogo

Ao Jornal Opção, a Ana Lívia Gonçalves, de 25 anos, formada há um ano e cinco meses e especialista em Direito do Consumidor, que atua em um escritório. Ela compartilhou sua visão sobre os principais desafios enfrentados por quem inicia a carreira na advocacia.

Segundo Ana Lívia, a maior dificuldade está na captação de clientes e na construção de networking. “A faculdade não ensina isso. O advogado jovem, antes de querer ser advogado, tem que saber ter jogo de cintura com pessoas”, afirmou.

Ela destacou que muitos estudantes de Direito acabam adiando experiências práticas em escritórios, o que gera insegurança quando ingressam no mercado. “A advocacia vai muito além de ter uma carteira da OAB. Você tem que ser uma pessoa boa para conversar e para ouvir. Se você não escuta o seu cliente, não tem como resolver o problema dele”, disse.

Ana Lívia Gonçalves, de 25 anos, formada há um ano e cinco meses | Foto: Acervo Pessoal

A advogada ressaltou a importância dos estágios desde o início da graduação. “Não deixar para última hora, no sétimo ou oitavo período. Desde o primeiro momento que você entrar na faculdade de Direito já procurar um escritório. Mesmo quem quer concurso público precisa ter prática dentro do Direito”, explicou.

Para ela, essa vivência é fundamental para que o profissional não se veja perdido ao receber a carteira da Ordem.

A discussão sobre salários nos primeiros empregos apareceu como outro ponto relevante. Ana reconhece que os valores pagos em estágios ou cargos iniciais são baixos, muitas vezes abaixo do teto ético da OAB. No entanto, ela considera que o aprendizado compensa. “É um dinheiro que pode ser pouco, mas te retorna porque te dá conhecimento. Conhecimento é sempre investimento”, afirmou.

Ela contou que começou cedo em escritórios e, por isso, hoje sente segurança no exercício da profissão.

Ana Lívia também destacou a necessidade de constante atualização e diálogo. “É sempre procurar ler bastante, se inteirar, conversar com as pessoas. No Direito tudo é sobre diálogo, sobre conversa”, concluiu.

Atividades extracurriculares na graduação

Ao Jornal Opção, a estudante de Direito Laryssa Damasceno, 23 anos, Diretora de Comunicação da Liga Acadêmica de Direito (LAD) e servidora do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás há cinco anos, falou sobre os principais obstáculos enfrentados por quem inicia na carreira jurídica.

Segundo Laryssa, a dificuldade já começa na busca por estágio durante a faculdade. “A gente já lida com um problema muito grande que é a procura de estágio. Existem algumas oportunidades, mas os horários são complicados. Normalmente é das 9h às 15h ou até às 16h, o que não faz sentido nenhum para quem estuda à tarde ou trabalha de manhã”, afirmou.

Ela destacou que essa incompatibilidade inviabiliza a experiência prática para muitos estudantes. “Se você precisa de um estágio obrigatório, mas trabalha em um emprego CLT para pagar a faculdade, é impossível conciliar”, apontou.

Laryssa Damasceno, 23 anos, Diretora de Comunicação da Liga Acadêmica de Direito (LAD) | Foto: Acervo Pessoal

A jovem também explicou que, após a graduação, a realidade se torna ainda mais dura. “A procura por clientes é brutal. Muitas pessoas não confiam em advogados jovens. A visão que se tem da advocacia não é muito boa. Muitas vezes não confiam, principalmente em criminalistas”, disse.

Ela lembrou de declarações públicas que reforçam esse estigma ao advogado. “O presidente Lula chegou a dizer que não confia em advogado criminalista e contratou um civilista para o caso dele. Isso acaba dificultando ainda mais o nosso ramo”, comentou.

Um ponto discutido foi a baixa remuneração dos estágios em escritórios. “As bolsas que melhor pagam são em órgãos públicos como Tribunal, Ministério Público e Assembleia Legislativa. Em escritório de advocacia pagam muito pouco. E nos órgãos públicos você não trabalha diretamente com Direito, por assim dizer”, disse.

Para Laryssa, a formação acadêmica não é suficiente para preparar o estudante para o mercado. “A faculdade não te forma para ser um profissional. Você sai muito cru, um livro em branco. O estágio deveria ensinar alguma coisa, mas muitas vezes não cumpre esse papel. Então o que você puder fazer para se formar profissionalmente, seja estudando peças sozinho, aprendendo sobre a sociedade e como funciona o mercado de trabalho, isso vai te auxiliar muito”, explicou.

Ela também destacou a importância da participação em atividades extracurriculares. “Auxilia muito participar de liga e centro acadêmico, porque você consegue muitos contatos”, finalizou.

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