Apesar dos esforços da Prefeitura de Goiânia para chegar a um acordo com os servidores da Educação, a greve foi mantida nesta quinta-feira, 27, em meio a um cenário de crescente movimentação política para as eleições de 2026. A participação de parlamentares ligadas à área da Educação nos atos e nas negociações levantou questionamentos sobre uma possível influência eleitoral no movimento. As lideranças, porém, negam que a paralisação tenha relação com o calendário eleitoral e afirmam que as reivindicações são antigas e independem da disputa política.

Durante a manhã, os profissionais se reuniram em frente ao Paço Municipal para cobrar do prefeito Sandro Mabel o atendimento às reivindicações da categoria. Ao longo das negociações, o município apresentou uma proposta de reestruturação da carreira dos servidores administrativos da Educação, com impacto financeiro estimado em R$ 62,6 milhões até 2030.

A última proposta apresentada, em 21 de agosto, previa a elevação do piso do nível I para R$ 1.640, com implantação gradual de uma nova tabela de vencimentos até 2030. Também estavam previstos 1,2% de progressão horizontal e 7,42% de progressão vertical, além da antecipação da data-base dos servidores para janeiro de cada ano.

O pacote apresentado pela gestão municipal incluía ainda o pagamento, na folha de agosto, de R$ 950 referentes ao auxílio-locomoção de julho, além do abono integral dos dias paralisados, sem prejuízo à remuneração, férias, 13º salário, gratificações, benefícios, progressões e demais vantagens funcionais.

Outro ponto previsto era a garantia de que a participação dos servidores na greve não prejudicaria o cálculo ou o pagamento integral da gratificação de final de ano. A proposta também estabelecia a adesão facultativa ao novo modelo de carreira.

Segundo a Prefeitura, a implantação escalonada da nova tabela até 2030 é necessária para respeitar os limites estabelecidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal. A gestão municipal afirma que a proposta apresentada representa o limite financeiro viável neste momento, diante da capacidade orçamentária do município.

Mesmo com as propostas apresentadas, a última rodada de negociação terminou sem consenso. A Prefeitura avalia que houve avanços nas tratativas e que foram apresentadas alternativas para atender parte das reivindicações, enquanto o sindicato considera que pontos prioritários da pauta ainda não foram contemplados.

Com o impasse, a greve foi mantida e a categoria segue mobilizada. Prefeitura e representantes dos servidores devem avaliar os próximos passos do movimento ainda nesta sexta-feira (28).

Em nota enviada ao Jornal Opção, a Secretaria Municipal de Educação informou que a rede municipal permanece em funcionamento durante a greve dos servidores administrativos, com acompanhamento diário das unidades pelas Coordenadorias Regionais de Educação. Segundo a pasta, eventuais ajustes no atendimento são feitos de acordo com o número de servidores disponíveis em cada unidade.

A SME também afirmou que a Prefeitura foi oficialmente comunicada sobre a rejeição da última proposta, construída após sucessivas reuniões e mesas de negociação. Segundo a Secretaria, o pacote avançou em pontos reivindicados há mais de 15 anos, como aumento dos salários iniciais, reestruturação da carreira e ganho real de até 12,5% nos salários já em 2026.

Diante da rejeição, a Prefeitura informou que comunicará o Tribunal de Justiça e o Ministério Público sobre o desfecho das negociações e os limites legais e financeiros do município. A gestão afirma ainda que mantém aberto o diálogo institucional com os servidores e busca garantir a continuidade do atendimento aos estudantes e às famílias.

Histórico das reivindicações

A atual greve dos servidores administrativos da Educação não começou na gestão de Sandro Mabel. A categoria já vinha cobrando avanços na carreira e nas condições salariais durante a administração do ex-prefeito Rogério Cruz, período em que também foram registradas paralisações e negociações com o município.

Segundo a categoria, os servidores administrativos acumulam cerca de 15 anos sem uma reestruturação salarial capaz de corrigir as perdas da carreira. A pauta inclui ainda a criação de um plano de carreira, tema que vem sendo discutido por diferentes gestões, mas sem uma solução definitiva.

Na atual gestão, Mabel colocou uma proposta de reestruturação da carreira na mesa de negociação, com impacto estimado em R$ 62,6 milhões até 2030, incluindo aumento do piso, progressões e outros benefícios. A proposta, porém, foi rejeitada pelos servidores, e a greve foi mantida.

O histórico mostra que o movimento possui uma pauta anterior ao atual cenário eleitoral. Ao mesmo tempo, a proximidade das eleições de 2026 coloca a paralisação em um ambiente político mais sensível, principalmente pela atuação de parlamentares diretamente ligadas à Educação.

Participação de parlamentares amplia debate político

Entre as parlamentares que passaram a acompanhar os atos e as discussões estão Bia de Lima, Kátia Maria e a representante do Sintego, Ludmylla Morais. Bia e Kátia têm atuação política relacionada à Educação e estão inseridas nas movimentações que antecedem as eleições de 2026.

A participação delas nos atos e nas negociações não significa, por si só, que a greve tenha finalidade eleitoral. Parlamentares podem atuar na defesa de categorias profissionais e participar de negociações com o poder público. O ponto que passou a gerar debate é a intensidade dessa atuação e sua proximidade com um período de articulação política para o próximo pleito.

O questionamento ganha peso porque a disputa eleitoral de 2026 já começa a influenciar alianças e posicionamentos políticos em Goiás. Nesse contexto, movimentos com grande capacidade de mobilização, como uma greve na rede municipal de Educação, podem também adquirir relevância política.

