Além da metáfora: ciência explica como a síndrome do coração partido pode ser fatal
11 junho 2026 às 14h32

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A morte da escritora, ilustradora e cineasta franco-iraniana Marjane Satrapi, aos 56 anos, autora da aclamada graphic novel Persépolis, trouxe uma pergunta tão antiga quanto a própria experiência humana: é possível morrer por coração partido? Familiares e pessoas próximas atribuíram o falecimento ao sofrimento avassalador que ela enfrentou após perder o marido, Ripa, vítima de um câncer em abril de 2025, aos 53 anos.
A resposta da medicina surpreende e confirma o que a sabedoria popular sempre suspeitou. Sim, um choque emocional devastador pode desencadear uma condição cardíaca real, documentada e potencialmente fatal, conhecida como Síndrome do Coração Partido ou Miocardiopatia de Takotsubo.
A ciência, no entanto, não se apoia em metáforas românticas para explicar o fenômeno. Quando um evento estressante atinge o indivíduo com força máxima, seja a notícia de um término, a morte repentina de um familiar ou até mesmo uma crise de ansiedade aguda, o organismo inunda a corrente sanguínea com uma descarga massiva de hormônios do estresse, sobretudo a adrenalina. Esse tsunami hormonal atordoa o músculo cardíaco, provocando um enfraquecimento súbito que simula com perfeição os sintomas de um infarto clássico.
O ventrículo esquerdo, câmara responsável por bombear o sangue para o corpo, perde momentaneamente sua capacidade de contração e assume um formato peculiar que os médicos japoneses, pioneiros na identificação da síndrome, compararam a um takotsubo, uma armadilha de pesca artesanal usada para capturar polvos, de fundo arredondado e gargalo estreito.
“Na verdade, não é simplesmente pela tristeza, mas o sofrimento emocional intenso, principalmente a questão de perder um ente querido, pode ter uma reflexão bem grande ali na parte cardiovascular”, explica o cardiologista Henrique M. de Souza, do Hospital Israelita Albert Einstein em Goiânia, em entrevista ao Jornal Opção.

O alento, sublinha o médico, reside na natureza majoritariamente transitória do quadro. Diferentemente do infarto, em que artérias entupidas privam o coração de oxigênio de forma permanente, na Síndrome de Takotsubo a disfunção costuma se reverter. “Na maioria das vezes, isso é temporário. Isso dura algumas semanas, até meses, e tende a voltar ao normal. A grande maioria dos casos são reversíveis”, afirma.
Contudo, o perigo se esconde nas exceções. Quando a fraqueza cardíaca não recebe a intervenção adequada, complicações severas entram em cena. “Em alguns casos pode evoluir para o quadro agudo com arritmias, insuficiência cardíaca refratária”, adverte o cardiologista. A linha que separa um susto de um desfecho trágico exige vigilância redobrada diante de sintomas como dor no peito, falta de ar e palpitações intensas.
A mente pode desorganizar o corpo
Se a cardiologia desvenda o fenômeno no interior das artérias e ventrículos, a psicanálise mostra o que ocorre no psiquismo humano quando um vínculo essencial se rompe. A perda de um amor, seja ele um cônjuge, um filho ou uma figura parental, não se reduz à ausência física da pessoa amada. O que se desmorona, nesses casos, é toda uma arquitetura subjetiva que sustentava a existência do enlutado.
Em “Luto e Melancolia”, texto clássico de 1917, Sigmund Freud já demonstrava que a libido investida no objeto amado precisa ser progressivamente desligada dele, um trabalho psíquico lento, doloroso e absolutamente necessário. O psicanalista Leandro Borges, em entrevista ao Jornal Opção, aprofunda essa perspectiva ao trazer elementos da orientação lacaniana.

