Conhecido em Goiás como o “médico das siamesas”, Zacharias Calil construiu sua trajetória pública muito antes de entrar para a política. Formado em Medicina pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e cirurgião pediátrico há décadas, ganhou notoriedade ao liderar, décadas atrás, a primeira cirurgia de separação de gêmeas siamesas realizada no Estado. Desde então, participou de dezenas de procedimentos semelhantes, tornando-se uma referência nacional na área.

Deputado federal reeleito e hoje pré-candidato ao Senado pelo MDB, Zacharias tenta ampliar sua imagem junto ao eleitorado goiano e se consolidar como um nome competitivo na disputa de 2026. Nesta entrevista ao Jornal Opção, ele fala sobre o desafio de ser reconhecido não apenas como o “médico das siamesas”, mas também como um político com projeto próprio para o Senado.

Aliado do governador Ronaldo Caiado, a quem apoia na corrida presidencial, e do vice-governador Daniel Vilela para o governo de Goiás, Zacharias descarta qualquer possibilidade de abrir mão da candidatura ao Senado, apesar das pressões de integrantes da base governista pela redução do número de pré-candidatos. O deputado também comenta o período em que foi cortejado pelo PL antes de retornar à base aliada e afirma que as divergências internas do partido de Jair Bolsonaro dificultam a construção de um projeto político consistente.

Ton Paulo – Durante algum tempo, o senhor ensaiou e sondou o cenário político de Goiás sobre a possibilidade de concorrer ao Senado. Agora, o senhor confirmou esse projeto e é pré-candidato. O que motivou essa decisão? Por que disputar uma vaga no Senado e não tentar a reeleição para a Câmara dos Deputados, já que o senhor é deputado federal e poderia ser reeleito?

Eu já venho trabalhando desde a última eleição para o Senado. Naquele momento, eu abri mão da candidatura em favor do Delegado Waldir. Só havia uma vaga, eu era do União Brasil, e o governador me chamou e disse que as pesquisas mostravam que eu estava bem, mas que o Delegado Waldir estava à frente.

Eu respondi: “Tudo bem, na próxima eu posso sair candidato”. Então, naquele momento, abri mão, disputei uma vaga para deputado federal, fui reeleito e, para esta eleição, eu já tinha decidido que sairia como pré-candidato ao Senado. Venho trabalhando nisso desde o início do meu mandato de deputado federal, porque achei que este era o momento.

Primeiro, porque são duas vagas, então a possibilidade é maior. Segundo, porque eu já estou com uma certa idade. Estou com 72 anos e, daqui a quatro anos, estarei com 76, então isso também pesa um pouco.

Aí eu pensei: “Não tenho outra opção, agora eu vou para o Senado”. E comecei a trabalhar. Passei a receber prefeitos e vereadores no meu escritório político, em Goiânia, e no meu gabinete, em Brasília, além de destinar emendas parlamentares para os 246 municípios.

Se você olhar no Portal da Transparência, vai ver. E fui trabalhando. Parece que a coisa começou a caminhar bem.

Também comecei a andar muito com o Bruno Peixoto, que é um parceiro mesmo. Passei a frequentar aqueles programas de deputados aqui, porque o mais difícil nesta eleição é fazer as pessoas saberem que eu sou pré-candidato ao Senado. Muitos não sabem nem que eu sou deputado federal, sabia disso?

Muitos me veem mais como médico. Tanto é que eu me apresento em todos os eventos, dizendo quem eu sou e qual é a minha trajetória. Com isso, as coisas começaram a fluir e eu comecei a receber apoios.

Hoje, nós já tivemos mais de 120 reuniões com prefeitos, vereadores e uma gama enorme de pessoas, além de representantes de várias entidades. Não apenas políticos, mas também formadores de opinião.

Temos realizado reuniões, por exemplo, na Acieg e no Secovi, apresentando a minha intenção de disputar uma vaga no Senado.

Zacharias Calil | Rahissa Pelles / Jornal Opção
” Muitos não sabem nem que eu sou deputado federal, sabia disso? Muitos me veem mais como médico”, afimra o deputado federal | Foto: Rahissa Pelles/Jornal Opção

João Paulo Alexandre – O senhor também deixou o União Brasil e foi para o MDB, partido do vice-governador Daniel Vilela. Essa mudança foi para viabilizar o seu projeto ao Senado ou houve outro motivo que o levou a trocar de partido?

