Grupos neonazistas são identificados em municípios de Goiás

Seis células de caráter supremacista e homofóbico foram detectadas por pesquisadora na capital e em outros dois municípios do Estado

O austríaco Adolf Hitler, figura que promoveu um dos maiores assassinatos em massa de que se tem notícia, o Holocausto, morreu há mais de 70 anos, ao final da Segunda Guerra Mundial, mas deixou semeada nos anos seguintes a semente da intolerância. O Nationalsozialismus, ou simplesmente nazismo, ideologia difundida por ele baseada na crença da supremacia racial e antissemitismo (aversão a judeus), ganhou adeptos ao redor do mundo e deu origem à, inclusive, versões mais “modernas” da original.

O movimento neonazista,´filho biológico’ do nazismo de Hitler, nasceu na Europa logo após a Segunda Guerra e se espalhou pelo globo de forma espantosa, exercendo influência direta e fundamentando diferentes e variados grupos que pregam ódio a judeus, homossexuais, negros, ciganos e deficientes físicos.

Entretanto, engana-se quem acredita que tais movimentos integram uma realidade distante e exótica, restrita às metrópoles estrangeiras. A árvore do neonazismo cresceu a ponto de espalhar suas raízes por capitais brasileiras e até pequenos municípios, atraindo indivíduos de diferentes idades e classes sociais com um ponto em comum: o ódio pelas minorias.

Num estudo divulgado recentemente, ao qual o Jornal Opção teve acesso e cujos dados ainda serão publicados em um livro, Adriana Dias, doutora em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) conseguiu rastrear e contabilizar um impressionante número de 334 células neonazistas ativas atualmente no Brasil.

Realizando etnografia virtual, a antropóloga localizou diversos grupos e fóruns neonazistas na internet, infiltrando-se e conversando com membros atuantes em diferentes regiões do país. Conforme o levantamento feito pela pesquisadora, o maior número dessas células, que são compostas por grupos de até 40 pessoas, está no estado de São Paulo, com 99 (28 apenas na capital). Logo abaixo está Santa Catarina, com 69 células neonazistas ativas.

Mas um ponto do estudo que atraiu sua atenção, segundo a própria, foi o exponencial aumento de grupos neonazistas no Centro-Oeste. De acordo com Adriana, existem, hoje, seis células neonazistas atuantes no estado de Goiás.

A antropóloga da Unicamp informou que executou um levantamento do mesmo tipo nos anos de 2005, 2007 e 2013, mas essa é a primeira vez que Goiás aparece de forma tão intensa em uma de suas pesquisas. “As células haviam começado a se dirigir para o Centro-Oeste [nos estudos anteriores], mas foi a primeira vez que elas apareceram extremamente fortes”, disse, em tom surpreso.

“É triste, porque Goiânia teve muitos pracinhas que lutaram contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial, é bem triste ver isso acontecer”, lamenta ela diante dos resultados de seu trabalho.

Supremacistas, anticomunistas xenófobos e admiradores da extrema-direita ucraniana: quem são e onde estão as células neonazistas em Goiás

Conforme apontado no estudo de Adriana Dias, que traz dados divulgados com exclusividade pelo Jornal Opção, Goiás possui quatro células com fundamentação Hitlerista/neonazista, subdividas em grupos fundamentados em variadas ideologias de extrema-direita; uma célula com base em movimentos extremistas norte-americanos de combate ao movimento comunista e uma, a maior, inspirada numa organização paramilitar da Ucrânia com traços de neonazismo e neofascismo, totalizando seis.

Adriana revelou que, para realizar o levantamento das informações, se infiltrou nos recônditos da internet onde encontrou fóruns de discussões e grupos virtuais de adeptos dessa ideologia. Na dark web, parte da deep web (zona da internet de difícil acesso onde há existência de variados tipos de conteúdos raros ou ilegais) onde se escondem as tribos e pensamentos que muitos duvidam até da existência, Adriana identificou e conversou com alguns membros de células neonazistas ativas hoje em várias regiões brasileiras, incluindo Goiás.

Tais grupos, de acordo com a antropóloga, costumam se reunir para planejar e praticar três tipos de atividades: atividades de rua, como pichações e brigas contra grupos rivais; ativismo online e propaganda, que inclui produção de sites, blogs, colagem de cartazes, e também reuniões que podem ser em concertos musicais a treinamentos paramilitares.

As células estão espalhadas em três proeminentes cidades goianas:

Azov e RAC – Goiânia

Bandeira do Batalhão de Azov, organização paramilitar ucraniana que inspirou célula neonazista de Goiânia

De acordo com a antropóloga, a célula neonazista Azov é a maior de todas as localizadas em Goiás e está ativa na capital de estado.

A Azov é inspirada na organização paramilitar Batalhão de Azov, da Ucrânia. O movimento original traz em sua bandeira o símbolo da Schutztaffel (algo como “Esquadrão de proteção”, em português), que era a guarda pessoal de Adolf Hitler durante a Alemanha Nazista, representada por dois Ss (SS) em formato de raio.

