Bastidores da venda do Grupo Jaime Câmara para o Grupo Zahran. 1 bilhão de reais em jogo?
23 maio 2026 às 21h00

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O jornal “O Popular” foi criado em 1938, há 88 anos, por Joaquim Câmara, secretário de Comunicação do interventor-governador Pedro Ludovico. Vigia a ditadura do Estado Novo (1937-1945), operada pelo presidente Getúlio Vargas com o apoio dos generais Góis Monteiro e Eurico Gaspar Dutra e Filinto Müller, o poderoso e brutal chefão da polícia.
No registro da venda do Grupo Jaime Câmara para o Grupo Zahran — que dirige a Rede Mato-grossense de Comunicação (RMC) — menciona-se a data de 1935. Talvez tenha sido o início do envolvimento dos irmãos Câmara, Joaquim, Jaime e Vicente Rebouças (todos falecidos), com a área de comunicação.
Em quase um século, o Grupo Jaime Câmara — antes, Organização Jaime Câmara —, nos seus jornais, emissoras de televisão e rádio, fez jornalismo de primeira linha. Sério, equilibrado e moderado. De alguma maneira, contribuiu, decisivamente, para o registro da história de Goiás e, também, do Brasil.
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História e profissionais gabaritados
A história vitoriosa e altamente positiva dos homens e mulheres que construíram os meios de comunicação do Grupo Jaime Câmara merece um livro alentado, como a biografia de Assis Chateaubriand escrita por Fernando Morais e publicada sob o título de “Chatô — o Rei do Brasil”. Há um livro sobre Joaquim Câmara, mas lacunar. Agora, com a história “fechada”, se se pode dizer assim, é hora de se publicar uma “biografia” da rede de comunicação mais poderosa de Goiás.
Não se pode escrever a história de Goiás, entre o século 20, a partir de 1938, e o século 21 sem consultar os arquivos de “O Popular”.

Joaquim Câmara, Jaime Câmara, Jaime Câmara Filho (conhecido como Júnior Câmara) e Cristiano Câmara, os proprietários, operaram o grupo com rara competência em quase 100 anos. Pode-se discordar, pontualmente, do jornalismo, sempre mais factual do que analítico, de seus meios de comunicação. Mas ninguém, em sã consciência, pode sustentar que não era e não é sério e equilibrado.
Vários dos melhores profissionais de Goiás passaram pela redação de “O Popular”. Entre jornalistas (alguns deles executivos na redação) merecem menção: Walder de Góes, Wagner de Góes, Domiciano de Faria, Reinaldo Rocha, Hélio Rocha, Herbert de Moraes Ribeiro (o fundador do Jornal Opção), Javier Godinho, Luiz Fernando Rocha Lima, Agnaldo Alves Farias, Isanulfo Cordeiro, João Unes, Cileide Alves, Silvana Bittencourt, Ana Cláudia Rocha, Robson Macedo, Luciano Martins, Malu Longo, Marcio Fernandes, Britz Lopes, Orlando Carmo Arantes, Maria José Silva, Luiz Gerci, Sebastião Pinheiro, Maria José Braga, Bruno Rocha Lima, Jarbas Rodrigues, Vassil Oliveira, Rosana Melo, Rogério Borges.
Na TV Anhanguera vale registrar o nome de Paulo Beringhs, José Divino, Márcia Elizabeth, Francesca Oliveira Kika e Jackson Abrão. Na equipe de apoio, como segundos dos proprietários, figuram Guliver Augusto Leão (diretor Jurídico e Relações Institucionais), Ronaldo Borges Ferrante (vice-presidente de Negócios) e Breno Machado (o CEO).
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Iris e a concessão da TV Anhanguera
Dada a seriedade, a TV Anhanguera nunca enfrentou problemas sérios com a Globo. A empresa nunca contraiu dívidas incontornáveis e seu jornalismo, dado o equilíbrio, não recebeu advertências da empresa da família Marinho. Pode-se sugerir que, por “excesso” de moderação, faltou arrojo, audácia ao jornalismo da emissora. Mas, quanto à correção, não há o que reclamar.

Consta que houve apenas um entrevero mais grave entre os donos da TV Anhanguera e da Globo. Há alguns anos, supostamente por causa de equipamentos — que não teriam sido emprestados pela emissora à nave-mãe —, houve um desgaste entre os Câmaras e os Marinhos. Daí teria havido problema na renovação da concessão.
Mãe de Júnior Câmara, a marchand Célia Câmara — mulher decidida — recorreu a Iris Rezende Machado, na época governador ou ministro, para garantir a renovação da concessão.
Discreto e eficiente, Iris Rezende foi ao Rio de Janeiro e conversou com o chefão Roberto Marinho, que intercedeu juntos aos filhos, Roberto Irineu Marinho e João Roberto Marinho, e a concessão foi mantida.
Numa entrevista ao Jornal Opção, na presença de vários jornalistas, Iris Rezende relatou que, por ter ajudado a renovar a concessão da TV Anhanguera, ganhou algumas ações, sem muito valor. Daí surgiu o mito de que seria “sócio” da emissora. Depois, o ex-governador deu as ações de presente de casamento.
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O Popular e a TV Anhanguera

