Prêmio Pierre Verger celebra 30 anos com mostra de cinema e exposição gratuita em Goiânia a partir desta quinta-feira, 9
09 julho 2026 às 09h55

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Goiânia recebe, a partir desta quinta-feira, 9, até o dia 17 de julho, a edição comemorativa de 30 anos do Prêmio Pierre Verger (PPV), premiação latino-americana dedicada a obras fílmicas, fotográficas e de desenho produzidas a partir de pesquisas antropológicas. A programação, totalmente gratuita e aberta ao público, ocupa dois espaços da cidade: a Mostra de Cinema acontece no Centro Audiovisual do Museu dos Povos Indígenas, no Setor Pedro Ludovico, enquanto a Exposição de Fotografia e Desenho, intitulada “Do rio à raiz”, toma a Galeria da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (UFG), no Campus Samambaia.
Ao todo, o evento exibe 26 filmes, 15 obras fotográficas e 12 composições com desenhos e outras grafias, além de promover quatro conferências internacionais com especialistas do Brasil, Colômbia, Chile e França.
Para Luis Felipe Kojima Hirano, um dos presidentes do Prêmio ao lado de Fabiana Bruno, a escolha da capital goiana como sede da celebração carrega um significado que desafia estereótipos consolidados. Em entrevista ao Jornal Opção, ele reforçou que “Goiânia é um lugar que está para além do agronegócio, que está para além também da cultura sertaneja, Goiânia é um lugar muito diverso, muito rico, com várias formas de expressão importantes também”.
O antropólogo sustentou ainda que é preciso “pensar Goiânia como uma cidade multiverso, multiétnica”, resgatando a vocação histórica da região como porta de entrada para expedições antropológicas, “a gente tem que lembrar que Claude Lévi-Strauss esteve na década de 30 aqui, parou aqui em Goiânia, pernoitou no grande hotel, para depois ir para as regiões onde tinha os povos indígenas”.
A diversidade que Hirano reivindica materializa-se nos critérios de seleção das 170 obras que concorreram ao prêmio. Uma comissão formada por antropólogos de universidades brasileiras e do exterior analisou cada trabalho considerando, em primeiro lugar, a densidade da imersão etnográfica. “A perspectiva antropológica precisa ter uma imersão de campo com diferentes pessoas, uma imersão de pesquisa mesmo. E estabelecimento de uma relação mesmo com as pessoas pesquisadas, levando em consideração as questões éticas, de representação e proteção dessas populações”, detalhou o presidente.
Em paralelo, o júri avaliou como a pesquisa dialoga com a expressão estética, conectando-se “com o que tem de melhor no desenho, o que tem de melhor na fotografia, o que tem de melhor no cinema atual”.

A curadoria da exposição “Do rio à raiz” bebeu diretamente da poética do Cerrado e do tema da 35ª Reunião Brasileira de Antropologia – antirracismo e pluridiversidade. Hirano explicou que a equipe partiu de uma frase de Conceição Evaristo para construir a identidade visual da mostra: “no meio do caminho, águas deslizantes”, um verso que dialoga com Drummond, mas desloca a dureza da pedra para a fluidez das águas. “E a Conceição Evaristo fala dessas águas deslizantes, que dialoga com o Estado de Goiás, onde fica esse bioma do Cerrado que é a caixa d’água do Brasil por conta das inúmeras nascentes de rios que tem aqui, o Rio Araguaia, Tocantins, Paranaíba”, pontuou.
A paleta de cores vibrantes remete à primavera do Cerrado, e a artista Natália Parra empregou a plotagem (técnica que utiliza raízes e plantas para criar pinturas) na composição das paredes da galeria.
