Governo de Cuba vai cair com ou sem intervenção dos EUA e Miguel Díaz-Canel será o novo Maduro?
16 maio 2026 às 21h00

COMPARTILHAR
No domingo, 3, eu estava na Livraria Travessa, no Shopping Casa Park, em Brasília, olhando livros de poesia editados em Portugal. Boas edições, mas com preços quase elevados. Com alguma sorte, o leitor pode encontrar “Prelúdio” (Relógio D’Água, 460 páginas, tradução de Maria de Lourdes Guimarães), de William Wordsworth; “Folhas de Erva” (Relógio D’Água, 523 páginas, tradução de Maria de Lourdes Guimarães), de Walt Whitman; “Os Poemas” (Relógio D’Água, 474 páginas, tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis), de Konstantinos Kavafis; e “Poemas” (Relógio D’Água, 114 páginas, tradução de Maria de Lourdes Guimarães e Fernando Guimarães), de John Donne.
Numa visita anterior, adquiri a poesia completa de Paul Celan. Não deixei o fígado na Travessa devido à esteatose. No mesmo dia, li, com atenção e prazer, vários poemas do livro que contém a poesia completa de Holderlin. Mas, como não quero perder nenhum dos rins, deixei o livro na livraria — templo de ímpios e, claro, crentes.
Mas, no domingo, 3, meu interesse saltou dos livros para uma conversa entre dois homens, de mais ou menos uns quarenta anos, sobre Cuba e os Estados Unidos.
A conversa era de pessoas instruídas e convergentes. Um deles disse: “Chico Buarque visitou Cuba e distribuiu medicamentos para a área de saúde do governo do país”. O outro homem, que estava com um livro sobre a China na mão direita, acrescentou: “Quem ajuda Cuba, neste momento, colabora para prolongar o comunismo”. O parça concordou: “De fato, o país precisa agonizar para o povo se rebelar e derrubar o regime”.

Um dos homens contestou: “O povo não vai derrubar o regime coisa alguma. Por isso defendo a intervenção americana. O presidente Donald Trump tem culhões e vai acabar com o comunismo em Cuba”. (Por sinal, o governo americano postula o indiciamento do onipresente Raúl Castro. A acusação é que teria dado ordem para derrubar dois aviões com opositores. O irmão de Fidel Castro tem 96 anos. Fala-se também em indiciar Miguel Díaz-Canel. Será o novo Nicolás Maduro?)
Escutei o diálogo de “iguais” e, silente, me posicionei para mim mesmo: “Se tivesse recursos financeiros, faria o mesmo que Chico Buarque”. Mas, ao contrário do compositor, cantor e escritor, não estou entre os entusiastas do regime instalado na ilha por Fidel Castro. Sistema que, cedo ou tarde, vai cair.
Lembrei-me desta conversa, que registro com precisão, pois a anotei, devido à entrevista do economista Carmelo Mesa-Lago, professor emérito da Universidade de Pittsburgh, à repórter Daniela Arcanjo, da “Folha de S. Paulo”.
A entrevista foi publicada, no dia 26 de abril deste ano, com o título de “Trump está apertando parafusos de Cuba como nunca antes, diz pesquisador”.

Aos 91 anos, Carmelo Mesa-Lago continua examinando os dados oficiais de Cuba com extrema atenção. Consta que o governo do país de Lezama Lima e Virgilio Piñera tem o hábito de “falsificar” estatísticas.
Ainda assim, sabem os especialistas, é preciso analisar o país a partir dos dados disponíveis, com a ressalva de que podem ser subestimados ou superestimados.
“Em 2023, o PIB caiu 1,9%; em 2024, 1,1%; em 2025, 5%”, frisa Carmelo Mesa-Lago. “São as cifras oficiais. No período de 2019 a 2025, o PIB caiu anualmente a uma média de 2,3%. Uma queda de cerca de 20 pontos percentuais.”
Carmelo Mesa-Lago sublinha que, “em 2024, Cuba ainda estava recebendo petróleo. Já era um problema em 2024, mas se acentuou em 2025 e 2025 devido ações de Trump”.
Dada a crise, que agora é mais forte, o regime comunista pode cair? Carmelo Mesa-Lago, como não tem bola de cristal, não apresenta uma resposta sobre a questão da queda. Mas admite que o regime enfrenta um problema grave por causa da falta de petróleo. “O governo Trump está apertando os parafusos de Cuba como nunca antes. Com a captura de Maduro, o fornecimento de petróleo da Venezuela à ilha cessa.”

