IA revoluciona rotina da saúde, mas especialista alerta: tecnologia não pode substituir decisão médica
27 agosto 2026 às 15h22

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O uso da inteligência artificial (IA) na área da saúde deixou de ser uma perspectiva futura e já integra a rotina de hospitais, clínicas e consultórios em Goiás e em outras regiões do Brasil. Ferramentas capazes de interpretar exames, identificar padrões e auxiliar na tomada de decisões médicas vêm sendo adotadas em ritmo acelerado, ao mesmo tempo em que surgem novos desafios relacionados à responsabilidade profissional, à proteção de dados e aos direitos dos pacientes.
Segundo a pesquisa TIC Saúde 2025/2026, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, 18% dos estabelecimentos de saúde já utilizam inteligência artificial. O índice sobe para 31% entre unidades com mais de 50 leitos e chega a 29% nos serviços de apoio diagnóstico e terapêutico.
Entre os estabelecimentos que adotam a tecnologia, a IA generativa é a aplicação mais comum, presente em 76% deles. Na sequência aparecem a mineração de texto, com 52%, e a automação de processos, com 48%.
O avanço da tecnologia traz benefícios para a assistência, mas também amplia discussões jurídicas e éticas sobre os limites de sua utilização. A Resolução nº 2.454/2026, publicada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), estabelece normas para o uso da IA na medicina em todo o território nacional e define parâmetros de responsabilização.
Ao Jornal Opção, a advogada Caroline Santos, presidente da Comissão de Direito da Saúde da OAB Goiás, destacou que a tecnologia deve ser utilizada como ferramenta de apoio, sem substituir a decisão do profissional.
“A inteligência artificial é uma ferramenta de apoio e não substitui o médico. A decisão clínica final continua sendo humana”, afirmou.
Segundo Caroline, cabe ao profissional avaliar criticamente as informações e recomendações fornecidas pelos sistemas de IA, mantendo a responsabilidade pelos atos médicos praticados.
“A inteligência artificial pode auxiliar o médico, mas não pode ser utilizada como uma espécie de substituta da avaliação profissional. A nova resolução do CFM é muito clara ao estabelecer que a decisão final será sempre do médico”, explicou.
“Existe uma diferença fundamental entre utilizar a tecnologia como suporte e simplesmente confiar em uma resposta automatizada. Quando há um paciente envolvido, a responsabilidade profissional e a necessidade de uma análise individualizada e humana são intransferíveis”, completou.
Médico pode não responder por falha exclusiva da IA
A advogada explicou que a resolução prevê proteção contra responsabilização indevida quando o problema decorrer exclusivamente do sistema de inteligência artificial, desde que o profissional tenha utilizado a ferramenta de maneira diligente, crítica e ética.
“O médico não poderá ser responsabilizado indevidamente por falhas que sejam atribuídas exclusivamente aos sistemas de IA. Para isso, porém, é crucial que o profissional comprove ter feito um uso diligente, crítico e ético da ferramenta”, afirmou.
Na prática, a utilização de um sistema automatizado não elimina a obrigação do profissional de analisar as informações apresentadas antes de incorporá-las à condução do atendimento.
Hospitais terão de adotar mecanismos de controle
As instituições de saúde que utilizam inteligência artificial também deverão estabelecer mecanismos para controlar e supervisionar essas ferramentas.
“É preciso ter governança, avaliação de risco, auditoria e monitoramento contínuo dos sistemas de IA, além da segurança e proteção de dados dos pacientes. Nas instituições que adotarem sistemas próprios de IA, deve existir uma comissão de IA e a telemedicina sob a coordenação médica”, disse Caroline.
A adoção dessas medidas busca acompanhar não apenas o desempenho das ferramentas, mas também possíveis riscos relacionados a erros, vieses e tratamento de informações sensíveis dos pacientes.
Paciente poderá recusar uso da inteligência artificial
Entre os pontos destacados pela especialista estão os direitos dos pacientes diante da utilização dessas tecnologias. Segundo Caroline, a pessoa deve ser informada de maneira compreensível quando a inteligência artificial fizer parte do atendimento.
“O paciente precisa saber de maneira clara, acessível e compreensível quando a inteligência artificial estiver sendo utilizada no seu atendimento. Ele mantém o direito à informação, à privacidade, à confidencialidade dos dados, à segunda opinião e pode, inclusive, manifestar recusa informada ao uso da IA. A tecnologia não pode substituir o médico na comunicação de diagnóstico, prognóstico ou decisão terapêutica”, explicou.
Dessa forma, mesmo com a utilização de ferramentas automatizadas durante o atendimento, a comunicação de informações sensíveis e de decisões relacionadas ao tratamento permanece sob responsabilidade do profissional.
Erros e vieses estão entre os principais riscos
Caroline aponta os erros e vieses algorítmicos, a adoção de decisões automatizadas sem análise crítica, a exposição de dados sensíveis e a perda da humanização da relação entre médico e paciente como alguns dos principais riscos relacionados à expansão da IA na saúde.
“A forma de prevenção é manter a supervisão humana, transparência, segurança dos dados e jamais permitir que a tecnologia substitua a escuta, a empatia e o julgamento clínico do médico”, afirmou.
A especialista lembrou que o Brasil já avançou na proteção de informações pessoais com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e, agora, estabelece parâmetros específicos para o uso da inteligência artificial na medicina por meio da resolução do CFM. O desafio, segundo ela, é acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas.
“Estamos diante de uma transformação tecnológica muito rápida. A legislação e o Direito precisam acompanhar esse processo para garantir que a inovação não aconteça às custas da segurança e dos direitos do paciente. O avanço da tecnologia é importante, e regulamentações como a do CFM são passos fundamentais para estabelecer limites e critérios claros”, afirmou.
Para Caroline, a discussão sobre inteligência artificial na medicina não deve ser reduzida a uma posição favorável ou contrária à tecnologia, mas concentrada na forma como essas ferramentas são incorporadas aos atendimentos.
“Não podemos tratar a inteligência artificial como vilã, porque ela pode trazer benefícios enormes para a medicina. O que precisamos é garantir que exista responsabilidade humana por trás das decisões, que as instituições tenham governança sobre o uso dessas ferramentas e que o paciente nunca seja colocado em segundo plano diante da tecnologia”, concluiu.
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