A missão realizada pelo Conselho Nacional dos Direitos Humanos em Goiás entre os dias 23 e 25 de fevereiro de 2026 colocou o Estado no centro do debate nacional sobre discurso de ódio, extremismo e neonazismo. O relatório final da visita, divulgado nesta semana, conclui que Goiás ainda apresenta fragilidades institucionais para enfrentar o problema, especialmente no que diz respeito à prevenção, acolhimento de vítimas, produção de dados e integração entre órgãos públicos.

A presença do Conselho em Goiás integra uma série de missões iniciadas em 2023, após a criação da relatoria especial dedicada ao tema. Antes de Goiás, a comitiva esteve em Santa Catarina, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Porto Alegre.

Origem do monitoramento nacional

O avanço desse debate institucional no Brasil tem relação direta com os estudos da antropóloga Adriana Dias, uma das maiores especialistas do país no monitoramento de grupos neonazistas. Ao longo de mais de duas décadas de pesquisa, Adriana mapeou células extremistas em território nacional e identificou a expansão dessas organizações para além do Sul e Sudeste.

Em levantamentos anteriores, a pesquisadora já havia apontado a presença de células neonazistas em Goiás, inserindo o Estado no radar nacional sobre extremismo de direita e discurso de ódio.

Goiás e o foco em intolerância religiosa

Segundo o relatório, a manifestação mais evidente observada durante a missão em Goiás foi a intolerância dirigida a povos de terreiro e religiões de matriz africana. Durante as agendas presenciais, lideranças relataram agressões físicas, invasões de espaços religiosos, destruição de objetos sagrados, ameaças e constrangimentos institucionais.

O documento aponta que esse cenário revela a persistência do racismo religioso e a ausência de políticas públicas estruturadas de proteção e reconhecimento.

A missão reuniu representantes das áreas de segurança pública, sistema de justiça, educação e assistência social. O relatório registra a existência de ações pontuais e estruturas genéricas, mas destaca a ausência de mecanismos específicos para identificar e enfrentar discurso de ódio, extremismo e neonazismo.

Na educação, por exemplo, parte dos casos acaba absorvida por canais voltados ao bullying. Já nos sistemas de segurança e justiça, a falta de padronização de dados e fluxos integrados dificulta o monitoramento e a responsabilização.

Um dos momentos centrais da missão foi a audiência pública realizada na Câmara Municipal de Goiânia, espaço destinado à escuta de denúncias e manifestações da sociedade civil. O relatório registra apoio logístico e articulação local do vereador Fabrício Rosa (PT) para viabilizar agendas institucionais e a própria audiência pública.

Recomendações

Entre as principais recomendações do Conselho para Goiás estão:

  • criação de Política Estadual de Enfrentamento ao Discurso de Ódio;
  • gabinete interinstitucional permanente;
  • qualificação de dados oficiais;
  • capacitação de agentes públicos;
  • fortalecimento do Conselho Estadual de Direitos Humanos;
  • proteção a grupos vulneráveis;
  • campanhas educativas e ações de promoção da diversidade.

O Jornal Opção entrevistou o relator especial da missão, Carlos Nicodemos, a coordenadora da Ouvidoria Especial de Combate a Crimes Raciais e de Intolerância da Câmara de Goiânia, Nádia Garcia, e o vereador Fabrício Rosa, que articulou parte da agenda local.

Segundo Carlos Nicodemos, que integra o MNDH-Movimento Nacional de Direitos Humanos, desde 2023 o Conselho realiza missões em estados brasileiros para mapear o fenômeno. Antes de Goiás, já houve agendas em Santa Catarina, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Porto Alegre.

“O Estado que se visita, na verdade, se faz essa atividade de controle externo, entendendo que se trata de um problema nacional”, afirmou.

No caso goiano, o relator diz que a missão encontrou um cenário preocupante. “Ficou muito evidenciado no Estado de Goiás o fomento e baixo controle das situações extremistas de ódio.”

Para ele, o ambiente local combina violência concreta, permissividade institucional e ausência de ferramentas específicas. “Isso chamou muito a atenção. Chamou a atenção grupos que estão constantemente atacados, como as religiões de matriz africana, como a comunidade LGBTQIA+.”

Carlos Nicodemos, relator especial do CNDH e membro do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) | Foto: Reprodução

Em Goiás, o ódio saiu da internet e foi para as ruas

Um dos trechos mais duros da entrevista de Carlos Nicodemos diz respeito à forma como a violência se manifesta no Estado.

Chama atenção por isso. Porque, ao contrário de outros estados, em que existe uma prevalência nas redes, nas mídias e na internet, Goiás, o ódio ganha as ruas.

Ele prossegue: “Ganha a rua onde pessoas que professam o credo de religiões de matriz africana são atacadas. Casas são atacadas.”

O próprio relatório registra relatos de agressões físicas, invasões de terreiros, destruição de objetos sagrados, ameaças e constrangimentos institucionais contra povos de terreiro.

Falta política pública… e coragem política

O vereador Fabrício Rosa foi um dos articuladores locais da missão e faz diagnóstico semelhante. Para ele, Goiás ainda se recusa a enfrentar o tema com seriedade.

“Goiás ainda é muito carente de políticas públicas relacionadas ao enfrentamento ao discurso de ódio e ao neonazismo.”

Segundo o parlamentar, o Estado não dispõe de política mínima sobre o tema.

“Não existe nenhum tipo de política estadual de enfrentamento ao discurso de ódio. Uma política que tenha conselho com participação da sociedade, panfletos, outdoors, estratégia de comunicação com o povo, formação de agentes públicos, de policiais, de juízes, de professores.”

