O ontem de Santo Agostinho não era um lugar longínquo; estava vivo e habitava o presente
27 junho 2026 às 21h00

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Ana Kelly Souto
De Portugal para o Jornal Opção
Abecedário de Agostinho de Hipona: Y de Yesterday
Agostinho de Hipona escreveu em latim, idioma que não possuía o Y como letra própria — este, quando utilizado, vinha emprestado do grego. Por isso, para este abecedário, peço emprestado ao tempo o Y que a língua lhe negou, “Yesterday”. O dia que deixou de existir e, no entanto, continua existindo dentro de nós.
Contam que Paul McCartney concebeu a melodia num sonho, acordou com ela na cabeça, correu ao piano para executá-la e verificar se não a tinha ouvido antes. Depois escreveu a letra numa viagem de carro entre Lisboa e o Algarve, em 1965. A música tornou-se um hino do século XX à suavidade e à nostalgia de um passado idílico, “Yesterday, all my troubles seemed so far away… Oh, I believe in Yesterday” (https://www.youtube.com/watch?v=wXTJBr9tt8Q).

No mesmo período, nos anos 60, no Rio Grande do Sul, Erico Verissimo escreveu “O Tempo e o Vento”. Nessa história, o passado se apresenta como uma força que regressa violentamente, sempre com o mesmo rosto. Os homens da família Cambará nascem para a guerra e morrem jovens, as mulheres nascem para esperar e chorar. Com o vento, o passado volta sempre como fatalidade.
O ontem começou com a criação
Agostinho escutaria as duas histórias com compaixão, mas, como bom retórico e excelente filósofo, procuraria compreender o que cada uma delas chama de passado. Duas obras, duas formas de vê-lo, uma tem saudades, a outra assombra-se.
O passado para Agostinho difere do ontem doce e distante do sonho de McCartney e também do épico e cíclico das planícies gaúchas. O ontem que o impelia eram os prazeres desordenados vivenciados na juventude, o filho tido fora do casamento e a sua morte prematura, os anos vivendo e desfrutando das facilidades junto com os maniqueus, enfim, as paixões onde ele era ator entusiasmado da própria perdição. Seu ontem não era um lugar longínquo, estava vivo e habitava o presente.

A questão do tempo há tempos incomoda. Agostinho recorda a resposta habitual que se dava a quem perguntava o que Deus fazia antes de criar o céu e a terra: “Preparava o inferno para os que investigam coisas tão profundas” (Confissões, XI, 12). É uma piada espirituosa, mas filosoficamente inadequada. Agostinho procura respondê-la seriamente. Não faz sentido perguntar o que Deus fazia “antes” da criação, porque o próprio tempo foi criado por Deus. Não existia um “antes” — o tempo começou com a criação.
Mas a dificuldade continua, “Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; se quero explicá-lo a quem me pergunta, já não sei”. A resposta é que o passado, enquanto passado, já não existe. O futuro, enquanto futuro, ainda não existe. O presente não tem duração, é apenas o ponto fugidio entre o que foi e o que ainda não é. Como então vivemos dentro do tempo?
A resposta do pensador de Hipona sustenta que o tempo não existe fora da alma, apenas dentro dela. O que chamamos passado é o presente da memória, o que chamamos futuro é o presente da expectativa e o que chamamos presente é o breve interim da atenção. Três modos de um único ato interior, a alma distendida entre o que recorda, o que espera e o que vive. A memória, a expectativa e a atenção são os instrumentos com que medimos o tempo. Como conclui, “É em ti, ó meu espírito, que eu meço os tempos” (Confissões, XI, 27). Nessa perspectiva, o pensamento agostiniano sobre o tempo pode nos fazer refletir sobre as duas obras.

Regresso ao lugar perdido
“Yesterday” trata o passado como um lugar perdido a que se deseja regressar. Mas se o tempo existe na alma, o passado nunca saiu. Está aqui, agora, na memória que o recorda.
O ontem de McCartney não é um sonho distante, é uma presença ativa que continua a moldar o presente. A saudade é uma forma de habitação, e o que habita a memória as vezes são prazeres desordenados que escravizaram. Então o presente inteiro fica contaminado por esse ontem que nunca deixou de existir.
Nascida de um sonho idílico, “Yesterday” traz em sua origem a marca daquilo que canta. Quando o passado é olhado de longe, ele tende a apagar o que foi ruim. Torna-se fácil exaltá-lo, porque foi vivido e não exige nenhuma ação no presente. Pode-se dourá-lo e deleitar-se numa lembrança paradisíaca, ou enevoá-lo e transformá-lo em motivo de eterna tristeza.
Em ambos os casos, o ontem funciona como amnésia dissociativa, anestesia a responsabilidade e suspende a vida. O “antigamente era melhor”, na maioria das vezes, é um engano da memória seletiva, que guarda as luzes e enterra as sombras. O passado nunca foi um paraíso, tinha, como o presente, os seus próprios conflitos e exigências.

