Edição 2655

De 24 a 30 de maio de 2026
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Os amendoins e os assovios

Fernando Cupertino

Especial para o Jornal Opção

Das minhas memórias de infância, o amendoim tem presença garantida em quatro situações: nos confeitos açucarados e multicoloridos de Dona Otávia; nos pés-de-moleque feitos por minha mãe; na canjica com amendoim que se comia na Sexta-feira da Paixão e, também, nos cajuzinhos de amendoim, que eram frequentemente servidos nas festinhas de aniversário.

Talvez alguém pense consigo mesmo: — Que falta de assunto, meu Deus! Amendoins?

Explico-me: neste momento estou na Guiné-Bissau, na costa oeste da África, numa missão de trabalho. É a terceira vez que venho ao país, cuja principal riqueza vem justamente da exportação da castanha de caju e do amendoim. Seu prato mais típico, o caldo de mancarra (que é o nome pelo qual o amendoim é conhecido aqui), é muito bom e forte. Consiste num cozido da pasta do amendoim triturado, à qual se juntam carne ou peixe, quiabo e umas folhas cujo nome não sei bem.

Lembranças da infância

Mas voltando às lembranças de infância, a mais doce e colorida é a dos confeitos fabricados por Dona Otávia e embalados em artísticos cartuchos de cartolina, como se fossem uma cornucópia. Os meninos que serviam de apóstolos na cerimônia do lava-pés, na Quinta-feira Santa, recebiam confeitos de presente, ao final da missa. Fora disso, também se podia encomendar aos quilos para festas especiais, tais como primeiras-comunhões, casamentos e bodas de prata ou de ouro.

pé de moleque 3

Sempre tive a impressão de que, se o paraíso tivesse gosto, não poderia ser outro que não o dos confeitos de Dona Otávia, para além da goiabada com queijo, naturalmente.

Já a tal canjica de amendoim — coisa de que nunca consegui gostar, por mais que me esforçasse, era prato obrigatório em casa de meus avós Luiz e Altair,  a fim de atenuar os rigores do jejum e da abstinência na Sexta-feira da Paixão, dos quais somente estavam desobrigados os doentes, as crianças e os idosos.

Apesar disso, havia sempre a insistência para que todos comêssemos aquela quase-sopa de milho com leite e amendoim torrado, que sobre mim nunca exerceu a mínima atração.

Já para o pé-de-moleque, o apetite era total! Feito a partir da rapadura de cana-de-açúcar, com amendoim torrado, era uma festa o dia em que corria a notícia de que estava se pensando numa sessão de trabalho que culminasse com uma boa quantidade de pé-de-moleque.

Tudo começava com o descascar dos amendoins, ofício para o qual, nós, crianças, também éramos requisitados.

Pé de moleque com rapadura 1

Afinal, haja paciência para retirar, uma a uma, as cascas que mais pareciam delicados estojos, dentro dos quais estariam apenas dois ou três caroços de amendoim. Para isso, sentávamo-nos no chão, tendo, de um lado, a saca de amendoins em casca e, de outro, um recipiente para receber os já desembainhados. Depois disso, levava-se ao forno para torrá-los e, finalmente, era preciso esfregar um punhado deles nas mãos, de cada vez, de modo a retirar a fina película que se desgarrava após a torrefação.

Daí em diante, eram minha mãe e minha avó que se ocupavam em preparar o doce, num grande tacho de cobre, mexendo sem parar com uma enorme colher de pau, até “dar o ponto”, trabalhando toda aquela pasta de rapadura derretida e amendoim triturado e mais alguns inteiros.

Vertia-se então aquela massa macia e açucarada sobre uma pedra, onde já se encontrava disposta uma fina camada de farinha de mandioca, que era para não deixar grudar o doce sobre a superfície. Feito isso, era esperar esfriar — ou arrefecer, como dizem os portugueses — para cortar os pedaços em forma de losangos. Hum! Uma delícia!

Porém, o mais interessante de tudo isso é que, tanto o descascar do amendoim ainda cru quanto a tarefa de limpá-lo daquela fina casca depois de torrado, eram atividades sob a estrita fiscalização de minha avó, que exigia que o trabalho fosse feito ao mesmo tempo em que todos devíamos assoviar continuamente. Sabedoria dos antigos, sem dúvida alguma, a fim de evitar a perda de muitos amendoins que, de outra forma, em lugar de irem parar na panela, teriam o fatal destino de serem sacrificados à gula dos pequenos trabalhadores.

Conheça uma antiga charada

“O que é, o que é: uma caixinha de bom parecer, que não há carapina que saiba fazer?” Resposta: o amendoim.

(Antiga charada que aprendi com meu pai.)

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.

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