Pode-se gostar ou não de Carlos Lacerda, que viveu apenas 63 anos, entre 1914 e 1977, mas o ex-governador da Guanabara é uma figura incontornável da história do Brasil.

Da década de 1930 à década de 1970, Carlos Lacerda esteve ativo na política e na vida cultural do país. Era uma de suas referências.

Mesmo cassado em 1968, Carlos Lacerda nunca parou de pensar politicamente. Talvez tenha nascido para ser político e jornalista de opinião.

João Goulart, Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda: líderes da Frente Ampla | Foto: Reprodução

Nas disputas políticas (que se tornavam pessoais), criticou e até atacou figuras de proa, como Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart, todos presidentes civis da República. Teve a coragem de criticar o general-presidente Castello Branco e, em seguida, foi retirado da política pelo general-presidente Costa e Silva. A ditadura parecia temê-lo, assim como parecia temer Leonel Brizola. Temia, portanto, duas personagens da direita e da esquerda.

Carlos Lacerda começou na esquerda, ao lado de Luiz Carlos Prestes, e depois enveredou para a direita, tendo apoiado Jânio Quadros para presidente, no início da década de 1960.

Ao movimentar pessoas por meio das ideias — muitas vezes excessivas —, o apoio de Carlos Lacerda ao golpe de 1964 foi decisivo. Pensava ser candidato a presidente apoiado pelos militares. Não deu pé. Os generais optaram por continuar governando o país, com civis em cargos subalternos, nos ministérios. Por isso, o civil entrou em choque e se afastou (e foi afastado) dos generais golpistas.

Jânio Quadros e Carlos Lacerda: grandes aliados no início da década de 1960 | Foto: Reprodução

Lacerda não foi apenas político. Escreveu literatura e uma infinidade de artigos (era um jornalista feroz, dono de jornal, a “Tribuna da Imprensa”). Deu um grande depoimento para repórteres do “Jornal da Tarde”. Foi um notável editor na Nova Fronteira. Era também um grande orador e um rival difícil de ser vencido nos debates parlamentares e outros. Sua inteligência era um verdadeiro punhal, dos mais rápidos e, às vezes, certeiros.

Lacerda era um democrata? Talvez seja a grande questão que os biógrafos e historiadores têm de apontar. Ele apostou no golpe de Estado de 1964, mas queria a instalação de uma ditadura longeva? Tudo indica que não. Tanto que rompeu com o governo militar e passou a criticá-lo abertamente.

O americano John Foster Dulles escreveu uma biografia, em dois volumes, de Carlos Lacerda. É boa? É ruim? Diria que é razoável, sobretudo porque recolheu quase tudo sobre o jornalista (um dos mais rápidos no gatilho dos trópicos), político, escritor, editor. Biografias datam-se por vários motivos. Às vezes, porque surgem documentos e interpretações novos. O tempo pode melhorar — ou piorar — a imagem de um indivíduo.

“Lacerda — Coração de Tempestade”

Depois de escrever uma biografia notável do comunista Carlos Marighella — uma história do Brasil no século 20, contada a partir de um indivíduo e de seus relacionamentos —, Mário Magalhães decidiu pesquisar, de maneira exaustiva, a vida de Carlos Lacerda.

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Mário Magalhães, jornalista, lança biografia de Carlos Lacerda em julho deste ano | Foto: Divulgação

O primeiro volume da nova biografia sairá, pela Companhia das Letras, com o título de “Lacerda — Coração de Tempestade” (por sinal, duas palavras que parecem contraditórias, mas os indivíduos podem ser muitas coisas, até trezentos e cincoenta, diria Mário de Andrade; portanto, ao menos no caso do personagem, talvez sejam complementares). Trata-se de um belo título, que, de alguma maneira, é definidor da história de Carlos Lacerda no “interior” da história brasileira.

“Lacerda — Coração de Tempestade” sairá “na última semana de julho, depois da Copa do Mundo”.

O Rio de Janeiro, cidade pela qual trafegou Carlos Lacerda, terá a primazia do primeiro lançamento. A biografia será lançada em 29 de julho, numa quarta-feira, na Livraria Travessa de Ipanema.

O “garoto de Copacabana” ganha, enfim, uma biografia atualizada. Mário Magalhães trabalha há anos na pesquisa e escritura do livro.