Memórias de formação, “Não Entender” exibe a vida plena da argentina Beatriz Sarlo, a Borges do ensaio
16 maio 2026 às 21h00

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Se há romance de formação, talvez não se deva descartar a ideia de que existem “memórias de formação”. “No Entender — Memorias de una Intelectual” (Siglo Veintiuno Editores, 207 páginas), da ensaísta e pensadora argentina Beatriz Sarlo (1942-2024), é um diamante para o cérebro dos leitores. É a história da constituição cultural e política da mais brilhante intelectual do país de Silvina Ocampo, Jorge Luis Borges, Mariana Enriquez, Julio Cortázar, Alejandra Pizarnik, Oliverio Girondo, Samanta Schweblin, Leila Guerriero e César Aira.
“Não Entender”, disponível apenas em espanhol¹, não são memórias amplas da notável Beatriz Sarlo. Mas são belas e substantivas. Os momentos narrados sobre sua vida — criança, adolescente e adulta — têm caráter epifânico. Desde o início, era independente.
Na infância, as presenças mais sólidas na sua vida foram tias professoras, um tio peronista e o pai, Saúl Sarlo Sabajanes, anti-peronista e alcoólatra (se dava bem com a filha).

Aos 6 anos, perguntou ao tio Fernando del Río o que era o peronismo. “Fernando me disse que o peronismo, à diferença de todos os políticos com os quais meu pai simpatizava, apreciava e respeitava os pobres.”
A fala do escritor solteirão influenciou a criança. Fernando del Río escreveu o romance “Los Olvidados. Gente Pobre en Tierra Rica”.
Na mistura de Céu e Inferno que é o mundo, a guia de Sarlo — assim como a de Dante — sempre foi Beatriz. A crítica, tão sóbria quanto contundente, abriu espaço à força, sem pedir licença. Cotovelando pela inteligência e preparo intelectual.
“Desde o final da adolescência, quando abandonei a casa familiar [ao 17 anos], me considerei em igualdade absoluta com os homens, ainda que percebesse que essa igualdade pudesse não ser reconhecida”, assinala.
Me dei conta (ao ver a encenação da peça ‘Júlio César’, de Shakespeare) de que a vida nunca é ordenada e que as coisas acontecem ao acaso, como caídas del cielo². (…) Minha cultura se formou regida pela lei dos acasos, desencontros e casualidades.” — Beatriz Sarlo
“Sempre me senti independente e nunca atribuí as derrotas a meu sexo, e sim à minha ignorância, minha estupidez [ou moleza] ou minha pressa”, sublinha. “Meu objetivo era a autonomia completa. (…) Ninguém toma a minha mão; não necessitava de condutor ou mestre. Havia alcançado a autonomia, porque tudo estava nos livros e os encarava por minha conta. (…) O futuro era, também, das mulheres.”
A contradição não é necessariamente dubiedade. Faz parte da riqueza dos seres humanos. Por isso, Beatriz Sarlo diz, de cara, que sua memorabília “não é um livro de recordações. É um livro de recordações. Entre estas duas proposições se moverá o texto. São minhas recordações dos outros”. O que se leu não é erro, é como a ensaísta expressa a ambiguidade da vida.
Falecida em 2024, depois de uma longa vida (82 anos) e uma larga história intelectual — na Argentina, nos Estados Unidos e na Inglaterra (Cambridge) —, Beatriz Ercilia Sarlo Sabajanes merece uma biografia ampla, talvez a ser escrita por Mariana Enriquez, autora de um estudo mignon mas de qualidade da vida de Silvina Ocampo (uma contista do balacobaco).
As memórias abrem as portas para um estudo que contenha outras vozes a respeito de Beatriz Sarlo. Mas a ensaísta deu pistas importantes, estradas talvez seguras para o futuro biógrafo (ou biógrafa).
“Será possível que eu escreva minha própria história?” O livro é a resposta. Sim, Beatriz Sarlo escreveu sobre sua própria história. Senti falta de uma coisa: como a autora escreveu seus melhores ensaios — sobre Borges, por exemplo?
Formada em Letras pela Universidade de Buenos Aires, Beatriz Sarlo escreveu muito sobre literatura, mas nunca deixou a política de lado.
“Fui simpatizante do peronismo no fim dos anos sessenta. Fui marxista-leninista pró-China na mesma década. Sou uma socialdemocrata hoje sem partido”, conta. “Me convenci de que não existia um partido no qual me sentisse em águas familiares.” Tornou-se uma “intelectual independente” — crítica e cética a respeito dos profetas das certezas.
