Hélio Torres

Especial para o Jornal Opção

Houve um tempo em que vestir a camisa de uma seleção nacional guardava um quê de rito sagrado. O hino nacional, as lágrimas no gramado e o sentimento de pertencimento a uma comunidade imaginada eram os combustíveis das Copas do Mundo.

Era uma época anterior à Lei Bosman, onde as seleções eram conhecidas e temidas por suas escolas moldadas em suas próprias fronteiras: a escola criativa brasileira, a defensiva italiana, a dinâmica inglesa, a disciplinada alemã ou a escola da garra argentina. Conhecia-se o estilo e a alma do jogador por sua nacionalidade, e este se orgulhava profundamente de a ela pertencer.

Esse tempo acabou. Sob o manto do multiculturalismo moderno, da globalização total e das regras cada vez mais flexíveis de cidadania, o futebol internacional passa por uma mutação irreversível. Aquelas identidades táticas e culturais evaporaram; hoje, as seleções deixaram de ser símbolos de orgulho nacional para se tornarem corporações de recrutamento. O futebol de seleções virou, fundamentalmente, futebol de clubes onde as federações disputam os talentos a golpe de talão de cheques.

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Olive fala alemão e joga pela França

O espelho mais nítido dessa nova era atende pelo nome de Michael Olise. O talentoso meia do Bayern de Munique carrega em seu passaporte uma árvore genealógica que confunde qualquer cartógrafo: mãe inglesa, pai nigeriano, avós argelinos.

Nascido e criado em Londres, Olise fez sua base em gigantes como Arsenal, Chelsea e Manchester City. No entanto, quando chegou o momento de decidir qual pavilhão defender no nível profissional, a escolha recaiu sobre a França — um país com o qual ele mantém uma ligação quase estritamente burocrática, a ponto de falar melhor alemão do que francês.

Por que a França? A resposta passa longe do lirismo e deságua no pragmatismo de mercado. A federação francesa hoje é a marca premium do futebol global. Escolher os “Bleus” não é um ato de patriotismo; é uma decisão de posicionamento de imagem.

Estar na seleção francesa garante visibilidade máxima, valorização de passe e uma aceleração financeira que nenhuma outra seleção europeia ou africana conseguiria oferecer ao jogador naquele momento. É o atleta escolhendo a “franquia” que melhor impulsionará suas ambições individuais.

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Protagonismo: o caso de Marrocos

Muitos tentaram ler a histórica campanha de Marrocos na Copa do Mundo de 2022 como o triunfo definitivo do orgulho da diáspora africana. Afinal, a esmagadora maioria daquele elenco nasceu fora do território marroquino, espalhada por nações como França, Holanda, Bélgica e Espanha. Contudo, uma análise mais fria revela que a engrenagem do gerenciamento de carreira operou ali com a mesma precisão.

Brahim Díaz jogador da seleção do Marrocos 1
Brahim Díaz nasce na Espanha mas joga pela seleção do Marrocos | Foto: Reprodução

Casos como os de Achraf Hakimi e, mais recentemente, Brahim Díaz — ambos nascidos e criados na Espanha — ilustram o “cálculo do espaço”. Diante de uma seleção espanhola engessada em seus próprios métodos e propensa a transformar craques em meras peças de reposição, os atletas pesaram as opções. Na Espanha, seriam coadjuvantes sob risco constante de descarte; em Marrocos, receberam a promessa de serem os pilares de um projeto de nação futebolística. Se soubessem que viajariam apenas para compor elenco, a decisão fatalmente teria sido outra.

Essa dinâmica de mercado não é nova, mas se sofisticou. No passado, os irmãos Boateng anteciparam o fenômeno: Jérôme, moldado para o topo do futebol europeu, seguiu o caminho da gigante Alemanha; Kevin-Prince, percebendo que o teto na seleção alemã seria o banco de reservas, abraçou a herança ganesa para garantir minutos e o status de estrela em uma Copa do Mundo. A pátria, portanto, tornou-se uma variável ajustável conforme o tempo de jogo estimado pelo estafe do atleta.

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A resistência (e a erosão) sul-americana

Nesse cenário de desapego geográfico, a América do Sul ainda teima em resistir como o último reduto do romantismo futebolístico, embora os sinais de desgaste já batam à porta. Na Argentina, o magnetismo da “era Messi” ainda funciona como um poderoso polo de atração cultural. Jovens como Alejandro Garnacho e Nico Paz, nascidos e criados na Espanha, optaram por defender a albiceleste. Há ali um componente de marketing, sem dúvida, inflado pelo atual status de campeã do mundo, mas sustentado por uma forte blindagem familiar que preserva o cordão umbilical com as origens dos pais.

Nico Paz jogador da seleção argentina 1
Nico Paz nasceu na Espanha mas joga pela seleção da Argentina | Foto: Reprodução

O Brasil, por outro lado, começa a ver as rachaduras desse sistema. Histórias como as dos filhos de Mazinho (Thiago escolhendo a Espanha; Rafinha, o Brasil) mostraram que a identidade hoje é fragmentada.

Recentemente, o filho do ex-lateral Marcelo optou pelas divisões de base da Espanha. À medida que os talentos brasileiros são exportados cada vez mais jovens — muitas vezes antes mesmo de estrearem no profissional em solo pátrio —, a conexão emocional com a Amarelinha se esvai.

Para o jogador hiperglobalizado, a Seleção Brasileira corre o risco de deixar de ser o ápice indiscutível da carreira e passar a ser vista apenas como um ambiente de cobrança tóxica.