Espaço presente: mortos continuam a falar
“O Tempo e o Vento” compreende o passado de outra forma. O casarão dos Cambará guarda, para a família, uma função semelhante à da memória em Agostinho, um espaço presente onde os mortos continuam a falar, a ditar casamentos, guerras e vinganças. Bibiana Terra, ao lembrar-se do Capitão Rodrigo, não está a olhar para trás — está a viver Rodrigo no agora.
O tempo de Erico Verissimo também é interior, é distensão da alma, porém não a distensão de um homem que se confessa. É uma distensão coletiva, que perpassa gerações, a alma dilatada de um povo que carrega as memórias da família há séculos.
No cenário de Verissimo, o ontem coloniza o hoje através da herança de sangue — e as personagens resistem, cuidam, plantam, sobrevivem, sem redenção mística.
Ana Terra enterra os seus mortos e continua a semear. A memória concede elementos que dão sustentação, mas não promove a libertação, o vento volta sempre trazendo o peso do passado.

Prorrogação com a vontade divina
Para Agostinho, o sofrimento que o ontem pode trazer está ligado ao modo como o passado coloniza o hoje através do hábito. Mudar um hábito é uma das tarefas mais difíceis da vida. Podemos compreender racionalmente o que deve ser feito e, ainda assim, permanecer presos ao que já sabemos ser prejudicial. A razão ilumina o caminho, mas nem sempre consegue mover a vontade.
O próprio Agostinho conheceu esse impasse, chegou a implorar, “Senhor, dá-me castidade e continência… mas não agora” (“Confissões”, VIII, 7). Esse “não agora” não é apenas uma frouxidão de caráter. É o hábito negociando prorrogação com a vontade dividida. O pecado raramente se apresenta como recusa definitiva, prefere pedir mais um dia. Enquanto não for assumido e confessado, continua a governar.
Agostinho, bispo vivendo em continência quando escreve as Confissões (X, 30, 41,42), relata que ainda era perturbado por imagens e fantasias sexuais durante o sono, “Nas imagens que me assaltam durante o sono, não apenas sinto prazer, mas chego a consentir nelas e a praticar aquilo que, desperto, certamente rejeitaria.” O filósofo da Antiguidade tardia, antecipa estudos sobre o conteúdo dos sonhos que só seriam investigados muitos séculos depois. Os sonhos são, de certo modo, essa via de acesso aos conteúdos guardados na memória.
Vamos às diferenças, em “Yesterday”, o passado é nostalgia que diz “eu queria voltar”. Em “O Tempo e o Vento”, o passado é resistência que diz “eu continuo apesar de tudo”. Em Agostinho, a confissão diz “eu preciso de ver”. São três respostas ao mesmo peso do passado, mas apenas a terceira recusa tanto a idealização quanto a resignação.
Problema não veio de fora, nasceu dentro
Há ainda um paradoxo que o texto de McCartney carrega. Lançada em 1965, no auge da contracultura que proclamava o presente como único tempo legítimo, Yesterday tornou-se a canção mais gravada da história da música popular. A geração que queria romper com o passado produziu o maior hino da saudade, ao tentar habitar apenas o agora, acabou cantando a saudade do ontem.
“Yesterday” é bela porque é honesta naquilo que trai, a ilusão de que é possível viver apenas no presente. McCartney sonhou a melodia, e o sonho entregou-lhe o passado. Num sentido agostiniano, isso não seria acidental. Mesmo adormecida, a memória continua a trabalhar aquilo que a vigília consciente recusa.
Num entendimento agostiniano, o passado, a memória, não desaparece por decreto geracional ou revolucionário. A saudade, difícil de nomear fora da língua portuguesa, continua a viver como ferida que não cicatriza porque nunca foi verdadeiramente aberta para receber curativos.
A nostalgia de “Yesterday” é uma forma de “não agora”, é o desejo de regressar a um tempo anterior ao problema, como se ele tivesse chegado de fora. Em chave agostiniana, o diagnóstico é invertido, o problema não veio de fora, nasceu dentro. E o ontem não era inocente, era o próprio prenúncio do cativeiro. A nostalgia pede “eu queria voltar” e a confissão diz “eu preciso de ver.
O ontem perde o poder de nos perseguir quando deixa de ser refúgio e é confessado. A confissão, tema da letra C deste abecedário, é o caminho que nos permite, afinal, respirar. “Inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Vós” (“Confissões”, I, 1).
Ana Kelly Souto é doutora em Ciências da Religião e em Filosofia, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.