Ao lado de Carlos Altamirano, María Teresa Gramuglio e Hugo Vezzetti, editou, “desde 1978”, a célebre revista “Punto de Vista”.
Beatriz Sarlo é claramente de esquerda, mas nada ortodoxa. Crítica, sem meias palavras, se tornou “odiada” pelo kirchnerismo, mas nunca foi amada pelos adversários do peronismo.
A infância de Beatriz Sarlo
Filha única e avessa a bonecas (desde cedo, sabia que não era e não seria uma pessoa comum), Beatriz Sarlo apreciava leituras. “A lei cultural era meu inconsciente.”
Lia vários autores, às vezes sem entender direito o conteúdo dos livros. Amado Nervo era um dos autores lidos.
Em termos de leitura, Beatriz Sarlo “não era curiosa, e sim faminta”. Por influência das tias professoras, leu “Huckleberry Finn” e “Tom Sawyer”, de Mark Twain. Livros sobre personagens, por assim dizer, tão rebeldes quanto a menina portenha.
Um tio presenteou-a com a coleção de histórias de Julio Verne (1828-1905) e Emilio Salgari (1862-1911).
O pai de Beatriz Sarlo recomendava a consulta ao “Diccionario de la Real Academia” e dizia: “Agarrá el mata-burros” (“pegue o pai dos burros”). Tenho o dicionário e realmente é muito bom, mas não deixo de consultar o “Dicionário Espanhol-Português” (Villa Rica, 1377 páginas), do brasileiro A. Tenório D’Albuquerque. Porque inclui milhares de vocábulos da América Latina. Vasculho também o “Dicionário de Lunfardo”, de José Gobello (Silvina Ocampo, Jorge Luis Borges e Julio Cortázar usavam a gíria portenha na sua literatura).
Mesmo sem nenhuma formulação, pois não estava preparada para apresentá-la, Beatriz Sarlo diz que, desde menina, era rebelde. “Não tinha vontade de ser homem, e sim de persistir num espaço neutro, no qual sentia que eu era, era eu, era eu.”
“As rupturas não são um simples impulso do instinto, e sim uma meditação cega ou luminosa”, assinala.
Quando surgiu a “rebelde” Beatriz Sarlo, a menina que queria se posicionar a respeito dos fatos, desde muito cedo? “Nunca se sabe com certeza qual é o momento que podemos chamar de ‘começo’.”
Na escola, alguém da família, em geral uma tia, ouvia: “A menina é inteligente, mas insuportável”. Aos 12 anos, buscava ter autonomia. Nunca abdicou de expor suas ideias, mesmo nadando contra a corrente dominante (noutro livro, relata que passou a discutir as ideias de Raymond Williams, o grande intelectual galês, quando outros intelectuais argentinos estavam aferrados aos postulados de Michel Foucault e Claude Lévi-Strauss).
“Como pôr para lavar pisos uma menina que, depois de ver ‘Júlio César’, de [Joseph] Mankiewicz, se disfarçava com uma toalha e, na cozinha da casa, recitava o começo do discurso de Marco Antônio, convencida de que a ela estavam destinadas as palavras que pronunciava Marlon Brando: ‘And Brutus is a honorable man’?”
A adolescente nem sabia que Brutus havia matado Júlio César e tampouco que se tratava de um drama de William Shakespeare. Havia ficado entusiasmada com o belo e carismático ator americano do norte Marlon Brando. “O cinema e suas estrelas estavam acima de Shakespeare.”
(Trinta anos depois, Beatriz Sarlo viu a peça “Júlio César”, apresentada num galpão. “Me dei conta de que a vida nunca é ordenada e que as coisas acontecem ao acaso, como caídas del cielo. (…) Minha cultura se formou regida pela lei dos acasos, desencontros e casualidades.” Desta vez, percebeu que a frase “Brutus é um homem honrado” era uma ironia. Marco Antônio queria dizer o contrário.)
Beatriz Sarlo diz que uma linha de Shakespeare — “Brutus é um homem honrado” — se tornou, para ela, “um acontecimento iniciático”.
Bem jovem, leu “La Vida es Sueño”, de Calderón de la Barca (1600-1681), e nada entendeu. “Dom Quixote”, de Cervantes, também não lhe entrava na cachola.
O desejo de saber, sem nenhuma orientação consistente, era a norma de vida da adolescente. “Meu temperamento era voraz. Como escreveu Sartre, quiçá seja possível curar uma neurose, mas não é possível mudar um temperamento.”