A Prefeitura passou a questionar a atuação de parlamentares ligadas ao movimento. Do outro lado, as vereadoras rejeitam qualquer relação entre a paralisação e interesses eleitorais e sustentam que a mobilização é uma decisão dos próprios servidores.

Lideranças criticam proposta

A vereadora Kátia Maria afirma que a manutenção da greve ocorreu porque a proposta apresentada pela Prefeitura não atende às expectativas mínimas dos servidores. Segundo ela, o principal ponto de discordância está no prazo estabelecido pelo município para a implantação da nova tabela salarial.

“A categoria decidiu manter a greve na última assembleia porque a proposta do prefeito não atende a expectativa mínima da categoria”, afirmou.

Kátia também citou uma determinação judicial para que a Prefeitura apresentasse uma nova proposta e avaliou que a gestão municipal não teria apresentado mudanças suficientes. Segundo ela, a principal alteração foi a antecipação da data-base dos servidores administrativos da Educação para janeiro.

Para a vereadora, entretanto, a medida não deveria ser tratada como uma concessão da Prefeitura, uma vez que, segundo ela, janeiro já é o período previsto pela legislação.

“Se já está na legislação, isso não é termo de negociação, ele só tem que cumprir a legislação. Então, em tese, ele não ampliou a proposta”, afirmou.

Na avaliação de Kátia, o principal obstáculo para um acordo está no parcelamento da reestruturação até 2030. Ela considera que o prazo proposto pelo município reduz o ganho efetivo dos servidores e defende uma alternativa que permita a implantação dos reajustes em período menor.

“O que a categoria mais questiona, que é o ponto que seria mais essencial para avançar no possível acordo, é sobre o parcelamento. O prefeito quer parcelar isso até 2030, não tem cabimento”, disse.

Segundo a vereadora, caso a Prefeitura mantenha os percentuais apresentados, mas retire o parcelamento até 2030, existe possibilidade de a categoria avaliar uma saída para a greve.

“Se for isso que já está apresentado como proposta, mas sem o parcelamento, me dá a impressão que os administrativos abririam para aceitar. Um percentual pequeno, mas sem ser parcelado, possível de finalizar a greve”, afirmou.

Kátia também cobrou que o prefeito retome as negociações e apresente uma nova proposta que, na avaliação dela, corresponda ao que foi determinado judicialmente.

“O prefeito precisa retomar esse diálogo, porque tem uma determinação do desembargador para ele fazer uma nova proposta e a categoria não entende que essa nova proposta foi feita”, declarou.

A manifestação de Kátia reforça o argumento das lideranças de que a disputa atual está concentrada no conteúdo da proposta salarial e na forma de implantação dos benefícios. Ao mesmo tempo, a participação de agentes políticos no movimento mantém aberta a discussão sobre os possíveis reflexos eleitorais da greve.

Bia de Lima afirma que a greve não começou durante o período eleitoral. Segundo ela, a paralisação teve início ainda no primeiro semestre e foi suspensa justamente para permitir que Prefeitura e categoria avançassem nas negociações.

“Não tem relação alguma com o processo eleitoral”, afirmou.

Para Bia, a categoria aguardou novas propostas após a suspensão da greve e só retomou a mobilização depois de sucessivas tratativas sem avanço.

A parlamentar também afirmou que participa da comissão criada para discutir as reivindicações com o município e que atua nas negociações tanto com o prefeito quanto com os secretários. Segundo ela, a atuação ocorre também na condição de presidente da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa.

Bia afirmou ainda que pretende buscar apoio na esfera nacional para tentar sensibilizar a Prefeitura e defendeu a retomada das negociações.

Ludmylla Morais também rejeita a possibilidade de utilização eleitoral da greve. Ela afirma que acompanha as mobilizações da Educação há anos e cita paralisações ocorridas em anos anteriores para sustentar que a atuação junto à categoria não estaria condicionada ao calendário eleitoral.

Segundo Ludmylla, a decisão de manter a greve pertence aos próprios trabalhadores. Ela também afirmou que o sindicato levou as propostas apresentadas pela Prefeitura para avaliação da categoria antes das decisões.

A vereadora criticou ainda a decisão do município de retirar a proposta da mesa e afirmou que a categoria espera uma nova rodada de negociação.

Disputa política acompanha impasse trabalhista

O impasse, portanto, tem duas dimensões. A primeira é trabalhista e envolve uma reivindicação que se arrasta há anos, especialmente em relação à carreira e à remuneração dos servidores administrativos da Educação. A segunda é política, já que a paralisação ocorre em um momento de definição de alianças e posicionamentos para as eleições de 2026.

Não há, até o momento, elemento que comprove que a greve tenha sido organizada ou mantida por motivação eleitoral. As próprias lideranças políticas envolvidas negam essa relação. Por outro lado, a presença de agentes políticos no movimento e a proximidade do calendário eleitoral fazem com que a atuação parlamentar passe a ser também um componente da disputa política.

A Prefeitura sustenta que apresentou uma proposta com impacto financeiro significativo e que chegou ao limite permitido pela capacidade orçamentária do município. As lideranças dos servidores, por sua vez, afirmam que os avanços ainda são insuficientes e defendem a continuidade das negociações.

Assim, a questão sobre uma eventual motivação política permanece no campo do debate. O fato objetivo é que a greve possui origem em reivindicações antigas, mas ocorre simultaneamente a um período de intensa movimentação eleitoral. A forma como Prefeitura, sindicatos e parlamentares conduzirão o impasse nas próximas semanas poderá indicar se a disputa permanecerá concentrada nas questões trabalhistas ou se ganhará ainda mais espaço no cenário político de 2026.

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