A partir do dia 1º de agosto, a gasolina comercializada nos postos brasileiros passará por uma mudança importante em sua composição. O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, que saltará dos atuais 30% para 32%. 

O anúncio, feito pelo governo federal com a justificativa de baratear o combustível e diminuir a dependência do mercado externo, foi recebido com cautela pelo setor varejista. O principal alerta é sobre a real percepção desse desconto no bolso do consumidor. Embora o Ministério de Minas e Energia projete uma redução de cerca de R$0,03 por litro na distribuidora, o presidente do Sindiposto de Goiás, Márcio Andrade, faz um alerta: a queda nas bombas pode ser imperceptível.

Ao Jornal Opção, Márcio explicou que a estimativa do governo gera uma falsa expectativa nos consumidores. “A expectativa de média Brasil é 3 centavos lá na distribuidora. Tem que saber se os postos e distribuidoras vão repassar e quanto elas irão repassar, porque os preços são livres e as distribuidoras não têm a obrigatoriedade de repassar exatamente o que foi falado pelo governo”, explica.

O presidente do sindicato realizou cálculos específicos para a realidade local, cruzando os preços do etanol e da gasolina fornecidos pela Petrobras a Goiás. O resultado mostra que a redução no estado deve ser ainda menor que a média nacional: pouco mais de R$0,01. “O impacto vai ser muito pequeno e muitos consumidores talvez nem percebam. Por exemplo, a gasolina a R$6,84, cai para R$6,83. Não vai fazer muita diferença na percepção do consumidor”, pondera. 

“Temos preocupação com a falsa expectativa sobre a redução do preço da gasolina.” — Márcio Andrade, presidente do Sindiposto Goiás | Foto: Reprodução

Por que a medida foi tomada?

A mudança terá uma validade inicial de 180 dias, podendo ser prorrogada por mais seis meses. Do ponto de vista macroeconômico, a aceleração da medida é uma resposta direta à instabilidade internacional, especialmente diante dos conflitos no Oriente Médio, que pressionam o preço do petróleo.

Ao elevar o percentual de biocombustível nacional, o Brasil reduz a necessidade de importação de gasolina em cerca de 450 a 500 milhões de litros por mês. “Diminuindo a dependência do mercado externo, de importação, isso vai fazer com que as variações de preço do mercado externo tenham um impacto menor aqui dentro”, pontua Márcio Andrade, destacando as vertentes econômica e de descarbonização envolvidas na política ambiental do país.

Além do preço, Márcio Andrade também fez outro alerta sobre o impacto mecânico que essa mudança pode causar nos automóveis. Embora o governo afirme que os testes validaram o desempenho e a dirigibilidade sem impactos relevantes, entidades do setor automotivo e o próprio Sindiposto enxergam a mudança com ressalvas. “Acreditamos que esses testes que foram feitos foram meio assodados, não tiveram um médio e longo prazo para saber qual será a consequência”, aponta o presidente. 

Especialistas alertam que o etanol anidro possui capacidade de absorver umidade do ambiente, o que pode acelerar a corrosão em componentes metálicos e bicos injetores de carros que não possuem a tecnologia flex. Outro fator destacado pelo mercado é que a maior presença de etanol pode gerar uma perda sutil de eficiência energética, fazendo com que o veículo consuma um pouco mais para rodar a mesma distância.

Com o cenário externo volátil e a manutenção de incentivos federais e estaduais, a expectativa do setor é de que o preço da gasolina se mantenha estável nas próximas semanas. A resposta definitiva sobre o alívio (ou não) nas bombas e o comportamento da frota nacional começará a ser sentido somente a partir do dia 1º de agosto, quando o novo combustível de fato chegar às bombas.

Leia também: Governo anuncia ação contra alta dos combustíveis; Sindiposto aponta dependência de refinarias e distribuidoras