Com ‘Dias Perfeitos’, Wim Wenders nos presenteia com a beleza suprema de uma vida simples
10 julho 2026 às 18h43

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Todos os dias, no comecinho da manhã, quando o céu exibe tons esmaecidos de azul ainda com vestígios da madrugada, Hirayama (Koji Yakusho) acorda com o som de sua vizinha varrendo a calçada. Ele se levanta, arruma seu futon, escova os dentes, apara o bigode e usa um borrifador para regar suas plantinhas. Depois, veste seu uniforme, um típico macacão azul, e sai de casa para dar início à rotina de limpar banheiros (não sem antes pegar seus itens pessoais – chaves, relógio, carteira, tudo cuidadosamente enfileirado em uma prateleira ao lado da porta).
Essa é a introdução de ‘Dias Perfeitos’, filme de Wim Wenders (o mesmo de ‘Paris, Texas’) que ganhou o prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes e concorreu no Oscar 2024, e também o preâmbulo de uma verdadeira ode à beleza de um cotidiano pautado na simplicidade.
Na história dirigida por Wenders, Hirayama gasta seus dias guiado por uma metodicidade quase inabalável. Tudo é feito praticamente da mesma forma todos dias, um cotidiano linear, comum e plausível em qualquer centro urbano.
Vista de fora, a vida de Hirayama pode ser lida como solitária e enfadonha. Mas de dentro, somos apresentados a uma das mensagens mais belas e necessárias que se pode passar em um filme na nossa época.
A função diária de Hirayama se resume a manter limpos os banheiros públicos de Tóquio. Em sua van, ele vai de toalete em toalete recolhendo o lixo e higienizando os locais. Mas o que poderia ser uma tarefa incômoda e tediosa, vira um encargo nobre e dedicado.
Hirayama trata os banheiros como um artesão trata suas peças. O esmero, o capricho e a dedicação, com direito até o uso de espelhinhos para conferir se nenhuma sujeira passou despercebida nos fundos dos mictórios, são incompreensíveis para o jovem e impulsivo Takashi (Tokio Emoto), seu colega de trabalho.
“Por que limpar tão bem? Vão sujar amanhã de novo”, questiona, em uma cena, o rapaz.
Há uma cena particularmente simbólica em que Wenders divide nossa atenção entre Hirayama limpando mais um banheiro público e um empresário, de terno e gravata, completamente embriagado, adormecido ao lado. A imagem carrega muito mais simbolismo do que aparenta.
No Japão, é relativamente comum a figura dos chamados salarymen, executivos que, depois jornadas exaustivas de trabalho (não é incomum que alguns trabalhem 60 horas por semana), acabam dormindo nas calçadas ou em estações de trem depois de noites de trabalho e confraternizações regadas a álcool.

Quando coloca lado a lado o homem responsável por manter limpo um banheiro público e aquele que, em tese, ocupa uma posição social mais prestigiada, Wenders desmonta qualquer hierarquia simplista sobre sucesso, dignidade e realização. Quem, afinal, parece mais livre ali?
Mas é justamente nesse aparente paradoxo que Wenders encontra e nos revela sua poesia. Cada pequeno gesto de Hirayama carrega um significado próprio, como se a vida estivesse escondida justamente naquilo que a maioria das pessoas atravessa sem notar.
Enquanto a cidade pulsa, sem dormir, e corre contra o relógio, Hirayama se permite observar o mundo com paciência. No horário do almoço, se senta sempre no mesmo parque para comer calmamente seu sanduíche enquanto contempla os raios de sol atravessando os galhos das árvores. Depois, registra o instante com sua velha câmera analógica. Ao sair de casa todas as manhãs, ergue os olhos para o céu e sorri discretamente, como quem agradece pela oportunidade de viver mais um dia.
São momentos aparentemente insignificantes, quase invisíveis, que Wenders transforma em acontecimentos grandiosos. E não são?
Hirayama integra plenamente a paisagem urbana de Tóquio, mas existe em uma frequência diferente daquela das multidões. Nosso herói do cotidiano atravessa cruzamentos movimentados, divide espaço com centenas de pessoas, mas permanece imune ao ritmo frenético que domina a metrópole japonesa. E em vez de ser engolido pelo caos, ele absorve silenciosamente a cidade.
Sua trilha sonora vem de fitas cassete cuidadosamente selecionadas, e seus momentos de descanso vêm dos livros de bolso que lê antes de dormir. Nada de rolagem de feed ou qualquer coisa que envolva o pequeno caos da tecnologia.
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Essa rotina quase sagrada sofre um raro abalo com a chegada inesperada de Niko (Arisa Nakano), sua sobrinha adolescente, que foge de casa após uma discussão com a mãe e encontra no tio um refúgio improvável. A presença de Niko rompe, mesmo que por um momento, um equilíbrio construído por Hirayama e reabre uma porta que ele parecia manter fechada.
Aos poucos, o espectador descobre que existe um passado do qual ele preferiu se afastar, ligado a uma família rica e a relações nunca totalmente explicadas. Mas ao mesmo tempo, Niko devolve ao nosso protagonista a alegria simples da companhia, das conversas despretensiosas e do afeto compartilhado.
Talvez, seja por isso que ‘Dias Perfeitos’ produza um efeito tão raro, mas ao mesmo tempo tão necessário. Vivemos uma era dominada por notificações, telas, produtividade e ansiedade permanente. O filme, aqui, funciona como um bálsamo. Sem grandes reviravoltas, conflitos explosivos ou discursos moralizantes, apenas um homem que encontra plenitude em cuidar de suas plantinhas, ouvir Lou Reed e Patti Smith em fitas antigas, ler William Faulkner antes de dormir e contemplar a luz filtrada pelas árvores.
Wim Wenders nos lembra que a felicidade não deixa de existir, nós é que desaprendemos a percebê-la nas pequenas coisas. Poucas obras recentes conseguem tornar a beleza de uma vida simples tão profundamente comovente.