Mazinho com os filhos Thiago e Rafinha foto Alcantara Foundation
Mazinho (centro) com os filhos Thiago e Rafinha | Foto: Reprodução

O caso do atacante Raphinha, hoje destaque do Barcelona, ilustra com perfeição esse pragmatismo da oportunidade. Em entrevista recente, o jogador admitiu que esteve a um triz de disputar e vencer a Eurocopa de 2020 pela seleção da Itália.

Sem espaço ou contato com a comissão técnica brasileira na época, Raphinha foi ativamente seduzido por um projeto esportivo italiano e só não vestiu a Azzurra porque a burocracia atrasou o envio de seu passaporte. Se hoje ele brilha com a Amarelinha, foi por um capricho do destino postal, e não por falta de disposição em defender outra bandeira.

Raphinha aceitaria o pragmatismo de mercado que levou atletas como Jorginho e Rafael Tolói — ignorados em seu país natal — a se naturalizarem para realizar o sonho profissional de disputar uma Copa do Mundo. No tabuleiro moderno, o sonho de jogar um Mundial tornou-se maior do que o orgulho de defender o próprio país de nascimento.

Raphinha jogador da seleção brasileira 2
Raphinha: jogador do Barcelona e da seleção brasileira | Foto: Reprodução

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O fim da competitividade orgânica

Para acomodar essa nova realidade, a própria Fifa capitulou. As flexibilizações recentes nas regras de transição de seleções — permitindo que atletas com dupla nacionalidade mudem de país mesmo após defenderem uma seleção principal em partidas oficiais na juventude — transformaram o futebol internacional em uma eterna janela de transferências aberta.

O ápice desse processo gerou cenas que beiram o bizarro. Em 2013, o atacante Diego Costa entrou em campo pela Seleção Brasileira sob o comando de Luiz Felipe Scolari em amistosos oficiais. Pouquíssimos meses depois, em um movimento puramente estratégico capitaneado por Vicente del Bosque, o sergipano naturalizado espanhol desembarcava no Brasil para disputar a Copa de 2014 como o camisa 9 titular da Espanha.

Diego Costa brasileiro que jogou pela seleção da Espanha
Diego Costa: brasileiro que jogou pela seleção da Espanha | Foto: Reprodução

Ver um atleta vestir o uniforme de uma potência e, quase sem intervalo para o luto ou para a adaptação, liderar o ataque de outra em um Mundial foi o choque de realidade definitivo. O recado estava dado: seleções agora disputavam atletas no mercado como se fossem clubes em fim de contrato.

O propósito original dos torneios de nações, fundamentado no choque de escolas formativas e na representação genuína de uma cultura local, desmorona a olhos vistos. O que assistimos hoje em uma Eurocopa ou em uma Copa do Mundo não é o confronto entre diferentes ecossistemas de futebol. É, sim, uma Superliga de Clubes disfarçada de torneios de bandeiras, onde as federações mais ricas, estruturadas e influentes funcionam como o Real Madrid ou o Manchester City do mercado internacional de atletas.

As seleções não são mais o altar onde se joga por amor à camisa. Tornaram-se o segundo emprego do jogador moderno; uma vitrine estratégica de exibição de luxo para valorizar o verdadeiro ganha-pão, que continua sendo o futebol de clubes. O torcedor, munido de sua paixão cega e anacrônica, segue cantando o hino na arquibancada. No campo, porém, os atletas apenas executam mais um plano de negócios de suas vitoriosas carreiras corporativas.

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Feita a regra, feita a oportunidade

É preciso, contudo, evitar a armadilha do julgamento moralista. Diante desse cenário, o leitor desatento pode ser tentado a transformar o jogador no vilão da história, rotulando-o como “mercenário”. Trata-se de um erro de perspectiva. O atleta moderno não é o criador desse ecossistema; é apenas um profissional maximizando suas oportunidades dentro de um jogo que não inventou. Cobrar um romantismo anacrônico de jovens que convivem com carreiras curtas, lesões e pressões brutais é ignorar a realidade.

O verdadeiro protagonista dessa transformação é o sistema. Foram as federações, a Fifa, os contratos bilionários de televisão e a mercantilização crescente que alteraram a natureza das competições. Ao flexibilizar as regras, o próprio futebol institucional substituiu a lógica da representação nacional pela da eficiência esportiva. O futebol, afinal, apenas reproduz o mundo moderno: uma época em que o talento circula globalmente, empresas disputam profissionais em qualquer continente e a nacionalidade, para quem está no topo, deixou de ser um destino para tornar-se uma possibilidade de carreira.

Talvez seja justamente isso que provoque tanto desconforto. Não significa que as Copas do Mundo tenham perdido sua capacidade de emocionar, mas mudou a natureza dessa emoção. O torcedor continua cantando o hino na arquibancada, crente de que assiste à celebração de uma identidade cultural. No gramado, porém, os protagonistas estão tomando decisões compatíveis com qualquer mercado globalizado. É hora de abandonar a narrativa romântica. No século XX, as seleções moldavam jogadores para os clubes; no século XXI, a lógica se inverteu.

Estamos nos aproximando do dia em que o torcedor precisará se acostumar a assistir a um brasileiro naturalizado entoando com convicção o hino italiano, ou a um londrino cantando La Marseillaise como se tivesse nascido às margens do Sena. No caso de Diego Costa, entretanto, a adaptação foi bem menos trabalhosa: para defender a Espanha em 2014, bastava ao sergipano fechar os olhos durante a execução do hino — afinal, desde 1978, a Marcha Real não possui letra.

Hélio Torres, professor, é colaborador do Jornal Opção.