Bom, na realidade, quando conversei com o ex-governador Ronaldo Caiado, em fevereiro, eu disse a ele que tinha a intenção de disputar uma vaga no Senado. Naquele momento, ele me respondeu que não haveria como, porque a chapa já estava formada, juntamente com a dona Gracinha Caiado, como pré-candidata, e também com Gustavo Gayer.

A partir dali, como todo mundo percebeu e viu pela imprensa, que divulgou amplamente o assunto, eu fiquei fora da base aliada. Não havia motivo para eu continuar, uma vez que eu já havia decidido ser pré-candidato ao Senado. Foi uma posição pessoal.

Muita gente pergunta: “Por que você quer ir para o Senado?”. Eu acredito que já cumpri o meu papel na Câmara dos Deputados. Já passei por lá e acho que este é um bom momento da minha vida. Depois, inclusive, a gente pode voltar a esse assunto. Então, fiquei aberto a convites de outros partidos.

Quando fui convidado pelo PL, o senador Wilder Morais me procurou. Vocês devem se lembrar de que eu estive naquela convenção em que Ana Paula Rezende foi lançada como candidata a vice-governadora. Também estavam presentes o ex-governador Marconi Perillo e outras lideranças políticas, ocasião em que conversamos sobre essa possibilidade.

Foi quando Daniel Vilela me procurou e perguntou em quais condições eu poderia voltar para a base. Eu respondi: “Olha, eu não tenho como”. Então, ele me disse: “Nós vamos estudar uma solução, porque eu te admiro muito e queremos você do nosso lado”.

Ton Paulo – Hoje, o senhor é um dos nomes da base para disputar o Senado e, inclusive, apresentou um crescimento expressivo nas pesquisas. No entanto, ainda há críticas. O Joel Sant’Anna, irmão de Alexandre Baldy, afirmou claramente que a base está pulverizada, com muitas pré-candidaturas, e que, se não houver o recuo de alguém, os três nomes da base, o senhor, Gustavo Mendanha e Vanderlan Cardoso, podem acabar perdendo. Como o senhor avalia esse cenário? Há pré-candidaturas demais?

Eu vejo a fala dele como algo natural. Talvez ele esteja defendendo algum interesse que eu desconheço, mas a minha posição é muito clara: eu não volto atrás.

Eu vou abrir mão para quem? Tenho o apoio da Executiva Nacional do MDB. O presidente Baleia Rossi me ligou e nós conversamos por telefone no dia em que assinei a minha ficha de filiação. Tenho todas as garantias de que eu seria o candidato natural do MDB.

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Zacharias Calil e Daniel Vilela | Foto: divulgação

Eu acho que estamos em uma democracia. Vejo como importante que o eleitor saiba em quem vai votar, entenda quem tem serviços prestados, quem é goiano, quem está aqui há muitos anos, nasceu, foi criado, estudou na universidade e construiu a sua trajetória no Estado.

Eu tenho uma história de 45 anos na medicina, atuando na área da saúde e realizando cirurgias. E há um detalhe importante: eu entrei na política depois de uma certa idade. Não entrei na política com um projeto de vida voltado para ser um político profissional.

“Eu não volto atrás. Eu vou abrir mão para quem?”, afirma Zacharias Calil | Foto: Rahissa Pelles/Jornal Opção

João Paulo Alexandre – Quem o senhor considera que são os seus concorrentes diretos na disputa pelo Senado?

Bom, eu vejo todos como concorrentes. Não faço distinção entre nenhum deles. O Gustavo Gayer é muito forte, nós sabemos do alcance que ele tem nas redes sociais. A dona Gracinha Caiado tem um trabalho ligado às ações sociais. O Vanderlan Cardoso é um senador respeitado e municipalista.

Eu também vejo o meu trabalho como municipalista, porque tenho desenvolvido um projeto voltado à destinação de recursos para os municípios do interior e realizado esse trabalho ao longo do mandato.

Agora, existem determinados aspectos que precisam ser analisados em um candidato. De que maneira ele melhorou ou pretende melhorar a vida das pessoas? Qual é o projeto que ele apresenta?

Um exemplo é a destinação de emendas parlamentares. Nós sabemos que o Gustavo Gayer nunca destinou emendas parlamentares ou, se destinou, foram poucas. Isso é uma opção dele, e eu não estou fazendo uma crítica. Ele decidiu não participar desse processo, e é um direito dele.

No entanto, eu considero que as emendas ajudam muito os municípios, porque nós fomos eleitos para isso. Quando um parlamentar devolve suas emendas, ele as devolve ao governo. Eu acredito que fomos eleitos para ajudar as pessoas e os municípios, e a destinação desses recursos faz parte desse trabalho.

