As reservas de terras raras em Goiás ganham destaque no cenário internacional em meio às novas tarifas impostas pelos Estados Unidos. Esses minerais, fundamentais para tecnologias avançadas e sistemas de energia e defesa, colocam o Brasil em posição estratégica nas futuras negociações globais. Contudo, sem uma política industrial clara, o país corre o risco de desperdiçar um trunfo valioso.

Ao Jornal Opção, Luiz Antônio Vessani, presidente do Sindicato das Indústrias de Mineração Goiás e Distrito Federal (Minde), explicou, nesta quinta-feira, 16, a relevância das terras raras no cenário geopolítico atual e a possibilidade de o Brasil utilizá-las como instrumento de negociação diante das medidas tarifárias impostas pelos Estados Unidos.

Segundo Luiz Antônio, a estratégia norte-americana está baseada em uma política ampla de geopolítica. “Os Estados Unidos estão buscando manter seu protagonismo mundial. Terras raras se inserem nisso porque têm a ver com a modernidade dos novos equipamentos e da nova tecnologia. Todo sistema de energia e de segurança hoje necessita das terras raras”, afirmou.

“Os Estados Unidos não têm. Eles desmobilizaram sua capacidade de produção e a China se aproveitou. O que temos hoje é essa busca intensa pela recuperação do protagonismo norte-americano em função da carência de terras raras”, completou.

O presidente do Sindicato da Indústria da Mineração do Estado de Goiás e Distrito Federal (Minde), Luiz Antônio Vessani | Foto: Cristiano Borges

Ele explicou que a ausência de taxação sobre esses minerais críticos é um sinal claro da importância estratégica para os Estados Unidos. “O fato de não haver taxação sobre as terras raras é um sinal absolutamente claro de que elas são importantes para os Estados Unidos”, disse.

No entanto, Luiz Antônio ponderou que o Brasil ainda não apresenta uma política nacional clara para utilizar esse recurso em negociações. “A posição do Brasil é essencialmente defensiva. Não consigo perceber como estamos trabalhando isso para resolver a questão do tarifaço. Seria importante que houvesse clareza maior de uma política nacional”, avaliou.

O ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo, já havia sugerido que o Brasil poderia barganhar com os Estados Unidos utilizando as terras raras. Vessani concorda parcialmente com essa visão. “É o trunfo que nós teríamos hoje. Se os Estados Unidos não taxam é porque estão precisando. A tendência é não taxar o que eles precisam e taxar o que compromete a capacidade de produção deles. Claramente, terras raras por isso”, explicou.

“Mas negociar é uma coisa, confronto é outra. Nós não temos um setor industrial de transição energética. Temos basicamente uma mina produzindo e outra que vai entrar em produção [sobre terras raras]. O nosso potencial é alto. Se tivermos uma visão industrial do setor, claramente seria uma ferramenta de negociação muito boa. Mas não é simplesmente usar as terras raras para negociar. É importante o Brasil ter clareza sobre a nossa estratégia industrial”, acrescentou.

Ao ser questionado sobre o diferencial brasileiro nesse contexto, Vessani destacou que não compartilha da visão de que as terras raras sejam o único trunfo do país. “O Brasil é hoje muito mais importante na questão da segurança alimentar do mundo. O alimento vai em todas as casas do mundo. Terras raras ainda não. A segurança alimentar é muito importante e está presente hoje. Terras raras são um olhar para o futuro. Ambos têm a ver com mineração. Quando você fala no trunfo de terras raras, o que temos que pensar é: nós somos protagonistas de minério ou somos protagonistas de ímã?”, concluiu.

O presidente apontou para a necessidade de uma política industrial clara e estruturada para que o Brasil possa desenvolver um setor produtivo baseado em terras raras. “Do minério até o produto final, tem uma sequência de indústrias que nós não temos. A grande pergunta é: nós teremos capacidade de criar um setor industrial utilizando terras raras?”, questiona.

Ele explicou que a indústria brasileira vem perdendo participação no PIB e que isso compromete qualquer tentativa de avançar na cadeia de valor. “A indústria perde importância no PIB. Então nós vamos perguntar por que a indústria perde importância. Você quer montar uma indústria em cima de terras raras, tudo bem. Mas precisa de uma política industrial clara, uma política de ponta”, afirmou.

O dirigente defendeu que o país deve pensar em produtos de maior valor agregado. “Nós temos que começar a pensar na pilha, na bateria, temos que começar a pensar no ímã. É de cima para baixo. Não é a mineração a fonte de soluções. Nós somos o sustentáculo das soluções”, disse.

“Quando que vamos ter uma fábrica de ímã? Você tem ideia? Ninguém tem ideia. Essa fábrica de ímã vai funcionar aqui no Brasil com a política industrial que nós temos? Com taxa, imposto, burocracia, custo Brasil?”, questiona.

Ao tratar das relações comerciais, o presidente do sindicato afirmou que o Brasil precisa de robustez tecnológica e industrial para negociar em condições equilibradas com outros países. “Não adianta ser só o recurso. A tendência é a gente ficar criando um monte de norma, um monte de lei em cima do recurso. Isso não ajuda. Eu preciso de indústria, não preciso de norma em cima do recurso”, declarou.

Sobre acordos comerciais envolvendo empresas estrangeiras com Goiás em relação a terras raras, ele apontou que não sebe exatamente o que está em curso neste momento. “Eu sei que tem um acordo, eu não conheço o acordo para falar sobre ele exatamente. Mas entendo que os acordos comerciais devem ser cumpridos. O Brasil tem autonomia de ditar as coisas aqui dentro, mas seria um péssimo sinal se houvesse quebra de compromissos”, disse.

O presidente reforçou que qualquer intervenção precisa ser inteligente e não pode ser usada como represália. “Não pode ser simplesmente usar terras raras para se vingar dos Estados Unidos ou usar como represália. Na prática pode até matar de vez o setor que só está começando”, alertou.

Ele concluiu defendendo que o Brasil deve estimular a industrialização sem prejudicar a mineração. “Se o Brasil quer industrializar, fantástico, que traga as indústrias, mas não atrapalha a mineração. Senão, na prática, mata o setor e acaba não fazendo nada”, afirmou.

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