Entre o documento e a ficção: memória, historiografia e a exposição Vida e Obra de Abílio Wolney Aires Neto
10 julho 2026 às 19h05

COMPARTILHAR
Abilio Wolney Aires Neto
A memória constitui uma das mais elevadas expressões da experiência humana, porque representa o elo entre as gerações, a consciência histórica de um povo e a possibilidade permanente de compreender o presente a partir das marcas deixadas pelo passado. Nenhuma sociedade constrói plenamente sua identidade sem revisitar criticamente sua trajetória, sem confrontar documentos, narrativas e interpretações, e sem reconhecer que a história não é apenas o registro dos acontecimentos, mas também o processo intelectual pelo qual esses acontecimentos ganham significado.
É nesse espaço de encontro entre lembrança, documento e interpretação que atuam as grandes instituições culturais. Institutos históricos, academias de letras, universidades e centros de pesquisa não são apenas depositários de arquivos e livros; são lugares onde a memória coletiva se transforma em conhecimento. Neles, a literatura dialoga com a historiografia, a tradição oral encontra os documentos oficiais e o passado deixa de ser uma realidade estática para tornar-se objeto permanente de reflexão.
Foi sob esse horizonte que o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás promoveu a exposição Vida e Obra de Abílio Wolney Aires Neto, acompanhada da conferência “O Tronco e o coronelismo oligárquico na Primeira República: uma perspectiva historiográfica”, realizada em 19 de junho de 2026. O evento ultrapassou o caráter de uma homenagem pessoal e assumiu a dimensão de uma importante manifestação cultural, reunindo intelectuais, escritores, magistrados, professores, pesquisadores, estudantes e representantes de instituições históricas e literárias de Goiás.
A realização da exposição ocorreu em um momento de especial valorização das atividades culturais do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, sob a presidência do historiador e acadêmico Jales Guedes Coelho Mendonça, tendo como vice-presidente o escritor e pesquisador Nilson Jaime. Ambos também integram a Academia Goiana de Letras, aproximando duas instituições fundamentais para a preservação da memória e da produção intelectual do Estado.
A gestão de Jales Guedes Coelho Mendonça tem sido reconhecida pelo dinamismo administrativo e pela ampliação das atividades culturais do IHGG, fortalecendo a presença da instituição como centro permanente de pesquisa, debate e divulgação da história goiana. Ao seu lado, Nilson Jaime tem contribuído de forma decisiva para a organização dos eventos acadêmicos e culturais, consolidando uma programação que aproxima o Instituto da sociedade, dos estudantes e da comunidade intelectual.
A abertura oficial da exposição foi realizada pelo presidente Jales Guedes Coelho Mendonça, que destacou a relevância de homenagear um autor cuja produção histórica, jurídica e literária já integra o patrimônio cultural de Goiás. Após esse primeiro momento, a mesa dos trabalhos foi conduzida pelo vice-presidente Nilson Jaime, responsável pela direção da conferência proferida por Abílio Wolney Aires Neto.
O encontro contou com expressiva participação pública. Aproximadamente cem pessoas estiveram presentes durante a abertura da exposição, percorrendo o espaço cultural especialmente preparado pelo Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Cerca de setenta participantes permaneceram posteriormente no auditório para acompanhar a palestra, demonstrando o interesse despertado pelo tema e transformando a solenidade em um verdadeiro encontro de reflexão historiográfica.
A exposição Vida e Obra de Abílio Wolney Aires Neto permaneceu aberta à visitação pública durante aproximadamente dois meses, possibilitando o acesso de estudantes, pesquisadores, professores, intelectuais e visitantes ao conjunto documental reunido para a ocasião. Fotografias históricas, manuscritos, documentos, registros da carreira jurídica, homenagens acadêmicas e exemplares de sua produção intelectual compuseram um amplo painel de uma trajetória dedicada ao Direito, à História, à Literatura e à cultura goiana.
No hall de entrada do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás ocorreu igualmente um dos momentos mais significativos da programação: o relançamento das principais obras historiográficas de Abílio Wolney Aires Neto. Embora muitos desses livros já contassem décadas de publicação e tivessem alcançado sucessivas edições, retornaram ao público em novas tiragens, reafirmando sua atualidade e importância para os estudos sobre a história política do antigo norte goiano.
Foram apresentados O Diário de Abílio Wolney, No Tribunal da História, A Chacina Oficial, O Barulho e os Mártires e O Duro e a Intervenção Federal – Relatório ao Ministério da Guerra, obras que representam um amplo esforço de reconstrução documental sobre os acontecimentos de São José do Duro, atual Dianópolis, no Estado do Tocantins.