Há uma crise na comunicação? Certamente, há. Porque mudou quase tudo. Nos últimos anos, “O Popular” passou a ter menos acesso do que o Jornal Opção. Eventualmente, pode até avançar. Mas, em 2025, ficou atrás nos 12 meses do ano.
“O Popular” é um jornal regional e, como tal, não é conhecido no país. Ao fechar seu material jornalístico, frisando que não era um veículo de cunho nacional, no lugar de ganhar, perdeu leitores. Aliás, perdeu leitores até em Goiás.
Dirão: a “Folha de S. Paulo”, “O Estado de S. Paulo”, “O Globo” e “Veja” também são abertos só para assinantes. De fato, são, ainda que algumas reportagens sejam liberadas.
Mas a questão central é outra: antes da internet, tais publicações já eram nacionais, ou seja, conhecidas em todo o Brasil. Então, conquistaram assinantes fora do Rio de Janeiro e São Paulo. Porém, um leitor de Minas Gerais ou da Bahia que não conhece “O Popular”, porque nunca o leu, vai assiná-lo por qual motivo? Não vai, é claro.
Costuma-se dizer que muito daquilo que “O Popular” publica fica “inédito”. Não procede, claro. Mas as reportagens poderiam ser mais acessadas se houvesse uma política de mais abertura. O jornal poderia “fechar” apenas matérias exclusivas, furos de reportagem.
“O Popular” ainda mantém uma equipe de jornalistas de qualidade, como Silvana Bittencourt, Cileide Alves (articulista, e cotada para reassumir a direção de redação), Rodrigo Hirose, Elder Dias, Fabiana Pulcineli, Márcio Leijoto, Caio Salgado.
A TV Anhanguera (foco de maior interesse do Grupo Zahran) faz uma cobertura adequada (de novo, falta certa audácia e cede-se, aqui e ali, ao “jornalismo de emoção”) dos fatos ocorridos em Goiás. Sua equipe inclui profissionais de qualidade: Lilian Lynch, Handerson Pancieri, Suelen Reis, Luciano Cabral, Luciana Martins, Fábio Castro, Rosane Mendes e Geovana Dourado.
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Não há sucessor da família Câmara

Se não há uma crise, por que Jaime Câmara Júnior decidiu vender o Grupo Jaime Câmara? Vale a ressalta de que o empresário permanece como acionista minoritário (tende a ser por pouco tempo, possivelmente; ou seja, até o novo grupo se firmar).
O Grupo Jaime Câmara foi, desde o início, uma empresa familiar — de Joaquim Câmara e Jaime Câmara até Jaime Câmara Júnior e Cristiano Câmara.
Por algum tempo, Jaime Câmara Júnior passou o bastão para o filho Cristiano Câmara.
Executivo, Cristiano Câmara fez uma série de mudanças, inclusive afastando colaboradores históricos e amigos do pai, e contribuiu para uma relativa modernização das empresas do grupo. Porém, no meio do caminho das reformas, pediu para sair.
Jaime Câmara Júnior, com o apoio de Breno Machado, Ronaldo Ferrante e Guliver Leão, voltou ao comando do grupo. Porém, com quase 80 anos, decidiu, por certo, que não dava mais. Havia chegado a hora de sair do negócio da comunicação. Nenhum de seus três filhos demonstrou interesse em dirigir o empreendimento.
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Atuação na área imobiliária
Em 2018, Jaime Câmara Júnior criou a Empreendimentos Imobiliários Rio Vermelho Ltda., conhecida apenas como Rio Vermelho. “Sua principal atividade é gestão e administração da propriedade imobiliária.”
Com o apoio da Construtora Opus — uma das mais qualificadas do mercado —, participa, direta ou indiretamente, da construção de edifícios em Goiânia. O Grupo Jaime Câmara tem — ou tinha — uma grande área na Serrinha, colada no Setor Bueno, nas proximidades da sede de seus veículos de comunicação. O terreno está ocupado por edifícios.
É provável que a área de comunicação apresenta mais dificuldades do que as áreas imobiliária e da construção civil.
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Grupo Zahran foi opção da Globo
Para manter a TV Anhanguera em dia com a TV Globo, uma empresa super moderna, é preciso fazer uma série de investimentos. O que talvez não interessasse mais a Jaime Câmara Júnior. Porque o custo de modernização de uma emissora de televisão é muito alto. Exige-se tecnologia de ponta, que é caríssima. É preciso renová-la sempre, o que, por vezes, gera dívidas.
Conta-se, no mercado persa da comunicação, que a Globo exige mudanças tecnológicas frequentes e nem sempre as emissoras são capazes de se manterem atualizadas. É o que estava acontecendo com a TV Anhanguera? Pode ser. Funcionários disseram ao Jornal Opção que, em termos de tecnologia, a emissora goiana estaria “ficando para trás”.
Como é que se vende uma afiliada da Globo? Primeiro, não se pode vender para qualquer um. A Globo precisa saber, antes, se a compradora tem know-how — expertise — para não deixar a peteca cair. Prioriza-se também, nos últimos anos, grupos que não sejam vinculados a políticos (a afiliada que dava mais trabalho à família Marinho é a do ex-presidente Fernando Collor em Alagoas).
Por isso, quando foi avisada que Jaime Câmara Júnior pretendia vender a TV Anhanguera, a família Marinho avaliou, de início, dois caminhos. Primeiro, assumir a afiliada. Segundo, vendê-la para um grupo conceituado e já parceiro da Globo.
A negociação entre o Grupo Jaime Câmara e o Grupo Zahran — presidido por Caio Turquetto — contou com a mediação do Grupo Globo. Comenta-se, nos bastidores, que a família Marinho intercedeu diretamente.
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Negócio de 1 bilhão de reais?
Nenhum veículo de comunicação, nem goiano nem nacional, publicou por quanto o Grupo Zahran comprou o Grupo Jaime Câmara. Por quê?

