Sob o sol de Goiás: como a energia fotovoltaica transformou o Estado em referência nacional e impulsiona uma nova economia
07 junho 2026 às 17h15

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Assim como ocorreu com os biocombustíveis, Goiás encontrou na energia solar uma nova vocação econômica. O que antes era apenas uma vantagem climática transformou-se em uma força capaz de movimentar bilhões de reais, gerar empregos, fortalecer a renda e levar economia a milhares de consumidores espalhados pelo estado.
Em pouco mais de uma década, Goiás saiu de uma participação quase irrelevante na geração fotovoltaica para sustentar uma cadeia produtiva que ultrapassou os 2 mil GWh em 2024, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg). A trajetória revela não apenas o crescimento de uma fonte de energia, mas a consolidação de um setor que vem redesenhando a paisagem econômica goiana.
Hoje, o estado ocupa a quinta posição nacional em geração distribuída de energia solar. São cerca de 41 mil unidades geradoras e uma potência instalada de 645 mil kW, de acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). À frente de Goiás estão apenas Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná e São Paulo.
O avanço também se reflete nos investimentos. Levantamento da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) aponta que o setor já atraiu mais de R$ 7,9 bilhões para o estado, consolidando Goiás entre os principais polos da energia limpa no país.

A presença da energia solar se espalha por diferentes realidades. Ela está nos telhados de mercados, restaurantes e pequenos empreendimentos que buscam reduzir custos operacionais, mas também ocupa extensas áreas do interior goiano por meio das chamadas fazendas solares, estruturas que produzem energia durante todo o ano e ainda injetam excedentes na rede elétrica.
Um dos símbolos dessa transformação é o Complexo Solar Barro Alto, fruto de uma parceria entre a empresa brasileira Newave Energia e a siderúrgica Gerdau. Localizado a 226 quilômetros de Goiânia, o empreendimento reúne mais de 730 mil painéis solares distribuídos em uma área de 800 hectares no norte goiano, formando a maior fazenda solar de Goiás.
O projeto recebeu investimento de R$ 1,3 bilhão, entre recursos próprios e financiamentos da Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco), e gerou cerca de 1,5 mil empregos durante sua implantação.
Em operação desde março de 2026, após a liberação das usinas pela Aneel, o complexo possui capacidade para alcançar 450 MW de potência instalada. É energia suficiente para abastecer uma cidade com aproximadamente 360 mil habitantes — o equivalente a cerca de 30 municípios do porte de Barro Alto, que hoje abriga pouco mais de 10 mil moradores.

Mais do que produzir eletricidade, o empreendimento tornou-se um retrato da nova paisagem energética que se desenha em Goiás, onde a abundância de sol vem sendo convertida em desenvolvimento econômico e oportunidades.
Expertise que nasce sob o sol goiano
Para o gerente do Sebrae Energia Goiás, Jefferson Paes, a combinação entre alta incidência solar, disponibilidade de áreas e ambiente favorável aos negócios transformou Goiás em uma das principais referências nacionais na expansão da energia fotovoltaica.
Mais do que reunir condições naturais privilegiadas, o estado vem construindo uma cadeia produtiva capaz de conectar inovação, geração de renda e desenvolvimento empresarial. Nesse processo, o Sebrae atua como um dos articuladores do setor, aproximando empreendedores das oportunidades criadas pela transição energética.
À frente da iniciativa nacional do Sebrae Energia em Goiás, Jefferson acompanha de perto um mercado que cresce tanto entre consumidores em busca de economia quanto entre empresários que enxergam na energia solar uma oportunidade de investimento. O movimento alcança desde pequenos estabelecimentos, como restaurantes e supermercados, até empresas especializadas na instalação e manutenção de sistemas fotovoltaicos.
Essa atuação se materializa em ações de capacitação, eventos e programas voltados ao fortalecimento da cadeia produtiva, como o Solar Talk, iniciativa criada para promover a troca de conhecimento e aproximar empresários das principais tendências e desafios do setor.
“Como a energia solar está ganhando cada vez mais destaque no país, queremos dar a oportunidade aos empreendedores de prestarem um bom serviço”, afirma Jefferson.