Confira a programação completa do evento:
Quinta-feira (09/07)
10h – Mesa de abertura no Auditório da Biblioteca Central da UFG – Campus Samambaia
11h – Abertura da mostra de fotografias e desenhos na Galeria da FAV – Campus Samambaia
14h – Conferência “Minha alma é a lente, a câmera como ponte de rezas e projeções”, com Divino Tserewahú
18h – Sessão 1 de filmes no Centro Audiovisual/Museu dos Povos Indígenas
Sexta-feira (10/07)
10h – Sessão 2 de filmes no Centro Audiovisual/Museu dos Povos Indígenas
14h – Sessão 3 de filmes no Centro Audiovisual/Museu dos Povos Indígenas
19h – Conferência “Cinemas de territórios vivos”, com Amalia Córdova
Sábado (11/07)
10h – Sessão 4 de filmes no Centro Audiovisual/Museu dos Povos Indígenas
14h – Sessão 5 de filmes no Centro Audiovisual/Museu dos Povos Indígenas
19h – Conferência “Fotografia imaginada e o fogo da memória”, com Jorge Panchoaga
Domingo (12/07)
10h – Sessão 6 de filmes no Centro Audiovisual/Museu dos Povos Indígenas
14h – Sessão 7 de filmes no Centro Audiovisual/Museu dos Povos Indígenas
18h30 – Homenagem aos 40 anos do Vídeo nas Aldeias, com exibição de “Arquivo Vivo” e presença de Vincent Carelli, Amália Córdova e Divino Tserewahú
Segunda-feira (13/07)
10h – Visita guiada à Mostra de Fotografia e Desenho na Galeria da FAV – Campus Samambaia
11h – Conferência “Experiências do Sertão Negro: entre trajetórias artísticas e práticas coletivas”, com Òkun, Genor Sales e Lucélia Maciel
15h – Premiação PPV no Auditório da Biblioteca Central da UFG – Campus Samambaia
Locais: O Centro Audiovisual/ Museu dos Povos Indígenas fica na Alameda Leopoldo de Bulhões, Quadra 3, Lote 1/4, Setor Pedro Ludovico, em Goiânia. A UFG Campus Samambaia está na Avenida Esperança, s/n. A mostra “Do rio à raiz” permanece aberta à visitação na Galeria da Faculdade de Artes Visuais (FAV-UFG), também no Campus Samambaia. Mais informações sobre os filmes e exposições: Arquivo do evento PPV.
Todas as atividades são gratuitas e não exigem inscrição prévia.
A edição de 2026 introduz novidades significativas no escopo da premiação. A categoria Experimentação Fotográfica estreia para acolher linguagens híbridas que extrapolam o ensaio tradicional. Já a modalidade Desenho expandiu-se para abarcar diferentes grafias, incorporando bordados, instalações, costura com corrente de pesca e fotografias com intervenção pictórica. “Isso mostra também uma possibilidade da antropologia dialogar cada vez mais com outros setores da sociedade. Porque, às vezes, a linguagem acadêmica é muito hermética, é muito difícil de acessar. Então, com a imagem, com outras linguagens, a gente tem um diálogo muito mais efetivo”, avaliou Hirano.
Questionado sobre o momento que torna esta edição um marco, o antropólogo destacou a convergência de efemérides: “essa edição é muito importante no sentido de que tem vários cenários ocorrendo. Tanto os 30 anos do Prêmio PPV, 40 anos do Vídeo nas Aldeias e 30 anos também de uma amostra muito importante de cinema experimental e cinema antropológico, que é o Fórum DOC”.
A programação reflete essa multiplicidade ao reunir conferencistas como o cineasta Xavante Divino Tserewahú, a pesquisadora chilena Amalia Córdova, o fotógrafo colombiano Jorge Panchoaga e o filósofo afro-europeu Dénètem Touam Bona.
Hirano enxerga o evento como uma ferramenta de ruptura com o isolamento contemporâneo. “Hoje, as pessoas vivem em bolhas, no mundo em que é difícil, às vezes, dialogar com outras pessoas por conta de posições políticas. A antropologia mostra que é possível criar pontes com diferentes formas de ver o mundo e se afetar por essas formas. Então, acho que é a possibilidade de a gente quebrar as bolhas mesmo”.
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