Repórteres precisam explorar duas questões cruciais. Primeiro, qual serviço o senador Flávio Bolsonaro — pré-candidato a presidente da República pelo PL — prestou ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master?

Porque banqueiros não saem “doando” dinheiro, à esquerda e à direita, sem receber nada em troca (financistas estão mais para personagens maus de Charles Dickens do que para Papai Noel). Flávio Bolsonaro teria prometido ao latin lover Daniel Vorcaro que, uma vez eleito presidente, poderia ajudá-lo a se erguer? Há conversas neste sentido?

Segundo, por que, se havia conversado com Daniel Vorcaro e feito o pedido de dinheiro para o filme sobre Jair Bolsonaro, seu pai, Flávio Bolsonaro não revelou o fato à imprensa? Se não o fez, é sinal de que preferia escondê-lo. O senador só se manifestou depois da publicação do furo de reportagem do Intercept Brasil.

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Eduardo Bolsonaro: o radical parece e maus-lençóis | Foto: Reprodução

Importa saber quem vazou a informação, com dados tão fidedignos, para o Intercept Brasil? O site prefere, lógico, manter a fonte no anonimato. Porque senão não receberá outras informações exclusivas. O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, de conduta até agora exemplar, parece desconfiar da Polícia Federal? É possível, mas o magistrado nada disse a respeito. Mas quer mais controle das investigações.

A imprensa, no caso o Intercept Brasil, fez o certo. Com uma denúncia grave nas mãos, não titubeou: levou-a ao conhecimento da sociedade.

Precavido, Flávio Bolsonaro tem insinuado que outras conversas — e até “imagens” — podem surgir. Porque não diz, desde já, o que é? O que mais conversou, pediu e ofereceu para Daniel Vorcaro.

A conduta da imprensa em relação ao furo do Intercept Brasil foi correta. Todos revelaram a fonte da informação, o Intercept Brasil, que pode “derreter” a candidatura de Flávio Bolsonaro a presidente da República.

Porém, há jornais e emissoras de televisão cometendo um micro erro. Quando o furo sai em outro lugar , dizem: “O jornal ‘X’ publicou e nós confirmamos a informação do Intercept Brasil”.

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Jair Bolsonaro: filme de louvor pode se tornar filme de terror | Foto: Divulgação

Pode ser que não, mas soa a informação mal ajambrada e mal costurada. Porque dificilmente a fonte do Intercept Brasil falou com outros meios de comunicação. Por temer vazamento da origem das informações.

Repercutir a informação publicada em outros sites, tudo bem: está correto. Sobretudo, errado é não repercutir aquilo que é de interesse público. Mas também é errado “pegar carona” na reportagem alheia, tentando se tornar meio dono do furo.

O Intercept Brasil às vezes parece exagerado, até sensacionalista. Mas as reportagens sobre Flávio Bolsonaro e, depois, Eduardo Bolsonaro, os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, foram muito bem-apuradas e bem-escritas. Uma lição de bom jornalismo — tanto que nenhum jornal deixou de citá-las. E não houve contestação por parte dos denunciados.

Fica-se com a impressão de que a revista “Veja” e o “Estadão” foram pegos com as calças nas mãos. Pareciam entusiasmados com Flávio Bolsonaro e agora, meios assustados, assistem o derretimento do pupilo da extrema direita.

O cacete federal no presidente Lula da Silva parecia (ou parece) menos jornalismo e muito mais campanha velada pró-Flávio Bolsonaro. Agora, quando o Banco Master e Daniel Vorcaro caíram no colo da extrema direita bolsonarista, “Veja” e “Estadão” vão se tornar mais cautelosos?

Muito provavelmente, a revista e o jornal — ambos aparentemente muito ligados a bancos — vão descolar o foco, quando a tempestade de Flávio Vorcaro e Daniel Bolsonaro amainar, para a corrupção no INSS.

Por sinal, a corrupção no INSS deve ser investigada com o máximo rigor — doa a quem doer. Esquerda, direita e centro, se estiverem envolvidos, devem ser denunciados sem contemplação. Qualquer tipo de proteção, seletiva ou não, será um crime contra o setor público e a sociedade.