Santo Agostinho: o vício mais bem-sucedido é aquele que se disfarça como virtude
04 julho 2026 às 21h00

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Ana Kelly Souto
De Portugal para o Jornal Opção
Abecedário de Agostinho de Hipona: Z de Zelus
Na nossa época, esse vício chega com jeito de ponderado, com um encolher de ombros e ar de maturidade: “cada um passa pelo que tem que passar”, “todos nós sofremos”. Chama-se tibieza — e é um dos desvios mais perigosos porque não se apresenta como fraqueza, mas como compreensão e sabedoria. Agostinho, veterano das aventuras e desventuras da alma humana, conhecia bem esse território. A pessoa movida pela tibieza não se perde por excesso, mas por ausência, nunca ardeu o suficiente para deixar marca. É quem prometeu e não apareceu, ficou na plateia quando o palco exigia atuação, cumpre o bem sem o entusiasmo do amor. O Apocalipse é implacável com essas pessoas, Porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca (Ap 3,16). Jesus foi igualmente indigesto, Vós sois o sal da terra. Se o sal perder o sabor, com que será salgado? Aurélio Agostinho foi temperado com esse sal desde o nascimento, “me temperaram com seu sal já ao sair do ventre” (Confissões I, 11, 17). O sal fez efeito, a tibieza é um pecado que Agostinho nunca teve. Ardeu em tudo, antes e depois da conversão, o que mudou foi apenas a direção.
O oposto da tibieza é o zelo. Nas Enarrationes in Psalmos, o filósofo distingue entre o bom e o mau zelo (En. Ps. 136, 7). O zelus amarus nasce do orgulho e da ira, descobre um erro, expõe, humilha em nome da verdade, usa a causa como escudo para a própria vaidade — é o que hoje chamamos cancelamento, que ao destruir a pessoa em nome da justiça, destrói também o princípio que dizia defender. O zelus bonus vê o mesmo erro, mas procura corrigir sem destruir, brota da misericórdia e do amor a Deus e ao próximo. A diferença não está na intensidade mas no modo, são dois fogos com a mesma aparência exterior e destinos opostos.
O exemplo mais comovente de zelus bonus não é o do próprio Agostinho mas o de Mônica, sua mãe. Anos de oração insistente por um filho que fugia e debochava. Um bispo, cansado das suas súplicas, disse-lhe: “Vai, não é possível que o filho de tantas lágrimas se perca.” O bom zelo é isso: ardor que não cede porque o amor que o sustenta é maior do que o cansaço. Persiste sem virar amargura, e começa sempre como memória de um bem que a vida foi cobrindo de camadas até ficar irreconhecível.
O feed infinito produz o avesso do bom zelo, indignação performática, energia gasta em alguns emojis ofensivos, sem compromisso real. Tibieza com temperatura alta, parece quente, mas não queima nada. O algoritmo descobriu que a indignação prende mais do que a alegria e construiu um mundo onde se passa o dia inteiro a reagir indignado, sem ter decidido nada nem custado nada a ninguém.

No final da vida, já velho e doente, sitiado pelos vândalos que cercavam Hipona, o bispo ainda ditava textos e corrigia erros. Pediu que pregassem nas paredes do quarto os salmos penitenciais para conseguir lê-los da cama. O fogo não se apagou, o zelo pelo conhecimento e por Deus não conheceu a desistência, mesmo diante da guerra. Esse é o sinal do zelo verdadeiro, a constância amorosa que não se ressente.
Para Santo Agostinho, zelo e beleza são inseparáveis. Uma cidade cuidada, uma liturgia digna, um gesto delicado revelam uma alma responsável pelo mundo. Roger Scruton atualiza essa intuição no livro Beleza (2009), argumentando que a beleza não é um luxo mas uma necessidade da condição humana, e que ignorá-la significa condenar-nos a um “deserto espiritual”. O juízo estético carrega peso moral, quando dizemos que algo deveria ser bonito, não estamos fazendo apenas uma afirmação de gosto, mas um juízo sobre o que somos e o que deveríamos ser. Uma cultura que perde o senso da beleza perde junto o senso de responsabilidade pelo que nutre a vida verdadeiramente humana. Onde reina a indiferença tudo se torna paisagem funcional e consumível. A beleza, ao contrário, desperta novamente o zelus pelo humano e pelo que o transcende.
No meu livro Filosofia no Câncer, falo dessa experiência do zelo. Quando recebi o diagnóstico, muitas pessoas chegaram com as famigeradas frases — “força, guerreira”, “vai vencer essa luta” — como se o câncer fosse uma guerra e eu precisasse de um discurso de general. Outros sumiram e depois pediram desculpa dizendo que não sabiam o que falar. Diante do que não se sabe dizer, o zelo não espera a palavra certa, faz alguma coisa. Pode ser a prescrição de Cora Coralina, “remove pedras, planta roseiras e faz doces.”
O filme “A Festa de Babette” (1987) mostra o zelo com uma clareza que poucos argumentos filosóficos conseguem. Babette não prepara apenas um jantar, oferece tempo, memória e talento. A refeição se converte em ato capaz de reconciliar pessoas endurecidas pelos ressentimentos acumulados ao longo da vida, cada prato comunica algo que as palavras não alcançavam. Quando lhe dizem que gastou todo o seu dinheiro, Babette responde com uma das frases mais agostinianas do cinema: “Um artista nunca é pobre.” Foi no ato de repartir que sua riqueza apareceu plenamente, apenas quem pode doar, possui verdadeiramente.
No livro “Sobre a Vida Feliz”, escrito em 386 durante o retiro de Cassicíaco, Agostinho celebra o aniversário de 32 anos cercado pela mãe Mônica, pelo filho Adeodato e por alguns pupilos. Enquanto conversam sobre a felicidade, a filosofia senta-se à mesa. Agostinho recorre à imagem de um banquete e menciona os ingredientes de um bolo que muito provavelmente saíram das mãos de Mônica. A partir deles, constrói uma metáfora da vida feliz como alimento preparado com medida, simplicidade e sabedoria. É sugestivo que, em latim, saber e sabor sejam quase a mesma palavra. Dessa cena de amizade, em que filosofia e cozinha se encontram, nasceu a tradição do Bolo da Felicidade.
O zelo em Agostinho é cuidado que se move em direção ao outro e não se contenta com palavras. Por isso este abecedário, não sabendo o que mais dizer, encerra com farinha nas mãos.
Bolo da Felicidade de Santo Agostinho: 300g de farinha de espelta (ou farinha de trigo integral), 200g de mel puro, 150g de amêndoas moídas ou laminadas, 3 ovos, 80ml de azeite, 1 colher de chá de fermento em pó, raspas de um limão e uma pitada de sal. A massa, densa e homogênea, vai em forma untada ao forno preaquecido a 180°C por 35 a 45 minutos, até dourar levemente. Deixe esfriar completamente antes de servir.
Mãos na massa! Faça o bolo, leve para alguém que está precisando de zelo, tire aquela foto linda e marque @pensamentosouto. O Papa Leão XIV, filho espiritual de Santo Agostinho, já entrou para a lista dos que provaram o famoso Bolo da Felicidade. Quem sabe não esteja aí uma receita contra a tibieza? Chegamos ao Z, mas a busca continua. Obrigado por ter caminhado conosco ao longo destas letras.
Ana Kelly Souto é doutora em Ciências da Religião e em Filosofia, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.



