Irany Wolney Aires: entre a memória e a poesia – uma voz do Cerrado na tradição da literatura goiano-tocantinense
06 julho 2026 às 17h00

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Por: Ana Cristina Di Oliveira
A literatura brasileira sempre encontrou na memória uma de suas fontes mais fecundas. Recordar nunca significou apenas rememorar fatos, mas resgatar mundos ameaçados pelo esquecimento. Em cada geração, surgiram escritores que compreenderam o valor civilizatório da experiência vivida e souberam transformar a própria trajetória em patrimônio coletivo. É nessa tradição que se insere a obra de Irany Wolney Aires. Seus livros Regressando ao Passado e Meus Versos & Canções, embora distintos em gênero, dialogam como partes de um mesmo projeto: preservar a memória afetiva, histórica, genealógica e espiritual do antigo norte de Goiás, hoje Tocantins.
À primeira vista, sua escrita parece simples. Mas essa simplicidade é apenas aparente. Sob a linguagem direta, há uma arquitetura cuidadosa da lembrança. Irany não escreve para exibir erudição nem para experimentar formas; escreve para conservar. Seu compromisso é com a permanência da experiência humana, e é essa fidelidade à vida que dá autenticidade à sua literatura.
Regressando ao Passado ultrapassa os limites da autobiografia. O livro se torna um amplo painel da sociedade dianopolina ao longo do século XX. Ao narrar infância, juventude, casamento, maternidade e vida familiar, a autora recompõe também a história social de uma região. Sua narrativa registra escolas, igrejas, festas religiosas, fazendas, costumes, práticas educativas, relações de parentesco, transformações urbanas e modos de vida que dificilmente sobreviveriam apenas nos documentos oficiais. Ao recordar a fundação do Colégio João d’Abreu, a atuação do Dr. João Rodrigues Leal, o papel do padre João Magalhães e as mudanças culturais de Dianópolis, Irany mostra como a memória individual pode se tornar fonte privilegiada da história regional.
Nesse sentido, sua obra se aproxima da grande tradição memorialística brasileira, inaugurada por Pedro Nava. Assim como Nava transformou lembranças familiares em documento da formação cultural de Minas Gerais, Irany faz da memória doméstica um instrumento de preservação da identidade do sudeste tocantinense. As diferenças de escala e estilo são evidentes: Nava constrói longas páginas barrocas, enquanto Irany prefere a clareza e a espontaneidade. Ainda assim, ambos partem da mesma convicção: a história de um povo também se escreve na mesa de jantar, nas conversas familiares e nas pequenas alegrias e tragédias do cotidiano.
Um dos aspectos mais originais de Regressando ao Passado é a valorização da genealogia. A autora não trata a reconstrução das linhagens como curiosidade familiar, mas como exercício de identidade. Ao recuperar a origem do sobrenome Wolney, registrar a trajetória de Francisco Constantino e recompor sucessivas gerações da família, ela mostra que cada nome preservado é um elo da memória coletiva. A família deixa de ser apenas núcleo privado e passa a integrar a própria formação histórica da região. Em tempos de enfraquecimento das tradições familiares, esse gesto ganha especial relevância cultural.
A memória, nesse livro, também cumpre uma função ética. Recordar é um ato de gratidão. Ao mencionar pais, irmãos, irmãs, sobrinhos, filhos, agregados, professores, sacerdotes, amigos e vizinhos, Irany restitui dignidade histórica a personagens que raramente aparecem nos grandes livros de História. Sua escrita democratiza a memória e afirma que toda existência merece ser preservada quando ajuda a construir uma comunidade.
A autora revela ainda grande sensibilidade ao narrar as dificuldades de sua formação. O desejo frustrado de estudar, a impossibilidade inicial de ingressar no recém-inaugurado Colégio João d’Abreu, a aprendizagem da costura como instrumento de emancipação econômica e o esforço para construir a própria família aparecem sem ressentimento, mas com serena consciência de superação. Assim, a narrativa transforma experiências particulares em testemunho da condição feminina no interior brasileiro durante a primeira metade do século XX.
Se Regressando ao Passado representa a memória em sua dimensão histórica, Meus Versos & Canções mostra a mesma sensibilidade transfigurada em poesia. Os dois livros pertencem ao mesmo universo espiritual. O que na autobiografia surge como lembrança, na poesia se converte em símbolo. Natureza, religiosidade, família, amor e esperança atravessam a coletânea como temas de uma mesma visão de mundo.