Pode-se falar em gosto inato pela alta cultura — por Shakespeare, por exemplo? Beatriz Sarlo avalia que não. “O bom gosto resulta de um longo e persistente [a palavra usada é “teimoso”] trabalho.”
Na Belgrano Girls’ School, como havia uma biblioteca de livros ingleses, Beatriz Sarlo leu Walter Scott, Robert Louis Stevenson, Shakespeare e Oliver Goldsmith (“She Stoops to Conquer”).
A irlandesa Mrs. Young era a diretora da escola. Miss Nell, sua filha, e miss Jacqueline Scally, irlandesas, eram professoras. O conto “Os Mortos”, de James Joyce, não estava entre as leituras da jovem.
Por falar alto e ter modos tidos como descontrolados, além de não ser da elite (era da classe média), Beatriz Sarlo não era uma das favoritas de miss Scally. Mas era a campeã em leituras.
A escola repassava para as alunas a antologia de prosa e poesia “Reading and Thinking”. A aluna atenta copiava as ilustrações de Aubrey Beardsley, sem saber de quem se tratava, e lia Walter de la Mare.
Evita: encanto da beleza e das roupas
Eva Perón, mulher do presidente Juan Domingo Perón, morreu em 1952. Aos 11 anos, Beatriz Sarlo participou de um concurso nacional de redação e, dada a menção honrosa, ganhou um exemplar do livro “La Razón de Mi Vida”. Leu trechos e, entediada, deixou-o de lado.
Nos tempos do rádio, Beatriz Sarlo apreciava ouvir a voz de Evita Perón e admirava sua beleza e suas roupas. Estava sempre olhando suas fotografias no diário “El Mundo”.
“A beleza de Eva exercia sobre mim um impacto análogo ao que exercia sobre os ‘pobres’”, escreve Beatriz Sarlo.
O pai de Beatriz Sarlo, que abominava Evita Perón e Juan Domingo Perón, dizia: “Nos governa uma bataclana”³. Ela respeitava o pai, “mas admirava Eva”.
“Assim me formei: escola de elite e horas escutando rádio ou indo ao cinema ver filmes argentinos” (não diz quais). “Mais que a política, me interessavam as atrizes.”
“Minha educação teve seus primeiros mestres no cinema nacional e no rádio. Creio que esses anos iniciais me imunizaram para sempre contra o enamoramento tardio da cultura industrial.”
“Combinava ridiculamente as radionovelas com os poemas de Amado Nervo ou de Manuel Acuña”, admite Beatriz Sarlo.
Fernando del Río, sem monitorá-la, contribuiu para seu envolvimento com o mundo da cultura. Amigo de Fernando Fader, mostrou-lhe sua pintura. Conversavam sobre Rubén Darío e Amado Nervo. O tio, que recitava Almafuerte e Evaristo Carriego, era exceção, em termos de cultura e ideologia, na família.
A relação com a mãe não era das melhores. Ela disse que Beatriz Sarlo não tinha alma e rasgava livros que considerava amorais, sem ter lido, como “As Flores do Mal”, de Baudelaire. A jovem preferia as tias à mãe.
Beatriz Sarlo tinha o hábito de ler até tarde da noite. Então, a mãe entrava no quarto “e gritava: ‘Até quando você vai seguir gastando energia elétrica?’”.
A cidade amada por Beatriz Sarlo, desde sempre, foi a capital da Argentina. “Adorei Buenos Aires antes de saber, ou de reconhecer, que se pode adorar uma cidade com a mesma intensidade com que se ama a um ser humano. Nunca pude abandoná-la por mais de seis meses seguidos, nem sequer durante a ditadura militar” (1976-1983).
“Adorei e adoro o espanhol de Buenos Aires. (…) Buenos Aires foi minha casa.”
Beatriz Sarlo nunca esquece um conselho (um “slogan”) do pai, Saúl Sarlo: “Nesta vida é preciso olhar pra cima e pra frente” (“mirar para arriba y para adelante”).
A ensaísta diz que gostava dos defeitos do pai. “Como disse Hermann Broch sobre sua mãe: os defeitos me excitavam e as virtudes não. Um erotismo dos defeitos me unia a ele profundamente. Foi meu tipo de homem em sua permanente escolha de caminhos que o desviavam daquele que indicavam como apropriado. Não encontrei em nenhuma mulher um modelo com a mesma capacidade persuasiva. Meus modelos sempre foram homens.” Os dois primeiros foram Saúl Sarlo e Jorge del Río.
“Amarás os livros acima de todas as coisas“
Do pai, Beatriz Sarlo herdou um exemplar de “Don Segundo Sombra”, de Ricardo Güiraldes (1886-1927). “Livro que conservo — eu que não conservo nada.”