A falta de petróleo é o principal problema. “Porque tem repercussões não só no transporte, mas também na indústria, na agricultura. (…) A escassez de petróleo não é novidade, mas a intensidade da escassez.”
O especialista cubano, radicado nos Estados Unidos, acrescenta que “há uma queda brutal da produção agrícola e pecuária” em Cuba.
O embargo dos Estados Unidos impede Cuba de sair da crise ou a crise é endêmica porque o socialismo deu errado?
Ao examinar cifras e estatísticas oficiais, Carmelo Mesa-Lago concluiu “que havia fatores compensatórios que aliviavam consideravelmente o embargo”.
Entre tais fatores estavam: “A ajuda venezuelana, o crescimento do turismo e os envios de remessas” (de cubanos que moram no exterior e mandam dinheiro e produtos para o país). “Todos esses fatores mais do que compensavam o cálculo oficial do embargo.”

Mas Carmelo Mesa-Lago — que não é favorável ao regime cubano — pontua que, “agora, o embargo está ocasionando um dano fundamental a Cuba. Eu diria que era secundário antes, mas a partir desta gestão de Trump já se converte em fator fundamental”.
O mestre cubano-americano enfatiza que “o sistema de Cuba tem sido um desastre. Há uma deterioração brutal nos serviços sociais. (…) A mortalidade materna voltou à situação de muito antes da revolução, dos anos de 1940. Diziam: ‘Falha a alimentação, mas temos acesso a medicina grátis e saúde universal’. Isso já desapareceu”.
Carmelo Mesa-Lago diz que não há como comparar as economias de China, Vietnã e Cuba. “O setor privado de Cuba não tem nada a ver com o da China e do Vietnã. O setor privado nesses dois países tem maioria no PIB; em Cuba, as micro e pequenas empresas não chegam nem à metade”.
Apesar de ser contrário ao regime comunista, Carmelo Mesa-Lago pensa como Chico Buarque (sigo pela mesma seara): “Sempre tentei olhar para as pessoas que estão sofrendo em Cuba. Para mim, o mais importante é que se alivie a penúria do povo cubano. (…) Eu quero que haja mudança, mas não quero que as pessoas morram de fome”.
Trata-se de uma posição humanista adequada, acima das ideologias. A ideia de quanto pior, melhor — não é a que defendo. Porque as elites cubanas vivem bem, com mordomias, mas o povão vive muito mal.
Em Goiânia, tenho conversado com alguns cubanos — dois deles estão empregados num supermercado da Nova Suíça. Eles trabalham na padaria. Dizem que não suportaram a miséria do país e, por isso, caíram fora. Não mencionam a falta de democracia, e sim as dificuldades para sobreviver na ilha.
O homem não tem curso superior, mas é instruído e fala muito bem. Quando digo que planejo conhecer Cuba, ele me olha, de maneira perplexa, e diz: “O sr. aprecia ver miséria?” Digo que tenho algum interesse pela terra de Lezama Lima, Virgilio Piñera, Alejo Carpentier, Cabrera Infante, Leonardo Padura, Nancy Morejón, Teresa Cárdenas, Zoé Valdés, Legna Rodríguez Iglesias, Karla Suárez e Wendy Guerra. “Não sou de leituras”, frisa.
O cubano diz que o Brasil “é um país maravilhoso”. Admite que não ganha um alto salário, mas acrescenta que vive “muito melhor do que em Cuba. Em Goiânia, cidade linda, eu posso comer bem melhor do que em Cuba e sempre tenho meu dinheiro”.
A mulher é médica, mas, como ainda não conseguiu legalizar seus “papéis”, trabalha no supermercado. “Quero trabalhar como médica. Mas, para sobreviver, tenho de trabalhar na padaria. Ainda assim, mesmo trabalhando numa profissão que não condiz com minha formação, adianto que vivo muito melhor do que em Cuba e não passo fome. Posso comer carne todos os dias e ainda me sobra um pouco de dinheiro.”