Além da qualificação técnica, o Sebrae desempenha um papel de articulação entre o setor produtivo e os órgãos responsáveis pela regulamentação da atividade. A instituição promove o diálogo entre empresários e entidades como CREA, Corpo de Bombeiros e Equatorial, auxiliando na atualização sobre normas técnicas, procedimentos de segurança e novas regulamentações.
Entre os temas mais recentes está a regulamentação para instalação de carregadores de veículos elétricos em condomínios, uma demanda que acompanha a expansão da mobilidade elétrica e reforça a necessidade de profissionais cada vez mais preparados para atender às transformações do mercado energético.
Para Jefferson, a consolidação da energia solar em Goiás não depende apenas da força do sol, mas também da capacidade de formar empresas competitivas, profissionais qualificados e uma rede de negócios capaz de sustentar o crescimento do setor nos próximos anos. Afinal, tão importante quanto gerar energia é construir conhecimento para que essa transformação continue iluminando novas oportunidades.
Quando o campo também colhe energia
Se há um lugar onde a expansão da energia solar se tornou mais visível em Goiás, é no meio rural. As chamadas fazendas solares se multiplicam pelo interior do estado e já representam a principal cadeia do setor em escala de produção e número de empreendimentos.
Formadas por extensos conjuntos de placas fotovoltaicas, essas estruturas ajudam a manter atividades produtivas em funcionamento, reduzem custos operacionais e transformam áreas antes pouco aproveitadas em ativos econômicos.
Segundo Jefferson Paes, gerente do Sebrae Energia Goiás, a presença dessas usinas já faz parte da paisagem de quem percorre as estradas goianas.
“Se viajarmos pelo interior, poderemos ver fazendas solares em várias rodovias do Estado”, afirma
O avanço da tecnologia tem dado novo significado a terrenos considerados improdutivos. Onde antes havia apenas espaço ocioso, hoje surgem fileiras de painéis que captam a luz do sol e a convertem em energia, criando uma nova fonte de riqueza para propriedades rurais e empresas do setor.
Em regiões mais afastadas dos grandes centros, a energia solar também tem se mostrado uma alternativa eficiente aos tradicionais geradores movidos a diesel. Além de reduzir despesas operacionais, a substituição contribui para a diminuição da emissão de poluentes e amplia a autonomia energética de áreas onde o acesso à rede elétrica ainda é limitado.
Mas os impactos vão além da geração de eletricidade. A construção de uma fazenda solar mobiliza uma extensa cadeia de serviços que envolve engenharia, terraplanagem, transporte, hospedagem, alimentação e logística. Depois de concluídas as obras, surgem novas oportunidades ligadas à manutenção técnica, limpeza, monitoramento e operação dos sistemas.
Para Jefferson, esse efeito multiplicador é um dos grandes diferenciais do setor. “É um tipo de investimento que beneficia mais setores além das duas pontas da produção”, destaca.
Ao espalhar oportunidades por diferentes segmentos da economia, a energia solar vem se consolidando como uma nova safra para Goiás. Uma colheita silenciosa, feita de luz e tecnologia, capaz de gerar empregos, movimentar negócios e levar desenvolvimento a regiões que, até poucos anos atrás, sequer figuravam no mapa da transição energética brasileira.
Energia que impulsiona negócios
Se no campo a energia solar encontrou espaço para crescer em grandes áreas, nas cidades ela vem transformando a forma como empresas administram seus custos e planejam investimentos. Restaurantes, supermercados, farmácias, hotéis e pequenos comércios passaram a enxergar na geração própria não apenas uma alternativa sustentável, mas uma estratégia de competitividade.
Segundo Jefferson Paes, Goiás também se destaca no segmento comercial da energia fotovoltaica. Dos 3,6 MW de capacidade instalada registrados no Centro-Oeste nesse mercado, aproximadamente 2,5 MW estão concentrados em território goiano, reforçando o protagonismo do estado na adoção da tecnologia.
Para empresários e investidores, a energia solar representa uma oportunidade dupla: reduzir despesas fixas e aumentar a previsibilidade financeira do negócio. Em um cenário de custos operacionais cada vez mais sensíveis, produzir a própria energia deixou de ser apenas uma escolha ambiental para se tornar uma decisão estratégica.
Mas a democratização do acesso à energia solar também abriu caminho para novos modelos de negócio. Entre eles estão as cooperativas e associações de geração compartilhada, responsáveis pelas chamadas assinaturas de energia.

Nesse sistema, o consumidor não precisa instalar placas solares em sua residência ou empresa. Em vez disso, recebe créditos gerados por uma usina remota e compensados diretamente na conta de energia. Dependendo do contrato, a economia pode chegar a 20% sobre o valor da fatura mensal.
A intermediadora — que seria essa empresa, associação ou cooperativa — faz o repasse desse crédito e direciona para uma empresa ou outro negócio. Isso gera um ciclo de economia, e o consumidor tem a opção de pagar menos na conta da luz sem nem instalar nada, explica Jefferson.
O modelo beneficia consumidores que não possuem espaço físico para instalação dos equipamentos ou que preferem evitar o investimento inicial. Ao mesmo tempo, cria uma nova fonte de receita para os empreendedores que operam usinas fotovoltaicas, já que os créditos energéticos podem ser comercializados continuamente.
A expansão desse mercado também tem sido impulsionada pelo acesso ao crédito. Linhas de financiamento específicas para energia renovável, oferecidas por instituições como a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil, têm contribuído para tornar a tecnologia mais acessível a empresas de diferentes portes.
Assim, a energia solar deixa de ser apenas uma solução tecnológica e passa a integrar a rotina econômica de Goiás. Seja sobre o telhado de um pequeno comércio, em uma cooperativa de geração compartilhada ou em uma grande usina fotovoltaica, a luz do sol vem se convertendo em uma das mais promissoras moedas do desenvolvimento goiano.
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