Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Crônicas da América (2)

“Com o pé na estrada” não seria o mais apropriado para descrever as viagens intercontinentais, mas se aplica como expressão meio surrada, mas ainda válida para mostrar ao caminhante que quando se ganha mundo, dos pés podem surgir as melhores metáforas da viagem.

Foto do blog de Kelley Cutter

Procurando abrigo na Igreja. Foto do blog de Kelley Cutter

Sim, basta lembrar-nos de Antonio Machado e seu (nosso) caminhante da “estirpe rude” dos da origem lusitana, a quem sempre servem os versos como alerta: “Caminhante, são teus passos/o caminho, e nada mais […] Caminhante, não há caminho,/somente esteiras no mar.”  

Quando viajamos a países continentais como o Brasil e os Estados Unidos da América, a expressão ganha uma sobrevida e mais ênfase, pois só conhece mais e melhor quem está disposto a pôr o pé na estrada, ganhar mundo, medir asfalto, surrar os sapatos, feito na canção do canadense Félix Lecrerc um verdadeiro poema intitulado “Moi mes souliers”.

Ali, Lecrerc conduz o leitor sobre os próprios sapatos para “ir à escola e/ou à guerra”, conhecendo o mundo – suas belezas e suas misérias; são sapatos que levam a personagem poética e consigo o leitor encantado a pisar na lua, a dançar com as musas; certos de que “apenas sapatos que se deixaram molhar com a água do rochedo, com a lama dos campos, só sapatos que presenciaram o choro das mulheres; que respeitaram os sacerdotes, a pátria, o bom Deus e a alma do homem; sapatos que encontraram saídas, de cidade em cidade – podem ter portado este homem à sabedoria; são sapatos de mendigo, sapatos de guerra…”

Estes mesmos sapatos que um dia cessarão de palmilhar as estradas, as ruas de bairro ou de centros financeiros, das pequenas cidades ou de metrópoles – sapatos que podem parar sua marcha esta semana mesmo…a qualquer hora, agora, mas sabemos que “O Paraíso, assim me parece, amigos,/Não há lugar para sapatos engraxados.// Apressem-se, pois, amigos, por “sujar” seus sapatos/Se querem ser perdoados/Se querem ser perdoados…”

“Moi mes souliers ont beaucoup voyagé
Ils m’ont porté de l’école à la guerre
J’ai traversé sur mes souliers ferrés
Le monde et sa misère

Moi mes souliers ont passé dans les prés
Moi mes souliers ont piétiné la lune
Puis mes souliers ont couché chez les fées
Et fait danser plus d’une.
[…]
Au paradis parait-il mes amis
C’est pas la place pour les souliers vernis
Dépêchez-vous de salir vos souliers
Si vous voulez être pardonnés
Si vous voulez être pardonnés.”

Eia, pois, que vou “sujando os sapatos” pelo mundo afora e anotando nestas crônicas o caldo da meu suor e de minhas ansiedades, das minhas tristezas e alegrias, lutando contra a futilidade, dando o relato mais autêntico do sapato sujo pelas histórias das cidades e das pessoas com quem vou cruzando caminhos: homens de negócios e desocupados, veteranos e jovens entusiasmados com o mundo e loucos para “sujar os sapatos” aqui e ali, alhures, com padres e putas, com malucos e gente “cabeça”, analfabetos e letrados, na Academia ou nas ruas, com os que pagam altos aluguéis (ou os recebem) e com os que vivem nas ruas.

Eis uma viagem para fazer a diferença do apenas é comum falar, falar – mais uma viagem para ouvir. Saindo de Los Angeles, passamos por Palm Springs, Lake Arrowhead, Vale do Silício e pelo Vale Central. Vi e conversei com acadêmicos em Stanford, agricultores que plantam cerejas e laranjas, lutando pela água no seu vale, que desejam verdeS o vale e a produtividade das grandes planícies californianas, mesmo com a seca e o impacto de áreas semi-desérticas. No entanto, o impacto maior estava por vir – e, mesmo não sendo um milagre, tinha o nome de santo: San Francisco.

Tendo reservado hotel em San Francisco na área chamada “Mission”, sabíamos de antemão que encontraríamos a área conturbada, como tínhamos visto em 2013; mas, enfim, feitas as contas, ficaríamos num hotel bem confortável por preço bem decente, então, lá fomos nós e, pois, lá mesmo foi que comecei a ver o apelo das ruas, numa intensidade bem maior dos que antes – aqui vivem na rua, segundo números oficiais, mais de 7500 pessoas, número que pode ultrapassar os vinte e um mil, segundo sugere o próprio Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano (HUD), por erro ou omissão de pesquisadores e pesquisados.