Durante a mesma ocasião também foi apresentada a obra História de Dianópolis, de autoria do escritor Voltaire Wolney Aires, membro da Academia Tocantinense de Letras. O livro constitui uma das mais abrangentes pesquisas dedicadas à formação histórica de São José do Duro, reunindo documentação sobre a evolução social, política, econômica e cultural da antiga povoação.
A obra de Voltaire Wolney Aires dedica especial atenção ao episódio do Tronco, examinando-o dentro do processo histórico de formação de Dianópolis e dialogando com as pesquisas desenvolvidas por Abílio Wolney Aires Neto. Sua presença no evento ampliou o alcance historiográfico da exposição, demonstrando que o estudo daquele período ultrapassa a memória familiar e integra um campo mais amplo de investigação sobre a história política do antigo norte de Goiás.
O interesse despertado pelo relançamento editorial foi significativo. Todos os exemplares disponibilizados durante o evento foram adquiridos pelo público, revelando que essas obras permanecem vivas no debate cultural e historiográfico. Mais do que um resultado editorial, esse acontecimento demonstrou a existência de uma demanda permanente por pesquisas que revisitem criticamente episódios fundamentais da formação política regional.
O conjunto dessas obras representa o resultado de mais de duas décadas de investigação documental, construída a partir do exame de processos judiciais, relatórios oficiais, documentos militares, correspondências administrativas, registros cartoriais e fontes históricas diversas. Seu objeto principal é o conflito ocorrido em São José do Duro, episódio que ultrapassou os limites regionais para ingressar definitivamente na literatura brasileira por meio do romance O Tronco, de Bernardo Élis.
A obra bernardiana tornou-se uma das grandes expressões do regionalismo literário brasileiro do século XX. Ao transformar o drama de São José do Duro em narrativa ficcional, Bernardo Élis conferiu dimensão universal a um conflito localizado no sertão goiano, revelando tensões humanas, políticas e sociais que ultrapassavam o próprio espaço histórico retratado.
Entretanto, a permanência de um acontecimento na literatura não encerra sua investigação histórica. Ao contrário, frequentemente desperta novas perguntas e conduz pesquisadores à busca de documentos capazes de ampliar sua compreensão. Foi justamente nesse espaço entre literatura e historiografia que se desenvolveu a pesquisa de Abílio Wolney Aires Neto.
Sua obra não procura substituir a literatura pela história, nem diminuir a importância estética de O Tronco. O objetivo é outro: confrontar a narrativa literária com as fontes documentais disponíveis, permitindo uma compreensão mais ampla de um episódio que permanece como uma das páginas mais complexas da história política de Goiás.
A conferência apresentada no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás demonstrou que literatura e historiografia possuem caminhos diferentes, porém complementares. A literatura trabalha com a criação simbólica, a representação humana e a força estética da narrativa; a historiografia trabalha com documentos, fontes, análise crítica e reconstrução dos acontecimentos.
Foi justamente essa perspectiva que orientou a reflexão sobre o chamado Caso do Duro, mostrando que entre o documento e a ficção existe um espaço de diálogo permanente, onde diferentes formas de conhecimento podem contribuir para revelar a complexidade do passado.
A investigação historiográfica desenvolvida por Abílio Wolney Aires Neto parte precisamente dessa necessidade de ampliar o campo interpretativo sobre os acontecimentos de São José do Duro. Ao retornar aos documentos oficiais, aos processos judiciais, aos relatórios administrativos e militares, às correspondências e aos registros produzidos no período, o autor procura demonstrar que a compreensão histórica do episódio exige uma análise mais ampla do contexto político, econômico e institucional da Primeira República em Goiás.
Nesse sentido, a figura histórica de Abílio Wolney não pode ser reduzida exclusivamente à representação literária construída em torno do coronelismo sertanejo. A documentação apresentada pelo pesquisador revela uma personalidade política de grande projeção no cenário goiano das primeiras décadas do século XX: advogado provisionado, parlamentar, liderança política regional com três mandatos de deputado estadual, presidente do antigo Congresso Estadual de Goiás e personagem de reconhecida influência nos debates políticos de seu tempo.
