“O crédito virou instrumento de sobrevivência”, diz especialista sobre endividamento de 49% das famílias
27 abril 2026 às 18h53

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O Banco Central (BC) divulgou, nesta segunda-feira, 27, que o nível de endividamento das famílias brasileiras alcançou 49,90% em fevereiro, ultrapassando o recorde anterior de 49,88% registrado em julho de 2022. Em entrevista ao Jornal Opção, a economista Adriana Pereira de Sousa, professora da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás (Corecon-GO), analisa o avanço do endividamento das famílias brasileiras e alerta que o fenômeno não pode mais ser tratado como um dado estatístico distante ou como um problema individual isolado.

O cálculo é feito com base na Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias (RNDBF), indicador criado em 2005. A RNDBF considera salários, transferências governamentais, rendimentos de aluguel e desconta os tributos pagos, resultando na renda efetivamente disponível. O percentual de endividamento corresponde à relação entre o montante das dívidas acumuladas e a renda disponível dos últimos 12 meses.
Além disso, o comprometimento da renda, que mede quanto do orçamento mensal é destinado ao pagamento das dívidas, também atingiu um patamar histórico em janeiro de 2026. O índice chegou a 29,3%, um aumento de 1,8 ponto percentual em comparação com fevereiro de 2025. Quando se exclui o crédito imobiliário, o comprometimento ficou em 27,1%, igualmente o maior da série.
De acordo com o BC, modalidades de crédito emergenciais, como o rotativo do cartão, têm peso significativo nesse resultado. Enquanto financiamentos habitacionais são pagos em prazos longos, dívidas de cartão exigem liquidação rápida, pressionando de forma mais intensa a renda das famílias. Esses números fazem parte da série histórica iniciada em 2005 e refletem a crescente dificuldade das famílias em equilibrar orçamento e dívidas.
Adriana explica que quando observamos que o nível de endividamento se aproxima de metade da renda disponível das famílias, fica evidente que estamos diante de um fenômeno estrutural, que revela muito sobre o funcionamento da economia e sobre a forma como a sociedade tem sido conduzida a consumir.
“O crédito no Brasil continua sendo caro, a renda cresce de forma limitada e o custo de vida pressiona o orçamento das famílias, especialmente das mais vulneráveis. Em muitos casos, o endividamento não decorre de escolhas impulsivas, mas de uma tentativa de manter um padrão mínimo de consumo, pagar contas básicas, lidar com imprevistos, sustentar a casa. É o crédito sendo utilizado como instrumento de sobrevivência”, explica sobre há fatores econômicos clássicos por trás desse cenário.
Em relação ao nível de renda, destaca que é essencial nessa discussão. “É ele que define o limite real das decisões econômicas. Quando a renda é baixa, instável ou cresce menos do que o custo de vida, a margem de escolha praticamente desaparece. A restrição orçamentária se torna rígida, e qualquer imprevisto desorganiza completamente o equilíbrio financeiro. Nesses casos, o crédito não é uma opção estratégica, mas uma necessidade imediata”, comenta.
A especialista alerta sobre a diferença entre salário e renda real. “O aumento nominal de salários não garante melhora nas condições de vida se a inflação corrói o poder de compra. O que se observa, na prática, é uma renda que parece crescer, mas que compra menos. Esse descompasso empurra as famílias para o endividamento como forma de compensar a perda de poder aquisitivo”, afirma.
Um outro elemento relevante, segundo a economista, é a instabilidade da renda. “Uma parcela significativa da população depende de trabalhos informais ou de rendimentos variáveis. Isso dificulta o planejamento financeiro e aumenta a exposição ao risco. Sem previsibilidade, as famílias recorrem ao crédito para ajustar o fluxo de caixa, transformando a dívida em um instrumento recorrente de gestão do cotidiano”, explica.
Mas Adriana Pereira ressalta que o problema não está apenas na questão econômica. “Vivemos em uma era em que o consumo deixou de ser apenas uma decisão econômica e passou a ser também uma construção simbólica. As redes sociais expõem estilos de vida cuidadosamente editados, recortes de sucesso e padrões de consumo que estão distantes da realidade da maioria da população. A comparação social cria uma sensação permanente de insuficiência e altera a forma como as pessoas percebem suas próprias necessidades”, afirma.
Nesse contexto, o consumo passa a ser guiado pelo pertencimento na avaliação da economista. “Não se trata mais de comprar o que se pode pagar, mas de tentar acessar um padrão de vida que parece ser o ‘normal’ dentro do ambiente digital. E quando a renda não acompanha esse padrão, o crédito surge como ponte…muitas vezes, uma ponte cara e perigosa”, aponta.
A presidente lembra que a economia comportamental já demonstrou que as decisões financeiras não são puramente racionais. “O ambiente digital intensifica esses efeitos: encurta o horizonte de decisão, estimula a gratificação imediata e reduz a percepção de risco. O resultado é um aumento do consumo impulsivo, frequentemente financiado por crédito de alto custo”, explica.
Para Adriana, o que estamos vendo é a convergência de três dimensões. “Uma renda limitada e instável, um sistema de crédito caro e um ambiente social que estimula o consumo constante. O endividamento cresce exatamente nesse ponto de interseção”, diz.
Ela defende que enfrentar o problema exige uma abordagem ampla. “Passa por políticas públicas que reduzam o custo do crédito, ampliem a renda e protejam os consumidores mais vulneráveis. Passa por educação financeira, que ajude as pessoas a compreender o impacto das decisões no longo prazo. Mas passa também por uma reflexão mais profunda sobre o modelo de consumo que estamos naturalizando”, afirma.
Adriana levanta uma provocação que “Talvez o maior desafio não seja apenas equilibrar o orçamento, mas redefinir o que consideramos necessário. Em um ambiente em que tudo parece urgente, desejável e acessível, ainda que por meio da dívida, resistir ao consumo tornou-se, paradoxalmente, um ato de racionalidade econômica”, pontua.
“O endividamento das famílias brasileiras não é apenas um problema de números. É um retrato de uma economia pressionada, de uma renda insuficiente para sustentar padrões de consumo crescentes, de um crédito caro e de uma sociedade que, cada vez mais, consome sob o olhar constante dos outros. Entender isso é o primeiro passo para buscar soluções eficazes”, finaliza.
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