Porque nenhum dos dois grupos anunciou o valor. O Jornal Opção também não tem como apresentar um valor preciso. Mas vai divulgar o que ouviu nos bastidores.
A negociação entre os grupos Zahran — que tem emissoras no Mato Grosso do Sul e em Mato Grosso — e Jaime Câmara começou em 2018 — como, na época, anunciou, com exclusividade, o Jornal Opção. A venda teria esbarrado em conflitos na família Câmara — entre o “grupo” de Tasso Câmara e o “grupo” de Jaime Câmara Júnior. Houve um questionamento sobre a venda dos imóveis que sediam os empreendimentos de comunicação.
Oito anos depois, o negócio foi finalmente fechado, sob intermediação da Globo. Há quem fale em pressão, mas fica o registro de que as relações da Globo com a TV Anhanguera eram e são positivas. Os dirigentes da Globo respeitam a família Câmara. Foram mais de meio século de relacionamento — exatamente, 58 anos.
Fala-se, no mercado persa dos negócios, que o Grupo Zahran e o Grupo Jaime Câmara começaram a negociar com o valor de 1 bilhão de reais. É um valor muito alto? É, de fato. Mas o Grupo Jaime Câmara é rentável e o Grupo Zahran pode faturar ainda mais se contratar executivos arrojados e atentos às novas singularidade da comunicação.
O valor de 1 bilhão não tem a ver apenas com os meios de comunicação, portanto incluem os imóveis-sedes do Grupo Jaime Câmara. Considerando isto, o valor não é considerado tão alto.
Porém, um executivo disse ao Jornal Opção que o valor da venda pode ter caído para 700 milhões de reais, ou até um pouco menos. Por quê?, inquiriu o repórter. “Porque, embora o Grupo Jaime Câmara esteja ajustado, possivelmente com escassas dívidas, havia poucos (talvez nenhum, exceto o Grupo Zahran) interessados na sua aquisição. Adiante, no lugar de um valor mais alto, o grupo seria vendido por cerca de 500 milhões de reais, se tanto.”

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Júnior Câmara era o último tycon
O fato é que a venda do Grupo Jaime Câmara é o fim de um era na comunicação de Goiás.
Depois das mortes de Herbert de Moraes Ribeiro e Batista Custódio, do “Diário da Manhã”, Jaime Câmara Júnior era o último tycon, diria F. Scott Fitzgerald, da imprensa de Goiás.
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Comunicação e mercado de gás
Saiba quais meios de comunicação foram vendidos pelo Grupo Jaime Câmara ao Grupo Zahran: TV Anhanguera, “O Popular”, “Daqui”, “Jornal do Tocantins”, Rádio Executiva de Goiânia, Rádio Executiva de Palmas, Rádio Executiva de Araguaína, CBN de Goiânia, Mood FM, Rádio Araguaína de Gurupi e de Araguaína.
Fundada em 1965, a RMC dirige duas emissoras de televisão: a TV Morena, em Mato Grosso do Sul, desde 1965, e a TV Centro América, em Mato Grosso, desde 1967.
O grupo Zahran é dono da Copagaz e da Liquigás — engarrafadoras, distribuidoras e comercializadoras de Gás Liquefeito de Petróleo (GLP). É uma das maiores empresas do Centro-Oeste.
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O Popular ficará só no ambiente digital?
Diz-se que o Grupo Zahran tem mais interesse na TV Anhanguera do que nos jornais e nas rádios.
Ainda assim, espera-se que não acabe com o jornal “O Popular”. A tendência é torná-lo apenas digital, como muitos outros jornais.
A RCM não falou, em nenhum momento, em passaralho. É natural que troque executivos. Pela lógica, a coluna mestre do jornalismo deverá ser mantida. Por sinal, as redações da TV Anhanguera, de “O Popular” e das rádios estão enxutas.



