“A queda da vacinação não começou na pandemia”, diz goiano que apresentou pesquisa em um dos maiores congressos de medicina do mundo
09 julho 2026 às 14h53

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Representar Goiás em um dos maiores congressos de Medicina de Família e Comunidade do mundo foi uma experiência marcante para o estudante de Medicina Cezanne Almeida e Barbosa, de 21 anos. O goiano apresentou, na 30ª Conferência Europeia da WONCA, realizada em Paris, uma pesquisa sobre a queda da cobertura vacinal infantil no Brasil antes e depois da pandemia de Covid-19.
O trabalho, desenvolvido ao longo do primeiro semestre com orientação dos professores Nail e Márcio, analisou como a redução da vacinação infantil pode impactar a Atenção Primária à Saúde.
Ao Jornal Opção, Cezanne contou que a ideia surgiu ainda no ano passado, quando recebeu o convite para desenvolver uma pesquisa com potencial para ser apresentada no congresso internacional. “A gente começou a desenvolver nosso trabalho sobre a cobertura vacinal infantil no Brasil no período pré-pandêmico e pós-pandêmico e como isso afetaria a atenção primária. Trabalhamos durante todo o semestre para construir um artigo bem estruturado e mostrar para os pesquisadores de outros países como está a situação da vacinação hoje no Brasil”, afirmou.
Segundo o estudante, o tema foi escolhido justamente por estar diretamente ligado à Atenção Primária, foco central da WONCA. “Queriamos entender se a pandemia realmente havia afetado a cobertura vacinal infantil. Além disso, durante a Covid-19 houve redução dos serviços de atenção primária e aumento das fake news relacionadas às vacinas, especialmente entre crianças”, explicou.
Os resultados mostraram que a diminuição da cobertura vacinal já era observada antes da pandemia.”Notamos que houve uma diminuição da cobertura vacinal, mas ela não começou na pandemia. Essa tendência de queda já aparecia desde 2016 e 2017. A pandemia acabou acentuando esse processo”, afirma.
O estudo também identificou redução da vacinação contra febre amarela em regiões endêmicas. “Isso pode representar um fator de risco para futuros surtos. Também percebemos que a recuperação da cobertura vacinal precisa ser pensada de forma individualizada por cada estado”, explicou.
Como se trata de um estudo ecológico, o pesquisador afirmou que os resultados não estabelecem relação direta de causa e efeito, mas permitem levantar hipóteses para futuras investigações.
Pesquisa despertou interesse de pesquisadores estrangeiros
Durante a apresentação em Paris, o trabalho foi um dos mais debatidos na sessão dedicada às vacinas. “Foi uma das pesquisas que mais recebeu perguntas. Eles ficaram surpresos com essa queda porque o Programa Nacional de Imunizações do Brasil sempre foi referência internacional”, disse.
Entre os principais questionamentos, pesquisadores de outros países quiseram entender quais estratégias poderiam ser adotadas para recuperar a cobertura vacinal. “Nós explicamos que, por ser um país continental, cada região do Brasil precisa identificar suas próprias fragilidades e desenvolver estratégias específicas para aumentar a adesão às vacinas”, afirmou.
Além das discussões científicas, Cezanne destaca que o congresso proporcionou uma rica troca de experiências entre profissionais de diferentes países. “Eles também comentaram que a atenção primária não é valorizada em muitos lugares. Isso reforça como é importante valorizar aqui no Brasil o médico de família e comunidade e as unidades básicas de saúde, que coordenam o cuidado da população”, relatou.
Apesar da ansiedade antes da apresentação, realizada inteiramente em inglês, o estudante afirma que o apoio recebido de familiares, professores e antigos colegas transformou a experiência. “Antes da apresentação eu estava muito tenso, principalmente por apresentar em inglês. Depois, quando vi todo o carinho da minha família, dos professores, dos amigos e das pessoas das escolas onde estudei em Goiânia, fiquei muito feliz por representar a cidade e mostrar que os alunos daqui também produzem ciência”, afirma.
Para Cezanne, a experiência também explicou a importância de estimular estudantes a ingressarem na pesquisa científica desde cedo. “Pode parecer difícil, principalmente quando envolve estatística, mas quando você percebe que está produzindo uma pesquisa que desperta o interesse de pesquisadores de outros países, entende a importância disso. Hoje a medicina trabalha baseada em evidências, então conhecer o método científico é fundamental”, reforçou.
Novas pesquisas já estão em andamento
O trabalho apresentado em Paris deve ser apenas o primeiro de uma série de estudos sobre o tema. Segundo o estudante, a próxima etapa será investigar os fatores que provocaram a queda da cobertura vacinal ainda antes da pandemia. “Toda pesquisa gera novas perguntas. Agora queremos entender quais fatores, desde 2016 e 2017, contribuíram para essa redução e quais fragilidades do Sistema Único de Saúde influenciaram esse cenário”, completou.
Embora ainda não tenham apresentado oficialmente o estudo ao Ministério da Saúde, Cezanne afirma que essa possibilidade poderá ser discutida futuramente pelo grupo de pesquisa.
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