Sua trajetória alcançou dimensão nacional quando foi eleito deputado federal em 1900, embora posteriormente tenha sido depurado pelos chefes políticos dominantes de Goiás, em um contexto marcado pelas disputas oligárquicas próprias da Primeira República. O próprio Bernardo Élis, ao abordar historicamente o personagem, registra sua importância política e menciona que Abílio Wolney chegou a ser apontado, em 1911, como possível nome para a sucessão governamental de Goiás, demonstrando a posição de destaque que ocupava no cenário estadual.
A análise histórica do Caso do Duro exige, portanto, compreender que o conflito não se limitou ao confronto armado posteriormente imortalizado pela literatura. Ele esteve inserido em uma conjuntura de profundas disputas políticas, eleitorais, econômicas e fundiárias, em que diferentes grupos buscavam controlar espaços de poder dentro da estrutura oligárquica vigente.
Segundo a interpretação historiográfica defendida por Abílio Wolney Aires Neto em suas obras, especialmente em A Chacina Oficial, O Barulho e os Mártires e O Duro e a Intervenção Federal – Relatório ao Ministério da Guerra, a chamada Campanha de São José do Duro, iniciada em 1919, apresentou também uma dimensão patrimonial relacionada à apropriação dos bens pertencentes aos adversários políticos.
Na leitura documental apresentada pelo autor, o episódio teria sido marcado por uma verdadeira campanha de perseguição e espoliação contra os bens da família Wolney e seus aliados, envolvendo a tomada dos rebanhos existentes na região. Segundo essa pesquisa, as ações desencadeadas pelas forças vinculadas ao governo estadual, sob o comando do capitão Antônio César de Siqueira, teriam resultado, ao longo do período compreendido entre 1919 e 1926, na retirada de aproximadamente dezesseis mil cabeças de gado pertencentes aos rebanhos de São José do Duro.
Essa dimensão econômica e patrimonial do conflito, segundo a perspectiva defendida pelo pesquisador, permaneceu praticamente fora do espaço narrativo da ficção de Bernardo Élis. A grandeza literária de O Tronco está justamente em sua capacidade de transformar o drama humano e político do sertão em uma obra universal; entretanto, a literatura bernardiana concentrou-se sobretudo na violência do conflito, nos personagens e na tragédia humana, enquanto a investigação historiográfica amplia o olhar para incluir também as estruturas econômicas, administrativas e políticas que envolveram o episódio.
Dessa forma, a pesquisa documental não pretende substituir a criação literária, mas acrescentar novas camadas de compreensão. A ficção preserva a dimensão simbólica e humana do acontecimento; a historiografia procura reconstruir os mecanismos concretos que produziram o conflito. Ambas, quando analisadas com rigor, contribuem para uma visão mais profunda do passado.
Entre os documentos de maior relevância examinados por Abílio Wolney Aires Neto encontra-se o Relatório da Intervenção Federal encaminhado ao Ministério da Guerra, documento fundamental para compreender a gravidade da crise política vivida em Goiás naquele período. A análise desse relatório permite observar como o próprio Estado reconheceu a dimensão do conflito e a necessidade de intervenção diante da instabilidade política instalada.
A pesquisa também trouxe ao debate aspectos pouco explorados pela memória tradicional do episódio. A chamada Chacina dos Nove, denominação consagrada pela morte de nove homens mantidos presos no chamado “tronco”, representa apenas uma parte da complexidade dos acontecimentos. A documentação apresentada pelo autor destacou igualmente a existência de aproximadamente setenta e duas mulheres e crianças mantidas presas em um casarão situado em frente ao sobrado principal, revelando a dimensão social e humana da tragédia.
Segundo os documentos analisados, essas pessoas teriam permanecido em situação de extrema vulnerabilidade, havendo inclusive o risco de uma execução coletiva, circunstância que teria sido evitada com a chegada de Abílio Wolney e seus homens. A recuperação desse episódio demonstra a importância da pesquisa histórica baseada em fontes primárias, capaz de revelar dimensões que permaneceram ocultas ou pouco exploradas ao longo do tempo.
O caso do Duro, portanto, não pode ser compreendido apenas como um conflito entre grupos armados. Ele representa uma síntese das tensões políticas da Primeira República brasileira: o poder das oligarquias estaduais, as disputas pelo controle territorial, a fragilidade institucional, a violência como instrumento político e a dificuldade de consolidação de mecanismos efetivos de justiça.
Essa perspectiva amplia a compreensão sobre a própria história de Goiás. O conflito de São José do Duro tornou-se um símbolo porque concentra questões fundamentais da formação política brasileira: a relação entre poder público e interesses privados, os limites da autoridade estatal, a violência nos processos de disputa política e a permanente necessidade de preservação da memória como instrumento de reflexão crítica.
