“A internet é um mundo de fantasia”, dizem especialistas ao alertar para os riscos da busca pelo corpo perfeito após morte de Gabriel Ganley
03 junho 2026 às 19h13

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A morte do fisiculturista e influenciador fitness Gabriel Ganley, de 22 anos, gerou grande comoção nas redes sociais, mas também abriu espaço para um debate que há tempos preocupa profissionais da saúde: até onde vale a pena ir em busca do corpo perfeito?
Em uma época em que físicos musculosos e baixos percentuais de gordura são constantemente exibidos como sinônimo de sucesso, meta de vida, disciplina e qualidade de vida, especialistas alertam que a realidade pode ser bem diferente da imagem apresentada na internet. A médica nutróloga Nathany Ribeiro explica que hoje há uma discussão intensa sobre a busca pelo corpo perfeito. “Vivemos em uma era em que as redes sociais expõem diariamente padrões estéticos muitas vezes inalcançáveis, criando uma falsa impressão de que resultados extremos são normais, fáceis ou até necessários”, disse.
A médica conta que boa parte dos pacientes que chegam ao consultório buscam justamente reproduzir o físico de influenciadores, atletas ou celebridades. O problema, segundo ela, é que nem sempre as pessoas conhecem o caminho percorrido para alcançar aquela aparência. “A internet é um mundo de fantasia. Os leigos não sabem o que muitos atletas, modelos e influenciadores se predispõem a fazer para atingir determinados resultados. Existe uma série de fatores que não aparecem na foto publicada nas redes sociais”, afirma.

Para o cardiologista Lucas Nolêto de Oliveira a pressão estética tem feito cada vez mais pessoas colocarem a saúde em segundo plano. Na tentativa de acelerar resultados, alguns recorrem a treinos excessivos, dietas radicais e até ao uso de medicamentos sem orientação adequada. “Nem sempre a aparência física e saúde caminham juntas. Muitas pessoas acabam submetendo o próprio organismo a situações de risco para melhorar a estética ou a performance. Isso pode trazer prejuízos para o fígado, rins, coração e diversos outros órgãos. Precisamos lembrar que o corpo humano tem limites que devem ser respeitados”, alerta.
O avanço das redes sociais e a busca pelo corpo perfeito
A busca pelo corpo ideal não é uma pauta que entrou em discussão recentemente, mas ganhou novas proporções desde o avanço das redes sociais. Para Lucas, a exposição constante de imagens super produzidas acaba alimentando comparações irreais, além de desencadear outros problemas. “As pessoas veem fotografias selecionadas, editadas e produzidas para transmitir uma aparência ideal. Isso pode gerar ansiedade, comparações injustas e uma sensação constante de inadequação. Muitas vezes o público não conhece os bastidores daquela imagem”, explica.
Outro ponto que preocupa os especialistas é a associação automática entre músculos definidos e saúde. Embora a atividade física seja uma das principais ferramentas de prevenção de doenças, a aparência física, sozinha, não é capaz de revelar as condições reais de uma pessoa. “Existem pessoas com ótima aparência física que apresentam hipertensão, alterações hormonais, colesterol elevado e até problemas cardíacos. Da mesma forma, alguém que não se encaixa em um padrão estético pode ter excelente saúde metabólica e cardiovascular”, diz o cardiologista.
A nutróloga Nathany também reforça o alerta. Segundo ela, um corpo admirado socialmente não é garantia de bem-estar. “A saúde não pode ser medida apenas pela aparência. Podemos encontrar alterações metabólicas, hormonais, cardiovasculares e psicológicas mesmo em pessoas que se encaixam perfeitamente nos padrões estéticos mais valorizados”, afirma.
Na avaliação dos especialistas, um dos maiores problemas está na busca por resultados rápidos. Nathany explica que o organismo possui limites biológicos e que qualquer transformação corporal exige tempo. “Não existe transformação física sem adaptação, sem tempo e sem respeito à individualidade de cada organismo. Quando tentamos acelerar processos naturais a qualquer custo, aumentamos o risco de lesões, alterações hormonais, transtornos alimentares, problemas psicológicos e complicações cardiovasculares.”
O alerta é ainda mais importante entre os jovens, público que costuma ser mais impactado pela pressão estética e pela necessidade de validação nas redes sociais. O cardiologista chama atenção para o aumento de casos de ansiedade e baixa autoestima relacionados ao caso. “Observamos aumento dos casos de ansiedade, baixa autoestima, insatisfação corporal e transtornos alimentares. Os jovens costumam ser ainda mais vulneráveis a essa pressão”, acrescenta Lucas.
Para os dois especialistas, a construção de um corpo saudável passa longe de soluções rápidas. Alimentação equilibrada, prática regular de exercícios, sono adequado e acompanhamento profissional continuam sendo os pilares mais seguros para quem deseja mudar hábitos e melhorar a qualidade de vida.
Ao final da entrevista, Nathany compartilhou uma experiência pessoal que, segundo ela, mudou sua forma de enxergar a própria saúde. Apesar de sempre ter mantido uma rotina saudável e praticado atividades físicas regularmente, a médica enfrentou uma grave infecção respiratória e, posteriormente, foi diagnosticada com doenças autoimunes. “Se eu pudesse, faria tudo para ter a minha saúde de volta. Hoje eu sei ainda mais o quanto ela tem valor”, relata. “A estética é importante, mas ela não pode custar a sua saúde. O que precisamos buscar é equilíbrio.”
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