Sob o risco de soar repetitivo e insistente, já que destaquei esse fato em outras críticas, arrisco-me a apontar, mais uma vez e com entusiasmo, a incrível capacidade que o Irã tem de nos presentear com algumas das mais belas e viscerais obras da sétima arte. Com direção de Abbas Kiarostami, ‘Onde fica a casa do meu amigo?’, de 1987, é justamente um desses filmes que ilustram essa realidade.

Com menos de 1h30 de duração, a história pode ser resumida de forma simples: Ahmed (Babek Ahmed Poor), ao perceber que ficou por engano com o caderno de seu melhor amigo, Mohamed (Ahmad Ahmadpour), após a aula, assume a missão de encontrar a casa do menino para devolver o item. É isso, sem mais.

Aparentemente singela e até “boba” para os desavisados, a história do filme carrega, no entanto, uma narrativa alegórica tão forte, emotiva e essencial quanto a própria vida.

Logo de cara, somos apresentados à dura realidade de Ahmed e Mohamed. Eles vivem em pequenas vilas afastadas dos centros urbanos do Irã e frequentam a mesma escola, que aparentemente é a única da região rural onde moram. A sala de aula, apertada e sucateada, é composta por meninos de vilas e fazendas dos arredores que recebem instruções de um professor rígido e intolerante aos menores deslizes.

É esse mesmo professor que expõe, diante de toda a classe, o erro “imperdoável” de Mohamed por ter esquecido seu caderno com o primo e, consequentemente, não ter feito o dever de casa, a ponto de fazê-lo chorar.

Ao final da aula, quando chega em casa, Ahmed, nosso protagonista e herói, percebe que levou o caderno do amigo sem querer. Ele sabe que, mais uma vez, Mohamed deixaria de fazer a lição de casa e que a ameaça do professor poderia se cumprir no dia seguinte: expulsá-lo da escola.

Ahmed pede permissão à mãe para ir até a vila onde o amigo mora. Ele não sabe exatamente onde fica a casa, nem como encontrá-la. Só sabe que precisa devolver o caderno de Mohamed. Sem a autorização da mãe, o menino encontra um pretexto para sair de casa e inicia sua jornada hercúlea.

O que para qualquer adulto seria uma tarefa simples, que diante da menor dificuldade poderia ser adiada, como sugere a mãe de Ahmed ao dizer que ele poderia entregar o caderno no dia seguinte, transforma-se em uma missão inegociável para o garoto.

Cena de ‘Onde fica a casa do meu amigo?’, do diretor Abbas Kiarostami | Foto: Reprodução

Ahmed percorre estradas, colhe informações de adultos e crianças, erra endereços e corre entre uma vila e outra, tudo em nome de fazer o caderno de seu amigo voltar às mãos dele. Ao longo desse trajeto, porém, as histórias de vida de outras pessoas acabam tropeçando na sua.

De um velho e solitário construtor de portas de madeira que, diante do pedido de ajuda de Ahmed, vê a oportunidade de desabafar sobre seus traumas e sobre a dor de assistir ao trabalho de toda uma vida ser substituído e “modernizado”, passando por uma criança que não pode ajudá-lo por estar ocupada com as tarefas domésticas, até chegar a um avô que tem dificuldade em aceitar as mudanças geracionais, por menores que sejam, Ahmed cruza o caminho de personagens marcados por diferentes conflitos.

Cada um deles ajuda o espectador a compreender a dura realidade de um Irã acostumado às restrições impostas pela guerra com o Iraque, encerrada em 1988, e pelas imposições de uma cultura baseada na rigidez das tradições.

Na metade do filme, o espectador já se vê torcendo para que o menino alcance seu objetivo. Imparável, Ahmed é movido não apenas pelo senso de responsabilidade e pela empatia diante das lágrimas do amigo, mas também por um amor fraternal e puro que somente uma criança é capaz de sentir.

O que seria pequeno e insignificante para um adulto representa simplesmente o mundo para uma criança. E é justamente isso que o filme de Abbas Kiarostami nos ajuda a compreender. A importância que atribuímos aos nossos objetivos está intrinsecamente ligada aos sentimentos que os envolvem. E quanto mais simples e puros são esses sentimentos, mais nobre e indispensável se torna o propósito que deles nasce.

‘Onde fica a casa do meu amigo?’ é um filme para ser digerido com calma, admirado e refletido. É uma daquelas obras que nos fazem questionar e redimensionar o que realmente importa na vida. No fim, o que vale mesmo é o bem que fazemos ao outro, não importa de que forma.

Na minha opinião, o texto já era muito bom. As principais mudanças foram de ritmo, eliminando algumas repetições (“quando chega em casa… quando percebe”, “só sabe”, “a história do filme”), ajustando pequenas questões gramaticais (“às mãos dele”, “aceitar”, “por menores que sejam”) e suavizando algumas frases muito longas para que a leitura fique mais natural, sem perder sua voz.

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