“Meu pai, que adivinhava meu desejo de aprender tudo o que se considerava alheio a uma menina, se comportava como se fosse um opositor cego aos lugares designados pela cultura.” Mesmo sendo conservador. “Acontece com algumas pessoas excepcionais que seu temperamento se opõe à sua ideologia, como se derivassem de dois comportamentos separados.”
O fato é que, dado o convívio com o pai, Beatriz Sarlo se tornou uma mulher (e intelectual) independente, sempre pensando pela própria cabeça. Desde jovem, “desprezava a obediência às regras e aos conselhos. Eu não queria ser boa. Queria ser original”.
Saúl Sarlo não agradava sua mulher. “Isso me atraía. Provavelmente eu não queria satisfazer ninguém, e sim irritar ou fascinar.”
As tias eram professoras e levavam uma vidinha comum. “Eu proclamava, convencida e desafiante, que não estudaria para ser mestra.”
Aos 15 anos, Beatriz Sarlo tomou uma decisão, influenciada por Jorge del Río: comunicou ao pai que, “no futuro, pensava se tornar peronista”. Chegou a distribuir panfletos pró-peronismo, sob orientação do tio.
Ao entregar folhetos, Beatriz Sarlo encantou-se com as ruas, com suas vozes variegadas. “Falar com desconhecidos segue sendo para mim uma forma surpreendente de diálogo.”
Convidada por um jovem comunista, participou de um baile no Luna Park. “Começaram minhas andanças com estranhos.”
Beatriz Sarlo começou a beber, mas pouco. “Minha obsessão pelo trabalho (pela escritura, diria, se não fosse petulância) e durante décadas pela política construiu uma espécie de barreira contra certas inclinações. (…) Não me tornei alcoólatra porque gostava de ler e escrever.”
O primeiro mandamento de Beatriz Sarlo era a cultura. “Amarás os livros acima de todas as coisas — acima da diversão e do tédio.”
O avanço na seara cultural foi solitário por algum tempo, sem mestres. Mas aos poucos eles foram aparecendo. “Com Wanda Wisé [professora de francês] li meu primeiro poema sério: ‘Le dormeur du val’, de Rimbaud.”
Em seguida, leu a poesia de Baudelaire. Beatriz Sarlo recitava o primeiro verso de “Correspondances” — “La nature est un temple où de vivants pilliers” — até pouco antes de morrer.
“O Pequeno Príncipe”, presente de Wanda Wisé, não agradou a Beatriz Sarlo. Achou-o aborrecido. Mas gostou de “Le Grand Meaulnes”. Continuava a leitura de Stevenson (uma das admirações de Borges) e Salgari, embora não pudesse ainda notar suas diferenças. Leu toda a coleção de Robin Hood.
Na Calle (rua) Echeverría, na casa da sra. Alter, Beatriz Sarlo viu pela primeira vez um grande piano. Quando escutou Stravinski, ficou intrigada, sem entender (a ensaísta lembra que Victoria Ocampo “teve uma iluminação estética ao ver e ouvir ‘O Pássaro de Fogo’, de Stravinski, bailado por Nijinski)”.
Beatriz Sarlo se tornou aficionada da música erudita, capaz de escutar, por quatro horas, o Quarteto para Cordas nº 2 de Morton Feldman. Frau Alter havia despertado o gosto musical na menina.
“Assim são as coisas, uma mescla de acaso e direções que ninguém conhece”, afirma Beatriz Sarlo.
Frau Alter convidou Beatriz Sarlo para assistir um concerto — um ciclo de músicas de Richard Wagner — no Teatro Cólon, o melhor e mais bonito de Buenos Aires. Sua mãe não permitiu, alegando que a menina já havia assistido um espetáculo musical. Avaliava que, indo uma vez, não precisava ouvir outra.
Desconfiar é arma essencial da leitura
Um dos melhores capítulos do livro é o terceiro, “No Entender” (“Não Entender”).
“Não entender foi minha experiência primeira e definitiva. (…) convencida de que entender era um trabalho, me acostumei a que esse trabalho fosse um prazer. Nem o caminho da arte nem o do pensamento são uma linha reta”, assinala Beatriz Sarlo.
“A arte é negatividade, não é afirmação plena.” Para entender Mallarmé, um dos poetas mais complexos, não basta ler toda sua poesia. É preciso estudá-la, inclusive com o apoio de guias críticos.
