Sai biografia de Luarlindo Ernesto, o jornalista que sugere que redação de repórter é na rua
09 maio 2026 às 21h00

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Integrante da Cosa Nostra, a máfia siciliana, o italiano Tommaso Buscetta escapou para o Brasil. Dom Masino, de Palermo, estava sendo perseguido por mafiosos da Sicilia, que chegaram a matar seus filhos e parentes.
No Brasil, Tommaso Buscetta (a TV Globo fazia um contorcionismo verbal incrível para pronunciar seu nome: virava algo como “Busqueta”) foi preso duas vezes. A primeira delas, em 1982, pela famigerada turma do delegado Sérgio Paranhos Fleury. Policiais corruptos “teriam” vendido sua liberdade (chegaram a torturá-lo).
Casado com uma brasileira, Tommaso Buscetta vivia tranquilamente no Brasil. Até que um repórter investigativo, Luarlindo Ernesto publicou uma reportagem informando sobre seu paradeiro. A polícia sentiu-se compelida a, mais uma vez, prendê-lo.

Enviado para a Itália, Dom Masino negociou com a Justiça — o juiz Giovanni Falcone —, entregou cerca de 300 mafiosos e, libertado, mudou-se para os Estados Unidos, sob proteção do governo americano e com nome falso. Morreu, de câncer, aos 71 anos, em 2000. (O jornalista Leandro Demori escreveu um ótimo livro sobre Tommaso Buscetta: “Cosa Nostra no Brasil — A Historia do Mafioso que Derrubou um Império”, Companhia das Letras, 288 páginas.)
Repórter da velha guarda, que aprecia frequentar as ruas e conversar diretamente com as pessoas, Luarlindo Ernetso tem 82 anos e continua na ativa. Ele já trabalhou em “O Globo”, “O Dia”, “Jornal do Brasil” e “Última Hora”. Sempre furando a concorrência. Não tinha e não tem apreço pelas versões oficiais. Pelo contrário, aprecia apurar os fatos antes mesmo de a polícia apresentá-los. Afinal, nunca se considerou “porta-voz” da polícia.

A história de Luarlindo Ernesto — que começa com o nome poético, meio parnasiano — merecia um livro. Tanto que a jornalista Elenilce Bottari (apresentada por Nelson Vasconcelos, de “O Globo, como “autor”, quando, na verdade, se trata de uma mulher) publicou o, por certo, imperdível “Luar — O Último Repórter dos Anos de Chumbo” (Letra Selvagem, 296 páginas).
O título é meio exagerado. Porque, a rigor, Luarlindo não é “o último repórter dos anos de chumbo”. Há outros, como Elio Gaspari, o notável jornalista da “Veja” (hoje, na “Folha de S. Paulo”), e Lúcio Flávio Pinto.
Mas certamente Luarlindo Ernesto é mesmo um dos últimos dos moicanos. Um daqueles profissionais que sugerem que a grande redação de um jornalista é a rua, e não os gabinetes com ar- condicionado, quase sempre geradores de “recórteres”, e de não de repórteres.

Amigo do criminoso Lúcio Flávio
Repórter e redatora experimentada, Elenilce Bottari pesquisou a vida do colega e decidiu escrever sua biografia. Ela diz que se trata de “o último dos moicanos da imprensa sensacionalista que revolucionou o jornalismo”. Tenho minhas dúvidas: terá Luarlindo Ernesto revolucionado o jornalismo? Talvez não.
O padrasto de Luarlindo Ernesto era bicheiro. Por isso aprendeu, cedo, que as ligações entre a contravenção e a polícia são fortes e inquebrantáveis.
Nelson Vasconcelos conta que, em busca de uma reportagem complexa, Luarlindo Ernesto, o Luar, “costumava se disfarçar de vendedor de limões para conseguir informações na rua, na linha ‘todo repórter tem que ir aonde o povo está’”.

A biografia é elegíaca? De certo modo, é. Mas não se trata de hagiografia. Tanto que revela que, quando a polícia matou o criminoso Cara de Cavalo (Manoel Moreira), em 1964 — ele havia matado o detetive Le Cocq (Milton Le Cocq d’Oliveira) —, Luarlindo Ernesto também atirou no cadáver. Assim como outros repórteres. “Fui o primeiro a atirar e o último a falar, preso de violenta emoção.” A polícia obrigou os repórteres a atirarem, para comprometê-los.
Lúcio Flávio Vilar Lírio, outro criminoso famoso, foi amigo de infância de Luarlindo Ernesto.
Atuante entre os 1960 e 1979, Lúcio Flávio era um bandido perigoso, hábil e inteligente. A história do “Passageiro da Agonia” foi contada num livro de José Louzeiro e em filme com o ator Reginaldo Faria. Era chefe de uma quadrilha, no Rio de Janeiro, e ficou célebre por causa de suas 32 fugas. O criminoso também denunciou a corrupção na polícia.
Há um filme, “Com as Próprias Mãos” (2023), de José Francisco Tapajós, sobre a vida de Luarlindo Ernesto.
Ouvido por Elenilce Bottari, José Francisco Tapajós disse: “Luarlindo é o Forrest Gump brasileiro. Parece que tudo o que aconteceu no Brasil nos últimos anos… você pergunta, e ele estava lá”.

