Varejo goiano sente impacto das bets, dos juros altos e da inflação, afirma Sindilojas-GO
16 julho 2026 às 16h44

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A retração nas vendas do comércio varejista goiano em maio acendeu um alerta entre os empresários do setor. Em entrevista ao Jornal Opção, a presidente do Sindicato do Comércio Varejista no Estado de Goiás (Sindilojas-GO), Marisa Carneiro, atribui o desempenho negativo à combinação de juros elevados, inflação, inadimplência crescente, dificuldade para contratação de mão de obra e ao avanço das apostas esportivas, que, segundo ela, passaram a disputar espaço no orçamento das famílias.
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados nesta quarta-feira, 16, mostram queda de 2,8% nas vendas do comércio varejista goiano em maio, na comparação com abril. A Pesquisa Mensal do Comércio também registrou retração de 3,9% nas vendas do comércio varejista ampliado, indicador que engloba os segmentos de veículos e motocicletas, autopeças, materiais de construção e atacado especializado em produtos alimentícios, bebidas e fumo.
Segundo Marisa Carneiro, o resultado não pode ser explicado por um único fator.
“A queda nas vendas é resultado de um conjunto de fatores que atuam ao mesmo tempo. Temos juros elevados, aumento da inadimplência, inflação pressionando o orçamento das famílias, dificuldade para contratar mão de obra e um fenômeno relativamente novo, que é o crescimento das apostas on-line, desviando parte da renda que antes era destinada ao consumo”, afirma.
Para a presidente do Sindilojas-GO, o cenário econômico reduziu a confiança dos consumidores e levou muitas famílias a adiarem compras consideradas não essenciais.
“O consumidor está mais cauteloso. Diante do aumento do custo de vida e das dificuldades para acessar crédito, acaba adiando compras que não considera essenciais”, diz.
Bets retiram recursos do consumo
Na avaliação de Marisa Carneiro, embora as plataformas de apostas esportivas não sejam as únicas responsáveis pela retração do varejo, elas passaram a exercer influência crescente sobre o consumo.
“Parte da renda do consumidor, que antes era destinada ao varejo, está sendo direcionada para as plataformas de apostas. Isso reduz o dinheiro disponível para compras e afeta diretamente o comércio”, afirma.
Ela cita um levantamento da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), segundo o qual cerca de 40 milhões de brasileiros realizaram pelo menos uma aposta on-line no último ano.
“São bilhões de reais que deixam de circular na economia. Recursos que antes eram destinados à compra de roupas, alimentos, calçados, eletrodomésticos e serviços agora vão para uma tela de celular. Quando isso acontece em larga escala, passa a ser também um problema econômico.”
Segundo Marisa, o impacto vai além das vendas do comércio.
“Menos consumo significa menos investimento, menos geração de empregos e menor crescimento econômico. Esse fenômeno precisa ser discutido com a mesma seriedade com que debatemos juros, inflação e política fiscal.”

Juros seguem como principal entrave
Apesar de apontar diferentes fatores que pressionam o setor, Marisa Carneiro afirma que o elevado custo do crédito continua sendo o principal obstáculo para a recuperação do comércio.
“Os juros ainda representam o principal problema. Eles aumentam o endividamento das famílias, restringem o crédito e dificultam o parcelamento, que faz parte do hábito de compra do brasileiro. Muitas pessoas já parcelaram compras e agora enfrentam dificuldades para honrar esses compromissos”, explica.
Ela também destaca a inflação sobre itens essenciais, o aumento da inadimplência e a dificuldade enfrentada pelos empresários para preencher vagas de trabalho.
“Hoje o varejo convive com muitas vagas abertas que simplesmente não conseguem ser preenchidas. É mais um desafio para o setor em um momento de desaceleração das vendas.”
Capacitação e inovação
Diante desse cenário, o Sindilojas-GO tem intensificado ações voltadas à qualificação de empresários e colaboradores do comércio.
Segundo Marisa Carneiro, a entidade promove encontros para troca de experiências entre lojistas, debates sobre estratégias de relacionamento com clientes e treinamentos voltados ao fortalecimento da presença digital das empresas.
“Temos discutido a criação de comunidades de clientes, a importância do e-commerce e compartilhado boas práticas entre os empresários. Muitas vezes, a dificuldade de um também é a do outro, e esse intercâmbio fortalece o setor.”
Ela destaca ainda o lançamento do projeto Pulsa Varejo, previsto para começar em setembro.
“Até maio do próximo ano realizaremos palestras mensais em diferentes regiões da cidade para capacitar colaboradores e fortalecer a competitividade das empresas.”
Expectativa para o segundo semestre
Apesar da retração registrada em maio, Marisa Carneiro acredita que o comércio pode reagir ao longo do segundo semestre, impulsionado por datas tradicionais do calendário varejista, como o Dia dos Pais, a Black Friday e o Natal.
“O varejo é muito sensível às mudanças na economia. Se houver redução dos juros e melhora na oferta de crédito, a reação costuma ser rápida. O brasileiro é otimista e esperamos um ambiente econômico mais favorável para que as famílias voltem a consumir.”
Ao final da entrevista ao Jornal Opção, a presidente do Sindilojas-GO reforça que o desempenho do varejo funciona como um importante indicador da economia.
“O varejo funciona como um termômetro da economia. Quando vende menos, isso afeta os investimentos, a arrecadação e o ritmo de crescimento do Estado. O comerciante goiano continua investindo e inovando, mas precisamos de um ambiente econômico mais equilibrado para que o consumo volte a crescer.”
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