Amante dos desafios, Beatriz Sarlo sempre procurou examinar obras de arquitetura e de arte, como a Capela Sistina e o quadro “Guernica”, de Pablo Picasso, com o máximo de atenção. A modernidade chegou à ensaísta pela arquitetura. “A modernidade é meu único passado. Necessito saber para sentir.”
“A dificuldade é uma das qualidades fundamentais da arte.” Por isso, sugere, é preciso estudá-la, não apenas observá-la como o turista.
Desde o início, na observação da arte e no estudo da literatura, é preciso admitir que não entender é crucial. “Ulisses”, de James Joyce, é um romance complexo. Para entendê-lo, para sentir prazer estético, às vezes é preciso ler os estudos de Richard Ellmann, Anthony Burgess, Edna O’Brien e, mais recentemente — para quem é brasileiro —, o excelente guia escrito pelo tradutor e crítico Caetano Galindo.
“A arte exige uma ética do trabalho. Não entender [no entender] é o capítulo inicial de uma viagem. (…) Não entender o ‘Quixote’ é pôr-se em condições de lê-lo. (…) Não entender as obras é começar a entender algo sobre elas.”
Beatriz Sarlo enfatiza que “a experiência de não entender é uma base da arte em que nos formamos homens e mulheres do século 20”.
As vanguardas do século 20, na literatura, na música e nas artes plásticas, criaram obras mais complexas, não exatamente para dar mais trabalho aos leitores, aos ouvintes e observadores, e sim para melhorar ou ampliar o gosto estético.
Ante o cansaço de ver o óbvio, de tanto ser visto e discutido, o moderno criou novas estradas — por vezes, íngremes — para os que querem rever a questão do belo, do elaborado.
“Ao desestabilizar o conhecido e propor formas ‘que não se entendem’, a arte da modernidade produz as condições de percepção do novo”, postula Beatriz Sarlo.
O verso “La mer, la mer, toujours recommencée!”, de Paul Valery, é simples e sofisticado? “Não designa o mar que se repete, e sim o mar que se renova. (…) Valery fala sobre a essência do repetido que é o novo começo, não cópia exata do anterior. O mar possui essa qualidade de repetir-se mudando.” A velha e atual lição do grego Heráclito.

Borges escreveu: “La calle sin vereda de enfrente”. Beatriz Sarlo: “Essa ‘rua sem vereda em frente’ não designa somente uma forma incompleta da cidade nova ao contemplá-la desde suas margens. Não entender é desconfiar dessa simplicidade. Com efeito, a desconfiança é uma arma essencial da leitura”.
“Não entender pode produzir, com sucesso, o reconhecimento do que falta para entender: abre uma paisagem nova, porque obriga a mirar noutras direções”, diz Beatriz Sarlo. É preciso “aceitar o não entender como um capítulo essencial e indispensável da compreensão”.
“Do não entender ao entender se precisa de tempo”, indica Beatriz Sarlo.
Ao tentar ler “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal, quando adolescente, não entendeu a mescla de ficção com a ação histórica. Mais tarde, percebeu o quão encantador o romance era.
“Ulisses”, de Joyce, que trata da vida de um homem comum, Leopold Bloom, é um romance incomum, de difícil entendimento. O leitor, ante a primeira dificuldade, deve parar a leitura? Não. “É imprescindível seguir lendo.”
Beatriz Sarlo tentou ler “Ulisses” em inglês. Era tão difícil que acabou pensando que não sabia inglês.
“Não entender é a promessa da literatura e da arte. Quem persiste, à frente, a crítica poderá ajudar.” Autores como Pierre Francastel e Erich Auerbach podem, adiante, dar suporte ao leitor mais interessado nas nuances.
“O Capital” deu dor de cabeça em Beatriz Sarlo. Mas ela o leu com atenção na tradução de Wenceslao Roces, de capa dura e papel fino, o que, conta, atrapalhava seu hábito de sublinhar. O livro era lido dentro de ônibus e praças.
Um “companheiro que havia estudado com Lucio Colletti, na Itália, instruiu Beatriz Sarlo e outro na “Ciência da Lógica”, de Hegel.
Tulio Halperin Donghi e David Viñas
Beatriz Sarlo não se tornou Beatriz Sarlo de uma hora para outra. “Fui aprendiz de repórter em um programa de rádio do Instituto Di Tella, a instituição do vanguardismo na Argentina.”
A descoberta de um mestre, o historiador Tulio Halperin Donghi (1926-2014), argentino que dava aulas em Berkeley, foi decisiva para a geração de Beatriz Sarlo. “A prosa de Halperin foi lendária entre admiradores e críticos.”

