O combate à prescrição e ao comércio ilegal de anabolizantes tem se tornado mais difícil em uma era onde a busca pela corpo ideal e padrão está em alta. Há também outros obstáculos enfrentados pelos conselhos, órgãos competentes, que desafiam a rotina de fiscalização: a resistência por parte das pessoas.  E por vezes, muitas delas estão dentro das próprias academias. 

Longe de ser um trabalho puramente administrativo, o monitoramento realizado pelo Conselho Regional de Educação Física da 14ª Região (CREF14/GO-TO) esbarra, frequentemente, na incompreensão de pessoas que enxergam as ações do órgão como uma interferência desnecessária, e não como uma medida de proteção à saúde pública. 

Para o segundo vice-presidente do CREF-GO, Diego Adams, o clima de normalização em torno do uso estético de hormônios cria barreiras reais no dia a dia dos fiscais. “A gente chega nas academias para poder atuar e acaba que os próprios alunos não gostam da nossa atuação, acham que é um ponto que a gente não devia estar se preocupando, porque eles não veem esses malefícios”, expõe o Adams que também é personal trainer há mais de 15 anos. 

Os anabolizantes são derivados sintéticos da testosterona, o hormônio natural responsável pelo crescimento muscular. Criadas para tratar apenas deficiências médicas específicas, essas substâncias são usadas ilegalmente nas academias como um atalho para a estética e a performance. O perigo é que, ao receber o hormônio de fora, o corpo interrompe sua própria produção natural. Ao parar o uso, a “fábrica” interna continua desativada, o que pode forçar o usuário a depender de reposição sintética pelo resto da vida.

O preço desse imediatismo inclui danos graves e irreversíveis à saúde, como insuficiência cardíaca, hepatite, problemas renais, infertilidade e câncer, além de dependência psicológica e surtos de agressividade. No curto prazo, os efeitos estéticos colaterais são severos. No caso dos homens, eles podem enfrentar calvície, acne e ginecomastia (aumento das mamas), enquanto as mulheres sofrem com o engrossamento definitivo da voz, surgimento de pelos faciais e desregulação do ciclo menstrual.

O vice-presidente do CREF-GO explica que a comercialização das substâncias feitas por profissionais de educação física extrapola as penalidades administrativas do conselho. “Além de ser uma infração ética, é um caso de polícia também, porque ele está atentando contra a saúde pública. Está tipificado no Código Penal”, alerta. 

Na esfera profissional, o preço para quem escolhe burlar as regras é a perda definitiva da carreira. Após o julgamento do processo pelo Tribunal de Ética do conselho, o envolvido corre o risco real de ter seu registro cassado e perder o direito de exercer a profissão.

Como o conselho não possui poder de polícia ostensiva para realizar buscas sem indícios prévios, a rotina de fiscalização depende diretamente da quebra desse silêncio por meio de denúncias. “A denúncia hoje é o caminho mais importante para a gente poder estar trabalhando. E aí a gente já tem o caminho para poder ser seguido”, explica Adams. 

Para ajudar o CREF-GO a fechar o cerco contra a atuação ilegal de profissionais, a sociedade pode colaborar de maneira totalmente segura. O conselho disponibiliza canais de ouvidoria por telefone ou diretamente pelo site oficial, onde qualquer cidadão pode registrar uma denúncia de forma anônima, com garantia de sigilo absoluto, ajudando a proteger a saúde coletiva dentro dos ambientes de treino.

Diego Adams afirma que a resistência de alunos e profissionais dificulta a fiscalização contra anabolizantes nas academias | Foto: Arquivo pessoal

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