A crítica costuma distinguir a poesia construída pela inteligência daquela que nasce da experiência. Irany pertence claramente à segunda tradição. Seus poemas não buscam surpreender pela inovação formal; procuram comunicar emoção. A natureza ocupa lugar central. O Cerrado, as flores, os rios, os pássaros e as estações deixam de ser simples paisagem para assumir sentido espiritual. Em “A Natureza em Festa”, talvez seu poema mais emblemático, a criação inteira se transforma numa liturgia da vida. O canto das aves e o murmúrio das águas passam a expressar a própria linguagem da criação.
A força desse poema ultrapassou o campo literário quando recebeu melodia original da cantora, compositora e intérprete Mônica Póvoa, cuja gravação em CD e DVD ampliou o alcance da composição. A musicalização não apenas divulgou a obra, mas revelou uma característica essencial da escrita de Irany: sua poesia tem ritmo, cadência e sonoridade que naturalmente dialogam com a música.
Nesse ponto, Irany se aproxima de Cora Coralina. Ambas escrevem a partir do interior do Brasil e transformam o cotidiano em matéria de alta dignidade literária. Assim como Cora fez dos becos da antiga Vila Boa um patrimônio universal da poesia brasileira, Irany faz das ruas, fazendas e paisagens de Dianópolis um território de memória. Em ambas, a grandeza literária nasce da fidelidade às próprias raízes.
Há também afinidade com Casimiro de Abreu. Como o autor de Meus Oito Anos, Irany cultiva a saudade não como fuga do presente, mas como reencontro afetivo com a infância e com os valores familiares. A diferença está na maturidade de sua perspectiva. Enquanto Casimiro idealiza a infância perdida, Irany contempla o passado com serenidade, reconhecendo nele alegrias, dificuldades e limites.
Sua exaltação da natureza recorda ainda a delicadeza lírica de Cecília Meireles. Ambas encontram transcendência nas pequenas manifestações do mundo natural. Mas, enquanto Cecília frequentemente se volta ao mistério metafísico da existência, Irany ancora sua contemplação na tradição cristã e na religiosidade popular do interior brasileiro. Suas flores, rios e pássaros apontam continuamente para a presença do Criador.
Também há ecos de Auta de Souza na delicadeza com que trata a espiritualidade, sobretudo nos poemas marianos e nas composições de inspiração religiosa. A fé nunca aparece como discurso doutrinário; surge como modo natural de compreender o mundo.
Talvez a aproximação mais fecunda seja, porém, com a própria Cora Coralina. Ambas escreveram tardiamente, permaneceram ligadas à terra natal e entenderam que a literatura não precisa se afastar da experiência cotidiana para alcançar universalidade. A força de suas obras está justamente na fidelidade às raízes.
Outro traço importante é a interlocução constante entre poesia e música. Irany Wolney Aires não se limita a escrever versos; compõe melodias, cultiva a modinha, o bolero e a serenata, e mostra que a palavra poética se completa quando encontra a voz. Sua produção se inscreve, assim, na antiga tradição luso-brasileira em que canto e poesia eram expressões inseparáveis da cultura popular.
Do ponto de vista da historiografia cultural, os dois livros têm valor documental inestimável. Um preserva a memória escrita; o outro, a memória sensível. Juntos, formam um arquivo afetivo da história de Dianópolis e do sudeste tocantinense. Se os documentos oficiais registram datas, leis e acontecimentos, Irany registra o que muitas vezes lhes escapa: sentimentos, vínculos familiares, gestos cotidianos, festas religiosas, educação dos filhos, aprendizado da costura, canto dos pássaros, perfume das flores e espiritualidade vivida no interior das casas.
Em um tempo marcado pela aceleração da vida, pela fragmentação das relações humanas e pelo enfraquecimento das tradições, a obra de Irany Wolney Aires ganha atualidade inesperada. Ela lembra que uma comunidade só preserva sua identidade quando conserva a memória de seus antepassados, de seus costumes e de sua cultura. Sua literatura cumpre, assim, uma dupla tarefa: testemunha a experiência individual e, ao mesmo tempo, integra o patrimônio da memória coletiva.
Por isso, sua contribuição ultrapassa o âmbito regional. Embora profundamente enraizada em Dianópolis e no antigo norte de Goiás, sua escrita alcança dimensão universal. Afinal, toda grande literatura nasce da capacidade de revelar, no destino particular de uma família ou de uma pequena cidade, as grandes questões da condição humana: o tempo, a memória, a esperança, o amor, a fé, a perda e a permanência.
Ao final da leitura de Regressando ao Passado e Meus Versos & Canções, compreende-se que Irany Wolney Aires pertence à linhagem dos escritores que fizeram da palavra um instrumento de preservação da vida. Sua obra mostra que recordar é resistir ao esquecimento, que escrever é prolongar a existência de quem nos antecedeu e que a poesia continua sendo uma das formas mais altas pelas quais um povo reconhece a própria alma.