Beatriz Sarlo diz que, “como historiador, não sucumbiu a nenhuma ilusão gratificante, moralizadora. Não buscava estabelecer uma verdade que servisse de justificação no campo político”. Halperin Donghi era também crítico da “história liberal”.
Halperin Donghi era, como historiador e indivíduo, um “pessimista agnóstico”. “Halperin não acreditava nos fins inevitáveis” — o liberalismo vai ser aquilo (“o fim da história”, por exemplo) ou o comunismo vai ser aquilo (o paraíso, na sua última etapa) — nem nos que projetavam um futuro radioso.
O historiador “não acreditava em nenhum Ser ou Destino que dera fundamento à nação”.
Donghi era crítico da ditadura militar, mas também mostrava a inconsistência do populismo (peronista) e de seus dirigentes (como Perón).
David Viñas (1927-2011), com seu “Literatura Argentina e Realidade Política” e palestras, foi outro mestre para os intelectuais argentinos.
Quando voltou do exílio, David Vinãs, sem dinheiro, “viveu umas semanas no escritório da revista ‘Punto de Vista’”.
David Viñas não apreciava Borges, o que irritava Beatriz Sarlo. “Fui sua aluna, de maneira infiel, a única maneira que David admitia.”
Em meados da década de 1990, Beatriz Sarlo começou a publicar na imprensa argentina. Na revista “Vida”, do “Clarín”, passou a escrever uma matéria por semana. Trabalhou para o jornal durante cinco anos. Os amigos intelectuais criticavam sua adesão ao “jornalismo de massas”.
Despreocupada com a patrulha dos amigos, ela adorava andar pelas ruas de Buenos Aires em busca de temas para sua coluna dominical.
Depois, começou a escrever no “Página/12”, “Télam”, “La Nación” e “Perfil” sobre política, cotidiano e literatura. Escrevia por prazer, para interferir na vida do país e para sobreviver.
Beatriz Sarlo estudou Filosofia, mas acabou se formando em Letras.
Entre os prazeres de Beatriz Sarlo estava a visita às livrarias, como Letras, Verbum e Galatea (especializada em livros franceses).
Os professores Jaime Rest, adjunto de Borges, e Hugo Cowes abriram os olhos da jovem para a grande literatura. Beatriz Sarlo ressente-se de não ter falado com Jorge Luis Borges na faculdade.
Rest “ensinou” Beatriz Sarlo a retirar o máximo de um poema, “O Tigre”, do britânico William Blake. “Aprendi que um poema não é apenas sucessão, e sim espessor semântico, sonoro e espacial de figuras”.
Hugo W. Cowes (1915-2001) incentivou Beatriz Sarlo e sua turma a ler Proust, Joyce, Faulkner e Musil. “Pude avançar com Proust, mas não com Musil, cujo mundo vienense estava demasiado distante de minha cultura, de minha fantasia, e todavia não havia se convertido em desejo. ‘O Homem Sem Qualidades’ foi inexpugnável.”
O filósofo Héctor Raurich pediu para Beatriz Sarlo traduzir trechos dos “Cantos” de Ezra Pound. Descobriu, então, que não bastava saber inglês. Era muito difícil verter a poesia de Pound para o espanhol. “Ninguém me havia avisado que conhecer uma língua e traduzi-la eram duas capacidades completamente diferentes. Nunca havia lido algo tão incompreensível.”
Raurich sugeriu que a jovem lesse “Baudelaire”, de Sartre, e um ensaio de Heidegger “sobre os sapatos de Van Gogh”. “Não entendi uma frase.”
“A Morte de Ivan Ilich” foi a sugestão seguinte de Raurich. “Foi meu primeiro Tolstói.” Não chegou a admirar muito a novela, ao menos na juventude.
Em 1966, o diretor da “Revista Iberoamericana”, Alfredo Roggiano, convidou Beatriz Sarlo para ser professora-visitante da Universidade de Pittsburg. Não quis ir. “Ainda que possa pensar e ser pensada como cosmopolita, não o sou.”
“Não podia me imaginar fora da paisagem de Buenos Aires. Não me sentia latino-americana, e sim argentina e portenha”, relata a ensaísta.
Naquele mesmo ano, Beatriz Sarlo concluiu sua dissertação de licenciatura sobre Juan María Gutiérrez, publicada em 1967.
Editora e paixão por Roland Barthes
Formada, Beatriz Sarlo começou a trabalhar como revisora de traduções para o editor judeu Boris Spivacow, da Editora Eudeba, e para o historiador Gregorio Weinberg. Sua parceira de trabalho era Susana Zanetti, de quem se tornou amiga.