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Zacharias Calil exalta trabalho de Gracinha Caiado na área social | Foto: divulgação

Também apresentei outros projetos que foram aprovados, como o que trata da customização de órteses e próteses para crianças, além da criação do Dia Nacional do Grego, do Dia Nacional das Malformações Vasculares, do Novembrinho Azul e do Outubrinho Rosa.

São projetos que tiveram repercussão em nível nacional. Por isso, eu sempre digo que é importante direcionar o voto para o candidato que realmente trabalha em prol da sociedade.

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Presença de Gayer nas redes sociais é um ponto positivo, destaca Zacharias | Foto: Câmara dos Deputados

Quando fui eleito deputado federal pela primeira vez, fiz campanha em apenas três cidades: Hidrolândia, Aparecida de Goiânia e Trindade. Mesmo assim, fui o terceiro mais votado do Estado. Foram as únicas cidades em que estive porque eu também não tinha recursos financeiros.

Como sou médico, priorizo a minha profissão quando estou em Goiânia. Por isso, não tenho muito tempo para percorrer o interior e nem estrutura financeira para manter uma agenda constante de viagens. Tudo isso exige organização e recursos.

Ainda assim, destinei muitas emendas parlamentares, entreguei máquinas e trabalhei pelos municípios. O que não houve, em muitos casos, foi a divulgação desse trabalho. Algumas prefeituras, inclusive, não me apoiaram politicamente.

Muitas vezes me perguntavam: “O senhor não veio aqui entregar as emendas?”. E eu respondia: “Mas o município recebeu os recursos”.

Eu era praticamente invisível até então. Quando me lancei como pré-candidato ao Senado, conversei bastante com o Bruno Peixoto, que me disse: “Nós vamos começar a divulgar o seu trabalho e o seu nome”. Foi aí que comecei a participar do programa Deputados Aqui.

Inclusive, hoje, quando participo de eventos da base aliada, costumo dizer que muitos ainda não me conhecem como deputado federal, mas sabem que sou o médico que, juntamente com a sua equipe, realiza cirurgias de separação de crianças siamesas. Quando eu digo isso, a reação das pessoas muda completamente. Por onde eu passo, as pessoas querem tirar fotos, me abraçam e demonstram carinho pelo trabalho que desenvolvo.

Vanderlan Cardoso é visto como um municipalista, segundo Calil | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

João Paulo Alexandre – O senhor tem outros planos na política para o futuro? Concorrer ao Executivo, por exemplo?

Não. Eu acho que isso envolve muita coisa, principalmente o seu CPF. Não tenho interesse em ficar respondendo a processos no âmbito do Ministério Público. Quem ocupa um cargo no Executivo é muito vigiado e, mesmo quando você não faz nada de errado, alguém pode fazer algo e você acabar tendo que responder por isso.

Ton Paulo – A gente sabe que, nestas eleições, talvez até mais do que a própria Presidência da República, os cargos mais visados sejam os do Senado. Tanto o PL quanto o PT têm demonstrado preocupação em eleger senadores, e sabemos o porquê disso. Os senadores possuem um poder muito grande, sobretudo em relação ao Supremo Tribunal Federal, que tem sido alvo de muitas controvérsias nos últimos anos. Como o senhor avalia a atuação do STF hoje?

Tem havido um abuso muito grande. Às vezes, eles passam por cima de muitas coisas que nós votamos. O governo recorre ao STF e, pronto, a decisão acaba sendo tomada lá.

Eu assinaria o pedido de impeachment do Alexandre de Moraes, como já assinei na Câmara. Também assinei o pedido de impeachment do presidente Lula. Só que a Câmara não tem a prerrogativa de levar isso adiante. Mesmo assim, eu assinei, sem nenhum problema.

Eu acho que vivemos em uma democracia. Se você é deputado federal ou senador e não está satisfeito com a atuação de alguém, tem o direito de se manifestar. Se é possível retirar um presidente da República do cargo, por que não discutir a permanência de um ministro do Supremo?

Zacharias Calil | Rahissa Pelles / Jornal Opção
Zacharias descarta concorrer cargo no Executivo: “Não tenho interesse em ficar respondendo a processos no âmbito do Ministério Público”, afirma | Foto: Rahissa Pelles/Jornal Opção

Ton Paulo – Mas há quem argumente que essa atuação considerada invasiva do STF acontece, sobretudo, em razão de uma certa inércia do Congresso Nacional ou da demora na apreciação de determinados projetos. Um exemplo citado é a PEC da escala 6×1, cuja discussão acabou sendo adiada. O senhor acredita que isso também contribui para esse cenário?