Para estes esquecidos da metrópole não há nenhum charme ou diferenciação estar com o pé, o corpo, a cabeça na rua, às vezes tomam a estrada final e se vão, em massacres, em acerto de contas dos negociadores de drogas, ou mesmo pelas doenças constantes advindas das péssimas condições em que vivem. Fazem lembrar o hiper-realismo ou o lirismo humaníssimo e sem-medidas de Manuel Bandeira:

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato, Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Sem perder de vista a realidade, mergulho na interpretação desta: livros, museus e concertos, músicas, poemas que falam do poder da viagem, que me recordam o mais valioso dos bens que uma cidade pode jamais possuir: sua gente – os que aqui nasceram, os que aqui vieram e se apaixonaram pela cidade e os que adotaram-na como segunda casa. Esse o mantra da minha visita ao Museu de Arte Moderna de Sao Francisco e às livrarias independentes da velha SFO, com destaque para a Green Apple e a City Lights Books.

A “City Lights” é um símbolo importante para o que o Cânon da poesia norte-americana moderna intitula de poesia beat e alguns confundem com beatnik. O movimento teve ali lances importantes, reunindo poetas como Jack Kerouac, Alan Ginsberg e William Burroughs, mas “On the road again” (Kerouac), símbolo da época e do movimento que girou em torno da cidade, sem pai, pois, o que poderia ter sido nega-lhe paternidade.

Como é de conhecimento geral, “On the Road” ganhou no Brasil o título de “Pé na estrada” (em Portugal, “Pela estrada afora”) e tem tradução de Eduardo Bueno – exemplificou para o mundo aquilo que ficou conhecido como a “geração beat ” e fez com que Kerouac se transformasse em um dos mais controversos e famosos escritores de seu tempo – embora em vida tenha tido mais sucesso de público do que de crítica e embora rejeitasse o título de “pai dos beatniks”.

Coube ao cineasta brasileiro concluir e filmar o roteiro imaginado por Francis Ford Coppola, adaptação do livro do andarilho-poeta americano Kerouac. Em 2003, o escritor Dodô Azevedo e a fotógrafa Luiza Leite refizeram a rota percorrida por Kerouac e produziram um livro – Fé na Estrada – no qual avaliam o legado da obra do escritor para o século XXI, conforme a “barsa” do nosso século (Wikipedia).

Bem, vamos ter que fazer uma parada rápida nesta nossa curta viagem pela San Francisco de nosso dias, mas antes de finalizar está curta crônica, gostaria de deixar para você, leitor, a última entrevista de Kerouac à Paris Review, salva em acervo de nossa prestigiosa revista Bula On-line. http://acervo.revistabula.com/posts/traducao/a-ultima-entrevista-de-jack-kerouac

Eis aqui um poeminha do autor “san-franciscano” por adoção Jack Kerouac, na tradução de José Lira:
Straining at the padlock,
the garage doors At noon
Forçando as trancas,
As portas da garagem
Ao meio-dia.
Este bem-sucedido exemplo de haicai do autor de “Pela estrada afora” me chegaram ao conhecimento via web, podendo ser consultado em meio a muitos outros poemas, não tão bem realizados mas fortes também, conforme ao ensaio de José Lira “As viagens haicaísticas de Jack Kerouac: http://periodicos.ufpb.br/index.php/graphos/article/viewFile/4363/3297

The sound of silence is all the instruction You’ll get.
O som do silêncio//É todo o ensinamento//Que vais obter.
“The raindrops have plenty of personality –
Each one
“Os pingos de chuva//têm muita personalidade –
Cada um
Blizzard in the suburbs – the mailman
And the poet walking
Neva no bairro –
O carteiro e o poeta
Caminhando…
Full moon in the trees – across the street, the jail
Lua cheia nas árvores – Do outro lado da rua A cadeia.
Como para a maioria do deserdados de San Francisco.
Daqui, eu lhes digo: adeus, até logo, au revoir, mes amis.

Adalberto de Queiroz, 63, é jornalista e poeta. Autor de “O rio incontornável” (Mondrogo, 2017).

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