Singelo e autêntico, filme iraniano ‘Onde fica a casa do meu amigo?’ é o retrato dos mais belos valores do ser humano
26 junho 2026 às 15h27

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Sob o risco de soar repetitivo e insistente, já que destaquei esse fato em outras críticas, preciso apontar, mais uma vez e com entusiasmo, a incrível capacidade que o Irã tem de nos presentear com algumas das mais belas e viscerais obras da sétima arte. Com direção de Abbas Kiarostami, ‘Onde fica a casa do meu amigo?’, de 1987, é justamente um desses filmes que ilustram essa realidade.
Com menos de 1h30 de duração, a história pode ser resumida de forma simples: Ahmed (Babek Ahmed Poor), ao perceber que ficou por engano com o caderno de seu melhor amigo, Mohamed (Ahmad Ahmadpour), após a aula, assume a missão de encontrar a casa do menino para devolver o item. É isso, sem mais.
Aparentemente singela e até “boba” para os desavisados, a história do filme carrega, no entanto, uma narrativa alegórica tão forte, emotiva e essencial quanto a própria vida.
Logo de cara, somos apresentados à dura realidade de Ahmed e Mohamed. Eles vivem em pequenas vilas afastadas dos centros urbanos do Irã e frequentam a mesma escola, que aparentemente é a única da região rural onde moram. A sala de aula, apertada e sucateada, é composta por meninos de vilas e fazendas dos arredores que recebem instruções de um professor rígido e intolerante aos menores deslizes.
É esse mesmo professor que expõe, diante de toda a classe, o erro “imperdoável” de Mohamed por ter esquecido seu caderno com o primo e, consequentemente, não ter feito o dever de casa, a ponto de fazê-lo chorar.
Ao final da aula, quando chega em casa, Ahmed, nosso protagonista e herói, percebe que levou o caderno do amigo sem querer. Ele sabe que, mais uma vez, Mohamed deixaria de fazer a lição de casa e que a ameaça do professor poderia se cumprir no dia seguinte: expulsá-lo da escola.
Ahmed pede permissão à mãe para ir até a vila onde o amigo mora. Ele não sabe exatamente onde fica a casa, nem como encontrá-la. Só sabe que precisa devolver o caderno de Mohamed. Sem a autorização da mãe, o menino encontra um pretexto para sair de casa e inicia sua jornada hercúlea.
O que para qualquer adulto seria uma tarefa simples, que diante da menor dificuldade poderia ser adiada, como sugere a mãe de Ahmed ao dizer que ele poderia entregar o caderno no dia seguinte, transforma-se em uma missão inegociável para o garoto.

Ahmed percorre estradas, colhe informações de adultos e crianças, erra endereços e corre entre uma vila e outra, tudo em nome de fazer o caderno de seu amigo voltar às mãos dele. Ao longo desse trajeto, porém, as histórias de vida de outras pessoas acabam tropeçando na sua.
De um velho e solitário construtor de portas de madeira que, diante do pedido de ajuda de Ahmed, vê a oportunidade de desabafar sobre seus traumas e sobre a dor de assistir ao trabalho de toda uma vida ser substituído e “modernizado”, passando por uma criança que não pode ajudá-lo por estar ocupada com as tarefas domésticas, até chegar a um avô que tem dificuldade em aceitar as mudanças geracionais, por menores que sejam, Ahmed cruza o caminho de personagens marcados por diferentes conflitos.
Cada um deles ajuda o espectador a compreender a dura realidade de um Irã acostumado às restrições impostas pela guerra com o Iraque, encerrada em 1988, e pelas imposições de uma cultura baseada na rigidez das tradições.
Na metade do filme, o espectador já se vê torcendo para que o menino alcance seu objetivo. Imparável, Ahmed é movido não apenas pelo senso de responsabilidade e pela empatia diante das lágrimas do amigo, mas também por um amor fraternal e puro que somente uma criança é capaz de sentir.
O que seria pequeno e insignificante para um adulto representa simplesmente o mundo para uma criança. E é justamente isso que o filme de Abbas Kiarostami nos ajuda a compreender. A importância que atribuímos aos nossos objetivos está intrinsecamente ligada aos sentimentos que os envolvem. E quanto mais simples e puros são esses sentimentos, mais nobre e indispensável se torna o propósito que deles nasce.
‘Onde fica a casa do meu amigo?’ é um filme para ser digerido com calma, admirado e refletido. É uma daquelas obras que nos fazem questionar e redimensionar o que realmente importa na vida. No fim, o que vale mesmo é o bem que fazemos ao outro, não importa de que forma.
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