Nas profundezas das cavernas de Goiás, pesquisadores goianos descobrem espécies inéditas para a ciência
06 junho 2026 às 17h18

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Quem entra em uma caverna costuma olhar para cima, impressionado com as esculturas que a água e o tempo levaram milhares de anos para desenhar nas rochas. Mas é no chão, no ar e nas superfícies invisíveis a olho nu que se esconde o verdadeiro tesouro biológico desses ambientes. Longe dos olhares dos turistas curiosos, pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG) estão mapeando um universo microscópico fascinante: o dos fungos subterrâneos.
Esse ecossistema oculto é o foco de um estudo coordenado pelo professor Jadson Bezerra, do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP/UFG). A pesquisa, publicada recentemente na revista científica IMA Fungus, revelou uma impressionante diversidade de fungos no Cerrado goiano, incluindo espécies totalmente desconhecidas pela ciência.
O grupo investiga a vida microscópica das cavernas desde 2017, movido por uma provocação: o imenso vazio de dados sobre o tema. “Sabíamos que havia uma riqueza muito grande de fungos nas cavernas, mas quase não existiam estudos sobre isso. O Cerrado concentra o maior número de cavernas do Brasil e, ainda assim, tínhamos poucas informações sobre os fungos presentes nesses locais”, conta Bezerra.

Até o momento, a equipe já estudou dez cavernas espalhadas pelos municípios de Mambaí, Buritinópolis, Vila Propício e Niquelândia, com o objetivo de entender como esses micro-organismos se comportam ao longo do ano. Os cientistas encararam as expedições em duas realidades bem diferentes: o auge da seca e o período de chuvas intensas.
O volume de material coletado impressiona. Atualmente, os pesquisadores estudam aproximadamente 5 mil amostras. “Estamos analisando esse material por meio de características morfológicas, sequenciamento de DNA e outras metodologias utilizadas na micologia”, explica o professor.
Os primeiros resultados mostram que o esforço tem valido a pena: em uma única caverna, a equipe catalogou cerca de 90 espécies diferentes e, em uma triagem recente com 94 isolados de fungos, identificou 23 espécies distintas, sendo três delas totalmente inéditas no planeta e nunca antes descritas pela ciência.
O pesquisador explica que o processo de identificação de um novo fungo não é simples. O processo é um exercício de paciência e rigor metodológico. Tudo começa no campo, após autorizações ambientais rígidas. Equipados, os pesquisadores coletam pequenas porções de solo e utilizam equipamentos especiais para capturar os fungos que flutuam no ar.
O Brasil tem cerca de 30 mil cavernas catalogadas, mas a enorme maioria nunca foi estudada sob a ótica da microbiologia. Nesse cenário, o Cerrado se consolidou como o grande protagonista. Estimativas apontam que 75% das espécies de fungos encontradas em cavernas brasileiras estão no bioma central do país. “Esses trabalhos mostram que as cavernas são verdadeiros reservatórios de diversidade de fungos no Brasil e especialmente no Cerrado”, ressalta Jadson.
Para ele, o estudo traz um argumento urgente para a preservação ambiental. “Quando falamos em conservação das cavernas, não estamos falando apenas da beleza desses locais. Estamos falando da fauna, da vegetação presente em suas entradas e também de micro-organismos que exercem funções ecológicas fundamentais e que muitas vezes passam despercebidos.”
Da ciência básica ao prato do brasileiro
Embora pareça uma pesquisa puramente teórica, descobrir esses fungos pode mudar a nossa rotina aqui fora. No ecossistema, eles são os responsáveis por reciclar nutrientes e decompor a matéria orgânica. Mas, para a indústria e para a agricultura, o potencial é gigantesco.
A equipe já identificou linhagens de fungos que funcionam como defensores naturais de lavouras, capazes de combater pragas, insetos e bactérias que destroem plantações, reduzindo a necessidade de defensivos químicos. Por outro lado, a pesquisa também acende alertas para a saúde pública, identificando quais desses fungos podem causar alergias ou doenças em humanos.O trabalho está longe de um ponto final. Com mais de 6 mil novas amostras aguardando análise nos laboratórios da UFG, a expectativa é de que o Cerrado revele ainda mais segredos nos próximos anos.
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