Existe isso, porque lá tudo é negociável. Se não houver acordo político, determinadas matérias acabam não avançando. Muito depende do Colégio de Líderes e da decisão de pautar ou não determinado assunto.

O presidente Lula discute os temas com a base e, no fim, a decisão fica nas mãos do presidente da Casa, que avalia se é viável pautar a matéria ou não.

João Paulo Alexandre – Entre os nomes colocados hoje para disputar a Presidência da República, qual o senhor considera mais preparado para governar o Brasil?

Eu acho que é o Ronaldo Caiado. Veja bem, ele é médico, tem uma trajetória consolidada na política e eu conheço o trabalho dele porque trabalhei ao seu lado. Foi deputado federal por vários mandatos, senador e governador mais bem avaliado do Brasil por duas vezes. Então, eu pergunto: qual seria o motivo para não votar no Caiado?

Acho que, nos debates, os demais candidatos terão dificuldades para enfrentá-lo, porque ele possui muito conhecimento, é uma pessoa estudiosa e não trabalha apenas no discurso. Ele gosta de apresentar resultados.

Além disso, tem um foco muito grande na segurança pública. Sabemos que ele é uma referência nesse tema, algo reconhecido amplamente. E segurança pública é um dos principais desafios do Brasil e, na verdade, do mundo inteiro.

Eu acredito que ele reúne todas as prerrogativas para chegar à Presidência da República. Agora, tudo vai depender de como será a disputa no primeiro e no segundo turno.]

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“Ele é médico, tem uma trajetória consolidada na política e eu conheço o trabalho dele porque trabalhei ao seu lado”, afirma Zacharias Calil sobre pré-candidatura de Caiado à Presidência | Foto: divulgação

Ton Paulo – Qual é a estratégia do senhor para manter essa tendência de crescimento nas pesquisas?

Agora já não é mais permitido, mas eu visitei vários municípios, entregando equipamentos adquiridos por meio de emendas parlamentares e realizando visitas institucionais. Também tenho recebido lideranças e apoiadores tanto em Goiânia quanto em Brasília.

A maior parte do meu eleitorado é formada por mulheres e pessoas mais velhas. Acho que isso está relacionado à sensibilidade que elas têm em relação ao meu trabalho. Eu sou médico e atuo realizando cirurgias em crianças, e isso acaba criando uma conexão muito forte com as pessoas.

Meu público é, majoritariamente, das classes D e E, e não das classes A e B. Acredito que a atuação na área da saúde infantil tem um impacto muito grande, principalmente quando envolve crianças carentes que nunca tiveram a oportunidade de receber um tratamento adequado.

Ton Paulo – Houve uma situação envolvendo o nome escolhido pelo senhor como suplente, Thales Jayme, que teve uma discussão com o prefeito Sandro Mabel nas redes sociais. Inclusive, o prefeito chegou a sugerir, em tom de insinuação, a realização de uma auditoria nas contas do Country Club durante a gestão do Thales. Como o senhor avalia esse episódio? Isso gera algum desgaste para a sua pré-candidatura?

Não, eu não acho que gere desgaste. Mas considero esse tipo de bate-boca nas redes sociais algo desnecessário. São pessoas adultas, que ocupam posições importantes e têm alto poder de decisão. Não havia necessidade de isso acontecer.

Eu conversei com o Thales, e o que ele fez foi ajuizar uma ação popular para impedir a derrubada das árvores no Parque Lago das Rosas. Ele conseguiu uma liminar favorável, e o Sandro Mabel ficou bravo com isso.

Eu sou sócio do Country Club, frequento o local e tenho amizade com alguns conselheiros. Se existe alguma acusação de corrupção lá dentro, ela precisa ser provada. Além disso, o Country Club não fica em Goiânia, mas em Aparecida de Goiânia.

De toda forma, esse assunto morreu por aí. Ninguém quis mais discutir a questão, e o próprio Sandro Mabel afirmou posteriormente que o tema estava encerrado.

Zacharias Calil | Rahissa Pelles / Jornal Opção
“A maior parte do meu eleitorado é formada por mulheres e pessoas mais velhas”, afirma Zacharias Calil | Foto: Rahissa Pelles/Jornal Opção

João Paulo Alexandre – O senhor é da área da saúde. Como avalia a aquisição, em andamento, de um novo prédio para o Hospital Estadual de Urgências de Goiás (Hugo)? Há críticas de que a unidade ficará muito distante da região central da capital.