A Azov, em Goiás, tem traços neonazistas de limpeza étnica e perseguição a homossexuais. Conforme Adriana, o movimento chegou ao estado vindo da Ucrânia e Inglaterra. Na capital, onde a célula é majoritária, a ideologia do Batalhão de Azov está presente em academias de luta, onde alguns dos membros, ligados à essa vertente de extrema-direita, organizam lutas e competições entre si.

Já o movimento musical Rock Against Communism (RAC), ou em português Rock Anticomunismo, muito difundido pelo grupo de supremacia branca Hammerskin, nascido no Texas, EUA, é outra célula neonazista presente em Goiânia, conforme constatado pela antropóloga.

Apesar do nome, o movimento tem como foco, além do ataque ao comunismo, a propagação através de música do White Power (ou “poder branco”), slogan usado por supremacistas que consideram a etnia negra inferior e a branca como sendo objeto de orgulho.

Crew 38, National Alliance, National Vanguard e Partido Nazi Americano (Hitleristas) – Luziânia e Pirenópolis

Os municípios de Luziânia e Pirenópolis, ambos no Entorno do Distrito Federal, abrigam atualmente quatro células de caráter Hitlerista/neonazista, aponta a etnografia virtual realizada por Adriana.

A pesquisadora detectou grupos inspirados nos movimentos neonazistas norte-americanos Crew 38, “torcida organizada” do Hammerskin; Partido Nazi Americano, baseado na ideologia política de Adolf Hitler; National Alliance, organização separatista branca, e National Vanguard, movimento supremacista branco cujo líder, Kevin Alfred, foi preso por portar pornografia infantil, em 2007.

Punks vs Neonazis: a eterna guerra física e ideológica

Jonas (nome fictício) integra o movimento anarquista e fez parte de um grupo de punks de Goiânia por mais de uma década. Por essência de seu posicionamento ideológico, conflitos com grupos neonazistas da capital eram uma realidade.

“A gente já teve confronto direto com eles [neonazis], já houve episódios de porrada, e eu era um dos que eles mais visavam. Eles achavam que eu era um dos líderes dos anarcopunks”, conta.

Jonas, que é adepto do anarquismo, teoria social e política que prega a subversão e afrontamento de hierarquias e autoridades estabelecidas, relata que, devido à convivência com movimentos políticos e ideológicos, pôde traçar um perfil dos neonazistas na capital.

Ele revela que o movimento neonazi está presente em diversos espaços: nas ruas, bares e até em torcidas organizadas de times de futebol. De acordo com Jonas, no ano de 2006 membros ligados a grupos de extrema-direita e ativos em uma determinada torcida organizada de Goiás tiveram contato com o movimento hooligans, que chegava de São Paulo.

O movimento, com origem na Inglaterra, prega o uso de violência e vandalismo como forma de legitimação de identidade dentro de variados esportes.

Para o professor da UFG David Maciel, a influência de movimentos neonazistas saiu fortalecida da crise econômica global de 2008 | Foto: Reprodução YT

Professor doutor em História explica
crescimento de grupos neonazistas

Movimentos de intolerância e autoritarismo foram incorporados dentro da própria ordem democrática da maioria dos países. É o que diz o doutor em História e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), David Maciel.

Segundo o professor, nos anos 1990 houve um retorno de mobilizações espontâneas de grupos neonazistas que atraíam jovens desempregados e desalentados com situação econômica do país, com teorias de revisionismo históricos e negacionismo.

Com a crise histórica da década seguinte, conforme Maciel, um fortalecimento do neonazismo foi notado. “Depois da crise de 2008, principalmente, há uma retomada desses movimentos, eles têm se fortalecido em diversos países e se constituído não só como movimentos, mas como partidos políticos de massa, com viabilidade eleitoral”, explica.

O professor diz também que o avanço das tecnologias tem tornado a mão de obra humana cada vez mais descartável, e isso acaba por gerar uma situação de forte instabilidade psicológica que, segundo ele, favorece uma visão irracionalista do mundo por parte de indivíduos.

Como denunciar crimes de ódio e apologia ao neonazismo

De acordo com o site Safernet.org.br, o “neonazismo é crime contra os Direitos Humanos” e “consiste na intolerância com base na ideologia nazista de superioridade e pureza de determinada raça com recursos de agressão, humilhação e discriminação”. Ainda conforme a plataforma, “no caso específico do neonazismo, está incluído quem fabrica, comercializa, distribui ou veicula símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda com símbolos (como a cruz suástica) e defesa do pensamento nazista”.

O Safernet informa que atua para coibir este tipo de utilização da web através do Helpline, para pedidos de ajuda e o Hotline, para denúncia.

Já fora do mundo virtual, a vítima de um crime de ódio está resguardada pela lei, devendo fazer a denúncia contra o agressor em uma Delegacia de Polícia. O crime de racismo está tipificado na Lei 7.716 e no art. 5º, inciso XLII, da Constituição Federal de 1988 como crime inafiançável. Já a homofobia, após votação dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em junho deste ano, também foi enquadrada como crime, passando a ser punida dentro da mesma lei que criminaliza o preconceito racial.

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