“Quando alguém amado morre, perde-se também uma determinada posição subjetiva. Perde-se o lugar que ocupávamos para aquele outro e o lugar que aquele outro ocupava em nossa própria economia de desejo e de gozo. Não é apenas o outro que desaparece; algo de si mesmo também vacila.” Essa desestabilização explica por que certos enlutados descrevem a sensação de que uma parte de si morreu junto, e, em termos psicossomáticos, essa percepção não é mera figura de linguagem.
Já o psicanalista Fernando Figueiredo dos Santos e Reis descreve o processo com uma metáfora. “Quando a gente perde um objeto no qual investia muito libido, a gente tende a super investir na imagem desse objeto. Se a gente super investir nesse objeto perdido, a gente vai tirando libido de outros lugares, inclusive do próprio eu. Essa tristeza vai ganhando um tom fenomenológico de descuido, de desinteresse pelas coisas do mundo. Tudo que me interessa é a minha dor, é o meu objeto perdido.”
O enlutado abandona a alimentação, negligencia o sono, isola-se dos amigos e interrompe as atividades que antes lhe davam prazer. O corpo, privado de seus sustentáculos básicos, começa a definhar, e é nesse terreno que a Síndrome do Coração Partido encontra sua oportunidade.
Além do luto: ansiedade e depressão também acionam o gatilho
A Miocardiopatia de Takotsubo não se restringe ao luto amoroso. O cardiologista Henrique Souza faz questão de ampliar o alerta. “O paciente com um quadro de luto muito intenso, quadro de depressão, ansiedade, até o estresse crônico, tem um aumento maior do risco cardiovascular.” Ou seja, a tempestade química que enfraquece o coração também se forma em organismos submetidos a tensões prolongadas e transtornos psiquiátricos não tratados.
Leandro Borges complementa a leitura clínica com a parte psicológica. “O corpo falante é atravessado pelos efeitos da linguagem, do desejo e do gozo. Acontecimentos psíquicos podem produzir repercussões corporais importantes. Não se trata de afirmar que alguém morreu e simplesmente ficou triste, mas de reconhecer que a perda pode atingir profundamente os modos pelos quais um sujeito está enlaçado à vida.”
A depressão profunda e a ansiedade crônica funcionam, nesse contexto, como estados que corroem progressivamente as defesas do organismo, baixando a imunidade e abrindo caminho para que o sofrimento psíquico se inscreva diretamente nos órgãos.
Como se proteger e reconstruir a vida após a perda
Diante disso, a prevenção e o cuidado exigem uma abordagem integral, que recuse a falsa separação entre mente e corpo. O primeiro passo, conforme enfatiza o cardiologista, é reconhecer que “cuidar das emoções também é uma forma de cuidar do coração”.
Manter hábitos de vida saudáveis funciona como um escudo protetor. “Quando o paciente tem uma alimentação regulada, faz atividade física, cuida das suas comorbidades, isso tudo minimiza o risco de ter um evento cardiovascular, independente se está passando por uma fase mais estressada ou não”, explica o doutor.
Mas a blindagem puramente fisiológica encontra seus limites quando a dor psíquica é avassaladora. O psicanalista Fernando Reis aposta na diversificação dos vínculos como estratégia de sobrevivência emocional. “É sempre muito importante a gente ter pontos múltiplos que nos ligam à vida. Investir em vários objetos. Ter um trabalho que eu gosto muito, os filhos que eu gosto muito, atividades que eu gosto muito, isso ajuda a sustentar a pessoa na vida.”

Quando um pilar desaba, os demais seguram a estrutura. A elaboração do luto, acrescenta o Fernando, “é um trabalho que precisa ser feito para tentar colocar essa representação do objeto perdido em algum lugar na minha subjetividade onde eu consiga fazer com que a vida siga”.
Para os casos em que a tristeza já se instalou de forma paralisante, a unanimidade entre os especialistas recai sobre o acompanhamento multidisciplinar. “O paciente vai parando de fazer suas atividades habituais, para de fazer atividade física, se alimenta mal quando está passando por esse momento mais difícil. Eu acho que o acompanhamento com psicólogo, psiquiatra, cardiologista é o mais importante”, recomenda o doutor Henrique Souza.
A terapia, nesses casos, oferece um espaço seguro para que o enlutado traduza em palavras aquilo que o consome por dentro, evitando que a dor migre para o corpo e se converta em sintoma orgânico.
O psicanalista Leandro Borges resume o horizonte possível após a travessia do luto. “A elaboração de uma perda não consiste em esquecer quem morreu, nem em substituí-lo por outro objeto. Trata-se de construir uma nova relação com a ausência, encontrando uma maneira singular de seguir vivendo quando algo insubstituível foi perdido.”
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