A trajetória intelectual de Abílio Wolney Aires Neto insere-se exatamente nesse movimento de reconstrução da memória. Juiz de Direito, professor, escritor, pesquisador e acadêmico, ele construiu uma obra marcada pela interdisciplinaridade, transitando entre o Direito, a História, a Literatura, a Filosofia e a reflexão cultural.
Sua formação jurídica e sua atuação na magistratura conferiram-lhe uma perspectiva singular sobre documentos, processos e instituições. Ao mesmo tempo, sua formação humanística permitiu transformar uma pesquisa histórica específica em reflexão mais ampla sobre justiça, memória, poder e identidade regional.
Na carreira jurídica, destacou-se como magistrado produtivo e comprometido com a prestação jurisdicional, tendo recebido reconhecimentos institucionais por sua atuação no Tribunal de Justiça do Estado de Goiás. Paralelamente, desenvolveu uma extensa produção intelectual, alcançando dezoito títulos publicados entre obras impressas e digitais.
Sua produção literária e histórica levou-o a integrar importantes instituições culturais, entre elas a Academia Goiana de Letras, onde ocupa a cadeira número 9; o Instituto Histórico e Geográfico de Goiás; a União Brasileira de Escritores; o Instituto Cultural e Educacional Bernardo Élis para os Povos do Cerrado; a Academia Goianiense de Letras; além de academias e institutos históricos de Goiás e do Tocantins.
Sua obra também revela uma dimensão poética e memorialística, especialmente em Poemas da 9.ª Hora, publicado juntamente com seu discurso de posse acadêmica, demonstrando que sua relação com a palavra não se limita à pesquisa histórica ou ao universo jurídico. Há em sua produção uma permanente busca pela compreensão do homem, do tempo e da memória.
Essa sensibilidade literária possui profundas raízes familiares. Abílio Wolney Aires Neto é filho da escritora e poetisa Irany Wolney Aires, autora de Regressando ao Passado e Meus Versos & Canções, obras que representam importante contribuição à memória cultural de Dianópolis e do antigo norte goiano.
A literatura de Irany Wolney Aires transforma a experiência familiar em patrimônio coletivo. Ao registrar costumes, tradições, relações humanas, religiosidade, paisagens e acontecimentos cotidianos, sua obra preserva uma dimensão da história que frequentemente não aparece nos documentos oficiais: a história vivida pelas pessoas comuns.
Há, portanto, uma continuidade cultural entre mãe e filho. Enquanto Irany preserva a memória afetiva e social de uma comunidade, Abílio Wolney Aires Neto investiga documentalmente os grandes conflitos políticos que marcaram essa mesma região. Ambos realizam, por caminhos diferentes, uma mesma missão: impedir que o tempo apague a história de um povo.
A exposição Vida e Obra de Abílio Wolney Aires Neto, promovida pelo Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, revelou justamente essa dimensão mais ampla de sua trajetória. Não se tratou apenas de uma homenagem a um autor, mas da celebração de uma vida dedicada ao conhecimento, à Justiça, à cultura e à preservação da memória.
Ao reunir documentos, livros, literatura e historiografia, o evento demonstrou que a história permanece sempre aberta ao diálogo. O passado não é uma realidade encerrada, mas um campo permanente de investigação e interpretação.
Entre o documento e a ficção, entre a memória e a história, permanece a tarefa essencial da cultura: compreender o passado para iluminar o presente e transmitir às futuras gerações a consciência de suas próprias origens.
A obra de Abílio Wolney Aires Neto representa, assim, uma contribuição relevante à historiografia goiana e brasileira, porque demonstra que a pesquisa histórica não é apenas uma busca por acontecimentos perdidos no tempo, mas uma forma de preservar a dignidade da experiência humana.
Referências principais
AIRES NETO, Abílio Wolney. O Diário de Abílio Wolney. Goiânia: Kelps.
AIRES NETO, Abílio Wolney. A Chacina Oficial. Goiânia: Kelps.
AIRES NETO, Abílio Wolney. O Barulho e os Mártires. Goiânia: Kelps.
AIRES NETO, Abílio Wolney. O Duro e a Intervenção Federal – Relatório ao Ministério da Guerra. Goiânia: Kelps.
AIRES, Voltaire Wolney. História de Dianópolis.
ÉLIS, Bernardo. O Tronco.