Para provocar Beatriz Sarlo, Susana Zanetti dizia que “José Hernández era mais importante do que Balzac”.
“Ao editar traduções e originais”, para a Eudeba, “aprendi a escrever o que depois chamaria ‘um livro’. Essas tarefas me ensinaram a evitar as repetições e me indicaram as mudanças de tom dos gêneros acadêmico ou ensaístico”. Ela, Susana Zanetti e Horaco Achával (com quem aprendeu a gostar de tango) riam dos erros cometidos pelos autores dos livros.
Beatriz Sarlo passou a escrever fascículos de divulgação para o Centro Editor da América Latina. O material saiu como livro — “La Historia de la Literatura Argentina” — e, segundo a autora, se “converteu em um clássico”. “Foi a primeira história da literatura argentina que se vendeu (e esgotou) em kioscos” (quiosques).
No escritório da editora, o editor da revista “Sur”, o escritor José (Pepe) Bianco, disse: ‘Essa jovem é parecida com a Virgem das Rochas”. Trata-se de uma referência ao quadro de Leonardo da Vinci. Bianco valorizava Beatriz Sarlo por ler Balzac em francês.

Na Livraria Galatea, Beatriz Sarlo comprava livros franceses e lia a revista “Communications”. Lá comprou “Mitologias”, de Roland Barthes. “O último capítulo, ‘Le mythe, aujourd’hui’, foi o texto teórico inaugural que li com clara consciência de que tudo anterior retrocedia até o passado. Me tornei fanática por Barthes, a quem nem sequer podia copiar. Simplesmente o admirava esperando o momento em que estivesse a meu alcance imitá-lo”.
Lia também Viñas, autor de “Literatura Argentina y Realidad Política”. “Eu estava dividida entre essas duas águas: o formalismo inteligente de Barthes e o historicismo sensível de Viñas”, conta Beatriz Sarlo.
Beatriz Sarlo assinala que, no percurso, mudou de ideia algumas vezes. Por isso não aprecia opiniões cristalizadas, que não mudam.
A ensaísta postula que “as agressões [as críticas duras] são mais valiosas que os elogios. Um elogio pode ser fingido. Mas é difícil fingir uma agressão, que sempre soa sincera. (…) Construo frases agressivas inclusive quando estou elogiando”.
Autora de “Mujer de Cierto Orden”, Juana Bignozzi é, de acordo com Beatriz Sarlo, “uma mestra da ironia agressiva e da ironia sentimental”.
Beatriz Sarlo diz que tinha o hábito de deixar livros de Juana Bignozzi sobre mesas de café, assentos de ônibus-coletivos ou escritórios alheios. Era uma maneira de contribuir para a leitura de sua obra.
“Juana me ensinou, e é a maior sabedoria dos homens e mulheres sem deuses, que a pergunta ‘quem somos?’ não tem resposta. Mas que se mantenha aberta, como uma prolongada insegurança da razão”, anota Beatriz Sarlo.
Apesar da paixão por Buenos Aires, a cidade dos cafés, das casas de tango, dos teatros e das livrarias, Beatriz Sarlo , intelectual de porte global, deu aulas nos Estados Unidos e na Inglaterra. Foi colega do escritor José (Pepe) Donoso no Wilson Center de Washington. Ela e o autor do boom latino-americano se tornaram confidentes.
Richard Morse, que circulou pelo Brasil, deu dicas para Beatriz Sarlo sobreviver no meio universitário americano.
Em 1985, Beatriz casou-se com o cineasta argentino Rafael Filippelli (morreu em março de 2023; já estavam separados).
Os homens, o amor e a razão
Beatriz Sarlo diz que manteve “relações profundas e, ao mesmo tempo, utilitárias” com os homens. Os laços “não eram só sentimentais”. Aos 17 anos enamorou-se de um pintor. Aos 23 de um estudante de arquitetura (Alberto Sato). Aos 30 de um marxista. Aos 40 anos de um diretor de cinema e expert em jazz (Rafael Filippelli). “Nunca competi com esses homens e os ajudei como pude. Feitas as contas, recebi em troca mais do que dei.” Nos relacionamentos buscava mais do que o passional.
Rafael Filippelli contribuiu para aumentar o interesse de Beatriz Sarlo por cinema e jazz. Nos Estados Unidos, no famoso Bradley’s, ouviu Red Mitchell, Joanne Brackeen, Eddie Gómez, Kenny Barron, Rufus Reid, Art Blakley e Cecil Taylor. “Bradley’s era um lugar de piano e contrabaixo. Conheci dezenas de bares de jazz em Manhattan. Nenhum como o Bradley’s.”