Isso, para mim, é bobagem. O Hospital Estadual da Criança e do Adolescente (Hecad) também fica mais afastado, no Parque Santa Cruz. O Centro de Referência Estadual em Oncologia de Goiás (Cora) e o Hospital Estadual de Urgências Governador Otávio Lage de Siqueira (Hugol) seguem a mesma lógica. Portanto, esse argumento não passa pela minha cabeça.

Em casos de acidentes graves, já existe toda uma estrutura preparada para o atendimento. Temos helicópteros, equipes do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar e do serviço de emergência, que fazem o encaminhamento dos pacientes.

Além disso, o projeto foi totalmente planejado. Eu conheci a estrutura prevista e considero que ela atende às necessidades do serviço.

Ton Paulo – Há muitas críticas ao governo Lula, e o índice de desaprovação do presidente é considerável. Ainda assim, ele segue liderando as pesquisas de intenção de voto. Na visão do senhor, por que isso acontece?

Pelo menos no meio em que eu vivo, ele não tem toda essa aprovação. O que a gente percebe é que existe muita manipulação. Pesquisa pode ser feita de diferentes maneiras, dependendo da metodologia utilizada.

Muitas vezes, pesquisas também são utilizadas para valorizar determinados candidatos. O próprio governo pode divulgar levantamentos que favoreçam o nome que escolheu apoiar.

Eu, por exemplo, não tenho nenhum relacionamento com o governo federal.

A maior parte do nosso grupo político, que é de direita, também não tem qualquer relação com eles.

“Não tenho nenhum relacionamento com o governo federal”, afirma Zacharias Calil | Foto: Rahissa Pelles/Jornal Opção

João Paulo Alexandre – O governo Lula 3 teve algum acerto, na sua visão? Em alguma área específica?

Ele acerta apenas nessas questões relacionadas a benefícios sociais, como Bolsa Família e outros programas do tipo. Na visão dele, isso é um acerto, mas a economia não anda. Eu vejo as universidades sofrendo com falta de verbas, de investimentos em pesquisa e em tecnologia. Vejo um país que não se desenvolve como poderia.

Não consigo identificar acertos relevantes. Acho que o governo deveria acertar principalmente na economia. Existe também uma disputa constante em que eles estão sempre criticando a Faria Lima. No fim, acaba se colocando uma parcela da população contra a outra.

Você viu o que ele fez recentemente naquele gesto relacionado aos pobres. Esse é o papel de um presidente da República?

Ton Paulo – Zacharias, hoje existe uma crítica de que a direita, principalmente a direita bolsonarista, tem se perdido por não apresentar um projeto de governo e se concentrar apenas no antipetismo. Se pegarmos o discurso do Flávio Bolsonaro, por exemplo, ele passa boa parte do tempo criticando Lula e o PT, em vez de apresentar seus projetos. O senhor concorda com essa visão?

Não, não concordo. Eu acho que é preciso ter um projeto de governo. Como eu já disse, precisamos parar com essa polarização e colocar o Brasil no caminho que realmente importa, que é o desenvolvimento da economia.

O Caiado traz essa proposta de superação da polarização, e eu acho que, neste momento, isso é o ideal.

Não podemos continuar nessa lógica do “o Lula é isso” ou “o Bolsonaro é aquilo”. Não precisamos mais disso. Precisamos de propostas que coloquem o Brasil nos trilhos.

Ton Paulo – Zacharias, quando os debates sobre a escala 6×1 estavam no auge, foi apresentado um projeto que previa um prazo de até dez anos para que os efeitos da proposta começassem a vigorar. O senhor chegou a assinar esse projeto, mas depois retirou a sua assinatura. O que aconteceu exatamente naquela situação?

Bom, o que aconteceu foi o seguinte: aquela assinatura foi dada para apoiar a tramitação da proposta, permitindo que ela pudesse ser discutida e aprimorada.

Tanto que, posteriormente, o mérito da matéria passou a ser debatido. Muita gente me criticou por isso. Inclusive, teve um vereador, pré-candidato e irmão daquele delegado, que disse: “Quero ver se ele vai ter coragem de chegar lá e mudar de posição”. Mas você pode mudar de posição, por que não? Naquele momento, eu entendi que poderia retirar a minha assinatura para apoiar o fim da escala 6×1.

Inclusive, o Gustavo Gayer e outros parlamentares criticaram bastante o tema, mas todos assinaram a proposta relacionada ao fim da escala 6×1. Eu sou favorável à extinção desse modelo de jornada de trabalho.

Zacharias Calil em entrevista ao Jornal Opção | Foto: Rahissa Pelles/Jornal Opção