O congelamento de óvulos deixou de ser apenas uma alternativa médica para mulheres com doenças e se transformou em uma ferramenta estratégica de planejamento reprodutivo. Cada vez mais associado a escolhas ligadas à carreira, estabilidade financeira e autonomia feminina, o procedimento vem ganhando espaço como aliado para quem deseja adiar a maternidade sem abrir mão da segurança sobre sua fertilidade.

Ao Jornal Opção, o ginecologista e especialista em reprodução humana, Diego Rezende, explicou, nesta segunda-feira, 27, como o congelamento de óvulos passou por uma mudança cultural e hoje é visto como parte do planejamento reprodutivo. “Antes era usado quando as pessoas tinham alguma doença, e agora já se trata de até uma espécie de planejamento”, disse.

“Hoje é uma demanda social. A paciente que avalia esse planejamento é aquela mulher que quer adiar a sua gravidez de uma forma mais segura e estratégica. Seja por um desejo de adiar a maternidade, por uma ascensão profissional anterior ao sonho de ser mãe, por uma estabilidade financeira ou até por um relacionamento mais estabilizado. Hoje a grande demanda do congelamento é a questão social”, explicou.

Ginecologista e especialista em reprodução humana, Diego Rezende | Foto: Acervo Pessoal

O médico afirmou que o aspecto financeiro pesa bastante. “É um tratamento feito de forma particular, não há cobertura dos planos de saúde. Existe um investimento financeiro individualizado porque depende de como vai ser o processo para cada paciente. Mas hoje, em média, a partir de R$ 10 a R$ 12 mil a paciente consegue fazer esse investimento para o congelamento. Depois ela paga só uma mensalidade para manter esse material congelado pelo tempo que for necessário”, apontou.

Segundo Diego, os óvulos ficam armazenados até que a mulher decida utilizá-los. “Esse material fica lá até ela resolver se vai precisar usar. Se ela tentar espontaneamente e tiver dificuldade, pode recorrer a esse material”, disse.

Sobre a idade ideal, afirmou que no cenário ideal, o congelamento deve ser pensado e realizado antes dos 35 anos. “Esse é o divisor de águas quando pensamos na quantidade e na qualidade de óvulos que a mulher produz. Não que seja impossível realizar após, porque muitas mulheres só conseguem se organizar financeiramente depois dessa idade. Mas quanto antes, melhor”, pontuou.

Para avaliar a reserva ovariana, ele explicou que são basicamente duas formas. “Uma é o ultrassom endovaginal, em que o médico conta quantos folículos a paciente tem. A outra é um exame de sangue chamado hormônio antimülleriano, que quantifica a reserva ovariana”, afirmou.

Ele também comentou sobre as diferenças entre óvulos frescos e congelados. “O óvulo fresco já está disponível para ser fertilizado e formar o embrião. No caso do congelado, usamos a técnica de vitrificação, que preserva a estrutura sem danificá-lo. Mas a literatura coloca que pode haver uma perda de até 10% no descongelamento. Os resultados são similares, mas no congelado existe essa possibilidade de perda”, disse.

Segundo Diego, congelar óvulos não é garantia de gestação. “O congelamento não garante o bebê em casa. Existem várias etapas depois desse óvulo até ter uma criança saudável. Tem que ter um espermatozoide bom, a gravidez tem que evoluir bem, o pré-natal, o parto. O óvulo é a matéria-prima fundamental, mas sozinho não resolve tudo”, explicou.

O especialista também abordou os impactos emocionais. “Normalmente são pacientes que se sentem muito cobradas pela sociedade ou pela própria paciente que se sente culpada por ainda não ser mãe. Muitas vezes priorizam a carreira ou a ascensão financeira. Essa cobrança não deve existir. O congelamento deve ser visto como uma grande estratégia, um aliado para manter projetos profissionais e pessoais e aliviar esse peso psicológico”, comentou.

O especialista lembrou que a mulher nasce com todos os seus óvulos. “Diferente do homem, que está sempre produzindo espermatozoides novos, a mulher não produz novos óvulos. Ela só vai perdendo quantidade e qualidade. Quando retiro e congelo, eles não envelhecem. Esse impacto sobre o planejamento cai realmente sobre prazos”, disse.

No Brasil, há ainda a possibilidade de doação de óvulos. “Existem mulheres que querem doar na clínica para ajudar outros casais, como um doador de sangue. E há a forma mais usual, que é a doadora compartilhada. Ela doa parte dos óvulos que produz naquele mês e em troca ganha um desconto para viabilizar o tratamento. Isso não impacta o futuro reprodutivo dela. Há cerca de quatro anos também foi permitida a doação entre familiares de até quarto grau. Não pode ter fins lucrativos comerciais”, apontou.

Diego também avaliou o impacto do congelamento de óvulos na autonomia das mulheres. “Eu acredito que sim, o congelamento de óvulos hoje, pensando do ponto de vista reprodutivo, é a grande ferramenta. Não é moda, não é uma tendência passageira. Ele tem sido um grande aliado para a mulher que quer adiar a sua gestação com mais tranquilidade”, disse.

“Nós não conseguimos hoje pensar num planejamento reprodutivo, de forma assertiva, sem considerar o congelamento de óvulos. A medicina entende que precisamos cada vez mais falar sobre isso porque é a única ferramenta cientificamente segura de preservar a fertilidade da mulher, ou pelo menos tentar fazer com que essa fertilidade seja preservada o máximo possível”, finalizou.

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