Como dito, Beatriz Sarlo manteve certa empolgação com o peronismo, dada sua preocupação com os pobres. Chegou a ser, na juventude, “fanática” pelo líder egípcio Gamal Abdel Nasser (1918-1970). A Revolução Cubana de 1959 também a empolgou, ao menos por algum tempo.
Intelectual de interesses múltiplos, como música e cinema, Beatriz também se interessava por arquitetura. “Aprendi a ver o que não sabia. (…) Gostava de oscilar entre disciplinas diferentes, tentação que nunca me abandonou desde então. Aos 14 anos já era evidente que não tinha interesse em ser uma especialista.” Porém, a rigor, se tornou uma notável especialista — ensaísta — em literatura e nas ideias (talvez deva ser considerada como filósofa, no estilo do brasileiro José Guilherme Merquior, que era sociólogo por formação).
Antes de conhecer Brasília, nos anos 1960, Beatriz Sarlo examinou, com extrema atenção, fotografias da cidade — que achou belíssima.
“Decidi que gostava muito mais do Palácio Itamaraty de [Oscar] Niemeyer (sede do Ministério das Relações Exteriores que tudo de [Filippo] Brunelleschi”, escreve Beatriz Sarlo.
A arquitetura moderna, de Le Corbisier, Lucio Costa e Oscar Niemeyer, atraía o interesse intelectual de Beatriz Sarlo. “Brasília foi minha primeira grande experiência urbana fora de Buenos Aires.”
“O edifício do Ministério da Educação e Saúde desenhado por Lucio Costa e Oscar Niemeyer (no comando de um grupo de modernistas sob o olhar de Le Corbusier) não estava propriamente em Brasília [fica no Rio de Janeiro], nem suas janelas se abriam para um parque desenhado por Burle Marx”, comenta Beatriz Sarlo.
“Voltei várias vezes ao Brasil. Fiz amigos, conheci grandes intelectuais como Antonio Candido, visitei museus e bibliotecas.” Conversou com o argentino Jorge Schwartz, na época diretor da Biblioteca da Univesidade de São Paulo.
Nas páginas finais, Beatriz Sarlo volta a mencionar o escritor austríaco Hermann Broch. “Sem ter lido Hermann Broch, sabíamos que as coisas expressam nosso mundo e que certamente sua força simbólica é inclusive mais poderosa que sua utilidade ou o seu preço.”
“Em suas conversações, Bertolt Brecht disse para Walter Benjamin que ‘a exatidão de Kafka é a exatidão do inexato, do sonhador”, diz Beatriz Sarlo.
Como fazer um balanço da vida? Se Beatriz Sarlo tivesse feito outra coisa, e não o que fez, como seria sua história? “As oportunidades perdidas são um campo fértil para o pensamento retrospectivo: se tivesse agido de tal modo, haveria… (…) De repente, me vem à memória uma frase de Thomas Bernhard [escritor austríaco]: ‘A morte é a meta’. (…) Em ‘Scritture Estreme’, Franco Rella cita um aforismo de Kafka: ‘Há um ponto desde o qual já não é possível o regresso. Este é o ponto a alcançar’”.
Beatriz Sarlo teve uma vida plena, sem lamentações. Possivelmente, é a maior intelectual da história da Argentina. Talvez tenha sido para o pensamento, para o ensaísmo, o que Victoria Ocampo, criadora da revista “Sur” e da Editora Sur, foi para o mecenato cultural e Jorge Luis Borges, Silvina Ocampo e Oliverio Girondo foram para a literatura. Deuses terrestres.
O significado de Bataclana

¹ A Editora Companhia das Letras vai publicar “Não Entender — Memórias de uma Intelectual” (216 páginas) no dia 7 de julho de 2026, com tradução de Elisa Menezes. O texto do Jornal Opção foi elaborado a partir da edição publicada na Argentina.
² Caídas del cielo — segundo a argentina Luciana Ramos, “é uma expressão para falar de algo bom, que aconteceu de maneira inesperada”. Ou algo assim: “Presentes de Deus”.
³ Bataclana. Consultei meus oito dicionários em espanhol, inclusive o “Diccionario da Real Academia Espanhola”. Nenhum contém a palavra. Só a encontrei no “Nuevo Diccionario Lunfardo” (Corregidor, 285 páginas), de José Gobello. O verbete está na página 34: “Mulher que, como artista de teatro, com o pretexto de cantar ou bailar, exibe seu corpo. De Ba-ta-clan, nome de um teatro frívolo de Paris”.