E arremata: “O que a gente tem visto é o contrário disso. É um Estado acanhado que não tem coragem de assumir a pauta.”

Uma delegacia para 246 municípios

Um dos principais pontos do relatório é a insuficiência da rede institucional. Goiás conta com a Delegacia Estadual de Atendimento à Vítima de Crimes Raciais e de Intolerância (DEACRI), mas ela centraliza demandas de todo o Estado.

Fabrício Rosa resume o problema: “É apenas uma delegacia para o Estado inteiro.”

Nádia Garcia, que acompanha denúncias diariamente na Ouvidoria da Câmara, confirma o gargalo.

“É muito triste no Estado inteiro só ter uma delegacia para isso. As coisas não andam com a velocidade que poderiam andar se a gente tivesse mais espaços como esse.”

Segundo ela, muitos casos se arrastam por falta de estrutura e dificuldade probatória.

“São casos em que as provas são mais difíceis de serem conseguidas.”

Coordenadora da Ouvidoria Especial de Combate a Crimes Raciais e de Intolerância da Câmara de Goiânia, Nádia Garcia | Foto: Arquivo

Ela cita ataques a terreiros, LGBTfobia e violência contra pessoas trans como exemplos de ocorrências complexas e demoradas.

Câmara virou porta de entrada para vítimas

Criada recentemente, a Ouvidoria Especial da Câmara Municipal de Goiânia tornou-se referência informal até para moradores do interior.

Essa é a primeira iniciativa, a gente não tem outra no Estado, nem na Assembleia Legislativa

Segundo Nádia Garcia, mesmo sendo um órgão municipal, chegam denúncias de várias regiões de Goiás.

“A gente recebe denúncias do Estado inteiro, por ser a única que tem esse caráter.”

Ela relata casos vindos do Norte Goiano, região da Bahia e áreas próximas à Chapada.

“É muito triste ver o quanto o Estado está sedento por uma justiça nesse sentido e não tem instrumentos pra isso.”

As denúncias à Ouvidoria da Câmara podem ser feitas pelo whatsapp 62 9507-4487.

Educação antes da punição

Embora defenda ampliação da rede de proteção, Nádia sustenta que repressão sozinha não resolve.

“Eu acho que o mais urgente nesse momento não são nem as ações imediatas, mas os processos de conscientização da população.”

Para ela, multiplicar delegacias sem educação social produziria apenas aumento de demanda.

“Nós podemos fazer 500 delegacias como a DEACRI no Estado que, se a gente não conscientizar a população de que o racismo é crime, de que a LGBTfobia é crime, tudo isso não vai adiantar.”

Redes sociais sem controle

O avanço do extremismo digital apareceu nas três entrevistas. Fabrício Rosa cobra regulação das plataformas.

“Nós precisaríamos ter uma internet que fosse mais preparada para lidar com os casos de vulnerabilidade.”

Segundo ele, a ausência de regras interessa politicamente a setores da extrema direita.

“Eles instrumentalizam eleitoralmente o ódio.”

Carlos Nicodemos vai na mesma linha.

“No Estado de Direito, ninguém pode tudo. A internet é uma dimensão da sociedade.”

E conclui: “A regulamentação é uma necessidade.”

Conselhos esvaziados e baixa institucionalidade

Outro ponto sensível citado pelos entrevistados e pelo relatório é o enfraquecimento de conselhos e espaços participativos.

Carlos Nicodemos afirma que Goiás sofre com “baixa institucionalidade” e falta de investimento em órgãos de controle social.

Ao comentar o Conselho Estadual de Direitos Humanos, ele frisa. “Você vai ver uma enorme fragilidade institucional no funcionamento, na composição, deixando para a militância de dois ou três integrantes a condução de uma instituição que deveria estar de pé.”

Fabrício Rosa faz crítica semelhante. “Os conselhos têm sido espaços apenas de indicação política eleitoral.”

Fabricio Rosa, vereador por Goiânia | Foto: Reprodução

Goiás expõe falha nacional

Para Carlos Nicodemos, o relatório de Goiás revela uma deficiência mais ampla do país. “Lamentavelmente, o Brasil não conta com uma política nacional de enfrentamento ao discurso de ódio, ao extremismo e ao neonazismo”, afirmou ao Jornal Opção.

Segundo ele, o arcabouço legal também está defasado. “Hoje o neonazismo é um parágrafo único na lei de crimes raciais. Nada mais.”

O conselheiro defende atualização legislativa e coordenação federativa. “Fica a encargo dos estados, cada um fazer do seu lugar. Não há uma articulação nacional.”

Relatório cobra medidas urgentes

Entre as recomendações feitas pelo CNDH estão: criação de Política Estadual de Enfrentamento ao Discurso de Ódio, gabinete interinstitucional permanente, ampliação da rede de atendimento, capacitação de agentes públicos, campanhas educativas e fortalecimento dos conselhos de direitos.

Carlos Nicodemos resume o espírito do documento. “É sair de um conceito genérico de enfrentamento do problema para criar ferramentas específicas.”

A missão nacional não veio a Goiás por acaso. Segundo Fabrício Rosa, o Estado acumula histórico problemático em direitos humanos e casos recorrentes de violência contra vulneráveis.

“Goiás é um território da vergonha quando se fala de direitos humanos.”

O relatório do CNDH, somado às entrevistas concedidas ao Jornal Opção, mostra que o problema já foi diagnosticado. O que falta agora é decisão política para enfrentá-lo.

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